quarta-feira, 27 de abril de 2016

[Melancolia]

[Há poucas coisas que te fazem parar a correria dos dias. Poucas coisas que gritam "STOP", que te enregelam, que te mumificam no tempo e no espaço, que fazem com que nada mais importe. Poucas coisas que fazem parar os relógios e a luz do dia ou da noite. Poucas coisas que te fazem cancelar compromissos, projetos, agendas, ideias e o fervilhar do dia-a-dia. Poucas coisas que têm o condão de te fazer ficar assim, estática e inerte, mergulhada em pensamentos, memórias, conjeturas e planos que nunca se concretizarão. 
Um dia dizem-te palavras como "cancro", "pouco a fazer", "cuidados paliativos". E tu ficas a pensar no significado que as palavras, efetivamente, têm e a desejar não compreenderes bem, perceberem mal, estares equivocado. Um dia dizem-te que o dia que dizias que esperavas para antecipar e amortecer a dor no inesperado, o dia que temes desde a infância chegou. E tu paras e bloqueias e não dizes nada e não pensas nada e não consegues fazer nada. Ficas ali, presa ao chão, a constatar que alguém que amas desde que nasceste, alguém que foi uma referência masculina na tua vida, que fez- às vezes- a vez do teu pai vive com uma bomba relógio na cabeça e que a sua vida tem um curto-prazo de validade, como os iogurtes que tens no frigorífico. 
E tens medo dos dias que virão e queres parar o tempo, fazer rewind, voltar atrás e apagar cigarros atrás de cigarros, vidas boémias, gritar àquela pessoa com trinta anos (tu com 12) que é melhor parar, que ainda vai a tempo, que há vida para além da vida à toa, que vai conseguir deixar o tabaco, o álcóol, vida para além da vida que vive e viverá perdido. E queres voltar atrás e pedir à natureza, ao destino ou aos deuses que reescrevam o guião, que apaguem aquele desgosto de amor, que dêem rumo, que não permitam que alguém viva toda a vida perdido. Que alguém não morra por amor bem sobreviva por amor, que alguém escolha viver, encontrado. 
E o teu relógio do pulso não para nem a bomba-relógio na vida daquela pessoa que já cá estava quando nasceste, que sempre aqui esteve e tu sentes-te egoísta- isto não é sobre ti- e não queres continuar a perder gente que gostas assim, até não te restar passado e o presente ser luto e dor, velhice e bombas relógio, gente que amas com curto prazo de validade. 
Como se olha nos olhos alguém que sabemos que os vai fechar em breve? Para sempre. Como se diz "que vai passar" sem querer mentir, sem querer desonrar a verdade e a crueza com que sempre se trataram, como se consola o desconsolo? 
Como se espera a morte de alguém que amamos? Não a morte lá longe, a morte certa e próxima, sem data anunciada mas prevista. Como se espera ao compasso dos dias que caminham para o fim de alguém com que sempre partilhámos a nossa existência? Como se finge que vai passar sabendo que não vai, como se consola os outros que amam em eco connosco se as palavras se calam, os pés e as pernas se paralisam, se a vontade é de não fazer nada, ficar assim, calada e inerte, à espera que tudo pare, também?! Como se prepara a morte? Como se vive à espera que nos morra alguém que já está a desaparecer de dia para dia? Lua minguante de gente. 
Como se espera a morte de uma pessoa da nossa família que nos ajudou a ser gente? Como se vive à espera da morte? Como se espera?]

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