domingo, 10 de abril de 2016

No dia dos irmãos... deixem os filhos únicos em paz!



Descendo de uma longa estirpe de filhos únicos. Mentira, é só a minha geração da família que está pejada de filhos únicos mas, quase 36 anos de experiência na óptica do utilizador, permitem-me pedir-vos encarecidamente que... deixem os filhos únicos em paz!

1- "Os filhos únicos são mal educados"
A educação não depende do número de filhos: depende dos estilos parentais, do contexto em que nascem os filhos, do suporte familiar e do apoio social, das experiências de vida e de crescimento das crianças e dos vários contextos psicossociais onde ela está inserida.
Sim, há filhos únicos mal educados. E filhos com irmãos também. As birras, os maus humores, as fases todas do Freud e do Piaget, as emoções, as atitudes não são exclusivas dos filhos únicos. "Ah, mas os filhos únicos de três anos são narcisistas e auto-centrados!" Pois, pois. "E os filhos de três anos com irmãos berram por atenção e querem-na sempre quando o foco não está sobre si mas no irmão". Ah, isso não é taxativo! Para os filhos únicos também não. Os filhos únicos habituam-se com a atenção exclusiva e direccionada? Ah, mas os filhos com irmãos reclamam-na amiúde. As crianças têm necessidade- todas as crianças, todos os seres humanos- de um espaço e um tempo exclusivos, de uma atenção exclusiva e direccionada de vez em quanto.
"Atribuir a culpa exclusiva da "má educação" aos pais de filhos únicos é insultuoso, porque dá a entender que, com todos os recursos concentrados apenas num petiz, ainda assim não foram competentes o suficiente para os saber educar. É triste dizerem isso porque os meus pais fizeram um óptimo trabalho!"- defende a Carla e com muita razão. A Patrícia acrescenta "Eu sempre fui muito bem educada e nunca faltei ao respeito a ninguém. Nós somos fruto da educação que recebemos: quer sejamos filhos únicos quer tenhamos 10 irmãos".
Ah, mas os filhos únicos querem sempre atenção! Calem-se, pá, os filhos únicos muitas vezes querem é que os deixem em paz! 

2- "Os filhos únicos não sabem partilhar"
A partilha ensina-se. A maioria dos filhos únicos que conheço foi ensinada a partilhar e a retirar prazer da partilha. Regra geral, a quantidade de recursos (brinquedos, material didático, etc) é grande e exclusiva, a responsabilidade por a preservar em bom estado é do próprio filho único e não há qualquer ansiedade face sentimento de propriedade "fuçangueiro" das coisas. Eu podia dar sem medos, partilhar sem medos, porque sempre tive tantas coisas ao meu dispor, que se perdesse "momentaneamente" ou para sempre o usufruto de determinadas coisas, não era grave nem era o fim do Mundo. 
Diz a querida Bebiana que " no limite, para fazermos amigos para brincar, tínhamos que partilhar!". 
Eu acrescento que uma vez que os pais de filhos únicos são muito conscientes sobre os estereótipos de filho único fazem um esforço, racional, e adoptam estratégias pedagógicas de forma a evitar, contrariar e combater todos esses clichés!
Outra das evidências que corrobora essa teoria de que os filhos únicos são egoístas egocêntricos em oposição aos filhos com irmãos que cresceram altruístas e magnânimos com um instinto de partilha e de altruísmo inatos é a quantidade de filhos com irmãos que, após a morte dos pais, não se zanga/corta relações/entra em conflitos a propósito de heranças e... partilhas. 
A Márcia, membro honorário do maravilhoso Clube do Filho Único Quadripolar,  remata tudo com uma ideia essencial: "Fui ensinada a partilhar: partilha é uma opção, nunca uma obrigação!"

3- "Os filhos únicos são mimados"
A Bebiana, outro dos membros deste clube, diz com muita razão que "Não é o mimo que estraga. Mimar é amar. O que estraga é a educação". E o mimo é uma coisa má?

4- "Coitados, dos filhos únicos são uns tristes solitários!"
Regra geral, as pessoas tendem a confundir o facto de um filho único crescer sem pares (irmãos) com o facto de crescer sozinho. Cresci sem irmãos mas não sem pares: tinha as minhas primas, as minhas vizinhas de rua, as minhas amigas da escola (e do hospital). E cresci com os adultos. Não me venham com as tretas que cresci sozinha!
Se algumas vezes me senti só? Pois sim mas não era um estado permanente, uma tristeza sem fim. Acredito que, ocasionalmente, os filhos com irmãos também se sintam. Acho que não é um sentimento exclusivo. 
A Bárbara defende que "eu brincava algumas vezes sozinha e nunca me senti só. Acho até que pode estimular a criatividade e fazer as crianças explorarem novas formas de brincar". Concordo em absoluto, a capacidade de estar só é, no meu ponto de vista, fulcral enquanto momento de construção da identidade e da imaginação. 
Por sua vez, a Maria João defende que "a solidão é, quanto a mim, sentir-se só e desalentada. Estar só não é a mesma coisa que sentir-se só. Enquanto filha única eu estava (estou, por vezes) só, mas nunca me senti só". É isso. 

5- "Coitados, quando forem mais velhos vão ter que tomar conta dos pais sozinhos"
Cuidar é amor. Cuidar dos pais na velhice é uma tarefa e uma escolha individual de cada pessoa. Não há- como aliás em tudo o resto- verdades absolutas quanto a isto. Sociologicamente, em muitas famílias, os irmãos empurram essa responsabilidade uns para os outros (por "n" razões: emigração de vários irmãos, por falta de condições de habitabilidade, por falta de disponibilidade temporal e impossibilidade de conciliar vida profissional com essa tarefas, por falta de recursos emocionais, por incompatibilidades entre irmãos, e por aí fora...) e a tarefa acaba por recair apenas num ou numa entidade externa como lares de idosos e casas de repouso. A única diferença é que os filhos únicos sabem, à partida, que a responsabilidade de cuidarem dos pais ou de encontrarem recursos que providenciem estes cuidados será exclusivamente deles. E têm toda uma vida para projectarem essa como a única opção e para projectarem ou explorarem recursos nesse sentido, sem partirem de falsas premissas e sem darem como certas opções dos irmãos face ao mesmo tema. Cuidar dos pais na velhice é uma tarefa e uma escolha individual de cada pessoa- repito. O filho único saberá, tal como o filho com irmãos, qual o papel que quer, deseja ou poderá desempenhar nesse caminho. 

6. "Os filhos únicos têm tudo o que querem e nunca têm que lutar para conseguir nada"
Sim, nunca nenhum filho único herdou roupa dos primos. Sim, os filhos únicos chegam a uma colónia de férias cheia de outras crianças e os pais obrigam toda a gente a ser seu amigo. Sim, os filhos únicos têm todos uma mota aos 16 e um automóvel as 18, porque os filhos únicos são todos filhos de gente muito rica. Sim, os filhos únicos entram todos nas universidades que querem, encontram todos os empregos de sonho, nunca têm que fazer concessões ou sacrifícios. O Mundo verga-se e faz uma vénia a cada filho único que nasce. Ide-vos copular, sim?!
 O  facto de se ser filho único não define uma pessoa por si só e o rótulo de "filho único" já não quer dizer nada nem prediz ou vaticina o futuro de uma criança só porque sim. A maioria dos "filhos únicos " são injustamente rotulados e a expressão filho única encerra, sobre ela, um injusto estereotipo.  As crianças são o que a genética e o ambiente permitirá que sejam, independentemente te terem irmãos ou não. 

7- "Não te sentes triste por não teres irmãos?"
Tanta quanto me sinto triste por não ter nascido de  cabelos pretos e olhos verdes, Ou do meu grupo sanguíneo ser O-RH +. Ou de não ter nascido neta do Champallimoud. 
Nunca tive irmãos, logo, não posso sentir falta de um contexto que desconheço. A CArla conta, com graça, como reage quando um iluminado lhe diz " Não deixes o teu filho ser como tu: dá-lhe um irmão, um filho não é de ninguém!". Diz a Carla que "as pessoas assumem que é triste ser filha única. A questão e a parte doente de quem acredita isso é que eu não sou triste. Eu sou feliz sem irmãos mas as pessoas acham que eu digo isso porque "não entendo". Eu não digo que ter irmãos não deve ser tremendamente feliz. Mas eu sem irmãos também o sou. Quem não entende, afinal? Custa assim tanto perceber isso?" A Patrícia diz que " Quando me dizem isso respondo: ser como eu? Tipo ser fixe, confiante e uma boa pessoa?! Sim, vou deixar!" 
8- "Como só queres ser mãe de uma filha única? Um filho único não é nada!"
Sim, tendes razão: um filho único é imprestável. Vou já deitar esta fora. Ah, não? Então vou já mandar vir mais 2 ou 3 na esperança de virem salvar a honra desta e darem sentido à sua existência. Gosto tanto de ser mãe e da minha experiência de maternidade que acredito que deve ser fabuloso ter um rancho de filhos com as experiência positivas todas a multiplicar. A questão é que, para mim, ter um filho único traz-me toda essa realização de que preciso para ser feliz, todas essas experiências estão concentradas naquela bichinha, sou tremendamente feliz com esta experiência única de maternidade, logo, parem de me perguntar quando mando vir um irmão para a Ana, como se a minha família estivesse incompleta. Não está. A minha filha única é tudo para mim e preenche-me totalmente como os vosos dois ou três filhos também o farão a vós. Parem de me querer multifilhosevangelizar. "Fechaste a loja, Pólo Norte?" Não, não fechei. O meu útero foi mesmo uma maravilhosa experiência de loja pop up: abriu em todo o seu esplendor para a Ana e fechou para todo o sempre. Deixam-me agora em paz?

9- "Os filhos com irmãos são melhores pessoas"
Gandhi era filho único. Já Hitler tinha sete irmãos. Afinal, não há verdades absolutas, não é?


Obrigada à Maria João, à Patrícia Diogo, à Márcia Castro, à Bebiana Pereira, à Carla Snow e à Bárbara Estanislau pelo maravilhoso chat de focus group que deu origem a este post. Um maravilhoso brinde  PARTILHADO de filha única para filhas únicas: cheers!)

8 comentários:

Bigodes de Nata disse...

O dia dos irmãos está para ti, como o dia da mãe e/ou da criança, está para mim ...

Tânia Gonçalves disse...

Mas hoje nem sequer é dia dos irmãos, esse é dia 31 de Maio ...

Tânia Gonçalves disse...

Mas hoje nem sequer é dia dos irmãos, esse é dia 31 de Maio...

Purpurina disse...

Concordo contigo na maior parte das coisas que escreves neste texto: os filhos únicos não são mal educados, podem partilhar tão bem ou melhor que os outros, não são necessariamente mimados e, definitivamente, não têm tudo o que querem.
No entanto, enquanto filha única, o meu sentimento em relação a isso (provavelmente devido à experiência de vida diferente que temos), é totalmente oposto. Claro que isto é uma questão totalmente subjetiva mas ser filha única é um grande desgosto que sempre tive. Sempre me senti muito sozinha (mas tinha uns pais completamente ausentes e não tinha primos nem vizinhos da minha idade por perto) e bastante triste por não ter irmãos. Até aos 20 e tal anos desejei ter um irmãozinho, mesmo que fosse com uma grande diferença de idade.
Mas, em relação a cuidar dos pais mais tarde e mesmo em relação a todas as outras coisas, ter irmãos não é garantia de nada. Em muitos casos, certamente que ter irmãos é um problema. Mas, lá está, fantasiamos sempre com a realidade que não conhecemos. Eu mantenho que gostava muito de ter um irmão ou uma irmã. :P




Inês Pereira disse...

Como filha única que sou, e com muito orgulho, concordo em absoluto com tudo o que dizes! Esta coisa de colocar rótulos nas pessoas é do mais irritante que há.

ndnan.blogspot.com

Marisa Reis disse...

Eu sou filha única e concordo com tudo o que escreveste. O meu pai é filho único e o meu filho também é filho único (não por opção mas por ter sofrido 3 abortos). É engraçado todos esses rótulos que nos aplicam, a minha mãe tem 5 irmãos e o meu marido tem 2 irmãs, se são unidos... não, é uma festa cada vez que se vêm? também não, são mais felizes, altruístas, inteligentes, boas pessoas que nós? nem pensar... por isso... deixem-nos lá em paz e vivam a vida deles longe dos palpites acerca da nossa.

Da Cor das Cerejas disse...

Cada um tem os filhos que quer ou pode, não há nada mais chato do que gente a meter o bedelho. Eu que sou mãe de um amontoado, não ando a chatear as pessoas para terem mais filhos. Agora, em querendo e podendo, tento desmistificar a ideia de que mais filhos é sinónimo directo para mais trabalho e despesas...não é tanto assim.
Nunca fui mãe de um filho só, tive logo direito a jackpot, gémeas, e assim sendo, nenhum dos meus três filhos foi alguma vez filho único. Apesar disso, uma das cerejinhas tenho a sensação de que se daria bem a ser filha única e a outra iria ser uma filha única muito chata...o mai novo ainda sabe pouco da vida e para ele confusão é que é bom. E olha lá os episódios:
1 - a J estava com febre e eu de folga, aproveitei para ela ficar em casa e para ser mais prático disse à L que ficava também em casa. À noite, a J pediu-me para na próxima folga ficar sozinha comigo em casa, que preferia ter ficado sozinha comigo. Fiquei espantada com o pedido dela...
2 - às vezes, a J agarra em meia dúzia de bonecos, escolhe a divisão da casa mais recatada e pede para ficar ali sozinha "a brincar sossegadinha"...ela tem mesmo necessidade de estar só com ela ..talvez por haver sempre agitação à volta.
3 - ontem fui tomar banho, estava tudo orientado e eu podia tomar um banho sem ser expresso. Nisto entra a L. "Ó Laura, o que vens para aqui fazer?", "venho esperar" disse ela. A irmã estava num dos seus momentos a sós, o pai e o irmão na sala a ver televisão, a cadela a dormir e ela não consegue estar muito tempo sem interagir com gente, chega a ser atrofiante. Disse-lhe "filha, a mamã queria tomar banho e estar aqui um bocado sozinha, não percebes isso?". " Não. Já estiveste sozinha muitas vezes".
E esta pirralha descreveu bem a razão de ter um amontado de filhos, porque não quero estar mais sozinha, porque fico mais preenchida com mais do que um filho...correndo o risco de não perceber patavina disto, pois nunca soube o que era só ter um filho e andar a pensar se ficava por ali ou não.
No caso dos meus filhos, mesmo na que tem os acessos de filha única, tenho a certeza que o melhor brinquedo deles são os irmãos...e também podiam ser os primos ou os vizinhos ou os amigos...ou os pais. A felicidade não se mede pelo agregado familiar, mas sim pelo amor, mimo e afecto que os pais e família lhes dão.

Maria Sousa disse...

Eu fui filha única. Não por decisão dos meus pais mas por contingências da vida (tive mais dois irmãos que não sobreviveram). O meu filho é filho único, por escolha minha. Se é infeliz e alguma vez me pediu um irmão? Não! É feliz e sempre foi muito auto suficiente. Teve e tem muitos amigos que faz com grande facilidade. O meu marido tem uma irmã. Não estão zangados, nunca brigaram. Há mais de 6 anos que não se vêem. Vivemos na mesma cidade. Tenho uma nova sobrinha que nem conheço. No Natal, ultimamente nem um telefonema. Resumindo: é um irmão como aquelas viúvas de maridos vivos. Para todos os efeitos é filho único. E, realço mais uma vez que não estão zangados, nunca tiveram qualquer atrito e se se virem falam normalmente.Ter uma irmã com um feitio assim, é o mesmo que não ter nenhuma.(ela é mais nova 9 anos mas, lá está, são fruto da educação parental que tiveram).Por isso, nada é assim tão linear...ser filho único pode não ser a situação ideal mas ter irmãos pode ser igualmente pouco ideal. Conheço tantas situações de irmãos às avessas (graves) por causa das partilhas....meu Deus!)

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