quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Natal é quando três amigas quiserem

Gosto de tradições.
Gosto de criar rituais com as minhas pessoas. As tradições ajudam-nos a criar um código comum, a acertarmos os relógios para um determinado tempo e espaço partilhados, a reforçar ligações emocionais, a criar memórias colectivas partilhadas, uma identidade comum. 
Gosto que no Natal comamos sempre bacalhau com batatas cozidas e couves, mesmo que tenhamos que ter aberto a tradição a quem chega (e viva o polvo dos Açores!) como se cada elemento que entrasse reforçasse as memórias e as solidificasse, sem nunca deixar cair o que já existia (e às vezes a permeabilização a estímulos vindos do exterior é enorme). Gosto de bacalhau e aletria e mexidos no Natal, de saber que a árvore de Natal conta sempre com um enfeite novo todos os anos, gosto de saber que, o que quer que aconteça, no dia 08 de Fevereiro estarei sempre perto da minha mãe para juntas comemorarmos o seu aniversário, gosto de saber que todos os dias que jantamos em casa o fazemos à mesa da sala e sempre com a televisão desligada, gosto de incentivar a minha filha a ir ao "Pão por Deus" a cada primeiro de Novembro e beber um Mojito partilhado sempre que me consigo reunir com as minhas duas melhores que vivem fora de Portugal. 
As tradições trazem-nos um sentir comum, um sentimento de unidade, de respeito e esforço para que as pessoas sintam todas que fazem parte da mesma história, que estão comprometidas em criar laços comuns, que são leais, sentindo-se imprescindíveis na sua presença em cada tradição, precisas e insubstituíveis, que o todo só é todo com o alinhamento de cada um. 
As tradições transmitem estabilidade e segurança, a segurança de sabermos que, no matter wahat, naquele tempo e naquele espaço estaremos juntos, a unidade de que somos um todo, a exclusividade de pertença aquele núcleo, a sensação boa de pertencermos e de estarmos ligados uns aos outros, do passado ao presente, desde sempre e para sempre. A reforçar laços e a sentimo-nos comprometidos com os outros. 
É por isso que, desde que a Catarina voltou ao seu país Natal e a Xana emigrou em 2007 deixámos de trocar presentes no Natal e de enviar lembranças umas para as outras nos respectivos aniversários. Porque sabemos que, a cada reunião das três, a cada altura in usitada em que os relógios, os calendários e os meredianos se conjugarem e nos fizerem estar juntas no mesmo espaço e fuso horário, no mesmo sítio... comemoraremos o Natal. Mesmo que em Agosto no Luxemburgo, em Abril em Paris, em Março no Porto ou, agora, em Maio... em Famões. E comemoraremos sempre com um bolo de aniversário porque é Natal partilhado, é aniversário colectivo, é festa em nós. 

Ontem foi Natal para nós. 

Feliz Natal e Feliz Ano novo, miúdas!


(Reclamação pública aos senhores de "O Baloiço": bem sei que vos causou estranheza escreverem Feliz Natal no bolo mas a Xana sentiu-se defraudada quando percebeu que a cobertura não era de massapão mas sim de pasta de açúcar. Não se pode mudar assim as memórias de infância de bolos de uma lisboeta emigrada, senhores! Não há direito!)

1 comentário:

asminhasquixotadas disse...

Sou a maior fã de massapão e ODEIO pasta de açúcar. Deixa os bolos lindos, mas sabe mal. Compreendo a desilusão da tua amiga.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...