terça-feira, 10 de maio de 2016

[Da Festa do Avante à consulta de Oncologia]

[Ele levava-me ao primeiro Avante da minha vida. A minha mãe acedera porque era com ele, adulto, destrambelhado mas adulto. A Claudinha também vinha e não falávamos de outra coisa nas férias grandes que antecederam aquele Avante. Ia lá estar o Sérgio Godinho e o Álvaro Cunhal ainda era vivo e discursaria. 

Eu levei-o ao Hospital, aquela sala de espera da primeira consulta de Oncologia. Os dois sozinhos a tirarmos a senha com o número oito, um número redondo como as lágrimas que sempre travo. Na música ambiente da sala de espera do hospital Sérgio Godinho cantava, não poderia ser coincidência. 


Fomos de transportes públicos- lembro-me bem. Primeiro o comboio, depois o barco e depois um autocarro que nos deixava mesmo à porta da Quinta da Atalaia e não nos calámos a viagem inteira até à Margem Sul. Era robusto aquele meu tio solteirão e bon vivant e sentíamos-nos importantes por irmos com ele ao nosso primeiro Avante. 
Lá dentro deixou-nos livremente, confiava em mim, sempre confiou. Combinámos uma hora para nos encontrarmos, no final da noite, naquele mesmo lugar onde nos separáramos. 

Não falámos. Nada. O meu tio é da geração que cala os sentimentos, que não dá voz aos pensamentos nem suspiros às angústias. Eu, calada, não há nada que se possa dizer quando sabemos que a vida tem prazo de validade, quando recebemos a notícia da morte com aviso de recepção. Já não é robusto, este resto do meu tio que sobra, quarenta e sete quilos, o médico mandou-o pesar, despir-se da cintura para cima. O meu tio numa sombra a lembrar as vítimas do Holocausto, o mesmo tronco do meu avô antes de morrer e eu a não segurar um soluço e a abafar no nó da garganta o choque. 
Deixou de ouvir de um ouvido. Ouve mal do outro. o tumor empurra e não o deixa ouvir. Pede-me que seja eu a tratar de tudo com o médico, dos exames, dos tratamentos, dos medicamentos, dos procedimentos e do protocolo. Diz-me que no final eu lhe explico tudo e fica de olhar vazio, o mesmo olhar da minha avó nos últimos anos, olhar de desesperança. Confia em mim, sempre confiou. 

Eu a passear com a Claudinha no Avante. Os bips presos na presilha do cinto. O sabor da liberdade e a sensação de que se está a crescer, que somos crescidos, cada vez mais independentes. Encontros casuais com amigos de Verão, comer coisas boas nas tascas, dançar, explorar o espaço, o ambiente, rodopiar na festa. As horas a passarem e o ponto de encontro marcado, naquele mesmo lugar onde nos separáramos, 

Eu a acompanhar o meu tio ao guichet para marcar ressonâncias magnéticas, exames complementares, sessões de quimio e de radioterapia, cuidados paliativos. A secretária a pedir-me um número de telefone, o meu número de telefone. "É filha?" "Não, ele não tem filhos: sou sobrinha!" O sabor amargo da doença e a sensação de que se está a envelhecer, que ficamos velhos à medida que nos faltam as pessoas do princípio da vida, cada vez mais dependentes das que resistem, das que ficam. As horas a passarem e a maldita doença a avançar para um lugar e um tempo onde nos separaremos para sempre. O mesmo olhar perdido e vazio da minha avó (e a voz dela na minha cabeça "Olhai uns pelos outros quando eu já cá não estiver).

"O povo é quem mais ordena". 

O amor é quem mais ordena. 

Sérgio Godinho lá como aqui: "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida". ]
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