segunda-feira, 16 de maio de 2016

Eu também não divido comida

"Eu não divido comida. A menos, claro, que seja uma questão de vida ou morte. Mas, para questões ordinárias, não divido. Não deixo que cutuquem meu prato, nem ofereço mordida ou gole, especialmente se houver canudo envolvido, porque um pouco da saliva sempre volta, e saliva fora da boca é baba, e eu não quero a baba alheia, a não ser para casos de lubrificação que não (necessariamente) tenham a ver com comida. Eu não sei dançar, nem cantar, nem tocar. Não sei emitir nota fiscal, declarar imposto, fazer pagamentos pela internet, lembrar de senhas. Sinto tédio quando escuto as palavras cartório, junta comercial, reconhecimento de firma, autenticação, derivativo, superávit – especialmente o primário. Minhas especialidades envolvem qualidades pouco rentáveis (o que talvez explique o tédio por todas as palavras acima): adivinhar a hora, fazer baliza, saber o tamanho exato do recipiente para guardar o resto do jantar, lavar louça e deixar roupas com o cheirinho do amaciante. Sou um acidente geográfico: nasci no Rio com pele de cidadã norueguesa. Não gosto de praia, de areia, de calor, de água salgada. Nem de ficar melada, a não ser para ocasiões que exijam algum tipo de lubrificação e que não (necessariamente) envolvam praias. Acredito em reencarnação, no Corinthians e em café da manhã. Como Nelson Rodrigues, sei que o sábado é uma ilusão, e é aos sábados que sou mais feliz. Não como berinjela nem em nome da paz mundial. Me emocionam Proust, Dostoiévski, Eça, Machado, um gol do meu time aos 45 do segundo tempo, ou antes ou depois dos 45 a bem da verdade, e acordar ao lado de minha mulher. Mas mais do que tudo acordar ao lado de minha mulher. Tenho a ginga social de uma criança de cinco anos. Em festas, sou aquela que fica num canto deslocada. Por causa da deficiência social, não gosto de sair de casa. Mas saio quando é preciso. Por exemplo, para ir ao supermercado ou à livraria. Queria saber meditar. E dançar. Mas mais meditar porque dançar eu danço mesmo sem saber. Na sala, com o meu objeto de devoção agarrado em mim. De verdade mesmo, sei apenas escrever e amar. Exatamente como sugeriu Antonio Maria: escrever com dois dedos e amar com a vida inteira."

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