terça-feira, 3 de maio de 2016

Toda a verdade sobre o nascimento do BA*

Daqui a dois dias estarei perante uma plateia de jovens universitários a falar sobre o nascimento do Bairro e o papel que o blog teve (tem) na mobilização de pessoas em redor de causas sociais.
Ando aqui, numa angústia que só visto. Não sou boa oradora, falo muito depressa, atropelo-me a contar histórias, abro tabs na conversação umas atrás das outras, deixo algumas em aberto, sou meio caótica.
Pensei começar com este vídeo, uma coisa inspiracional e tal e falar de sonhos e de como este sonho num movimento comunitário organizado me escolheu a mim.

             

Mas dizia-me o Paulo, principal culpado responsável da existência do Bairro, pai do bicho, que se é para contar, é para contar tudo mesmo, Só a verdade e nada mais que a verdade. 

Quando fomos aos Açores entregar a cadeira à Mariana, dois desconhecidos num blind-date, numa blind-trip, estivemos dois dias em Ponta Delgada. No primeiro dia entregámos a cadeira à Mariana numa cerimónia bonita, bonita e ainda demos uma volta à ilha, pois fiz questão de mostrar ao Paulo os pontos mais bonitos de S. Miguel. 

No regresso, o meu amigo Valter, proprietário da famosa Salsicharia Rosa, decidiu oferecer-me um cabaz de produtos discretos para eu não ter saudades da carne dos Açores já aqui em Lisboa: morcelas, carne de vaca, linguiças e... língua de vaca. Foi assim, já na gare que o "corisco" me deu o farnel todo embrulhadinho para trazer para casa com uma advertência: "Isso passa tudo no controlo sanitário do aeroporto. O pior é a língua de vaca..."

Ora, eu e o Paulo trazíamos uma mala comprada nos chineses carregadinha de produtos açorianos: queijo, pimenta da terra, queijadas várias, licores, chás gorreana, tabaco e tudo e tudo. Encafuámos a carne lá para dentro e rezámos para que a língua de vaca não levantasse granel na alfândega do aeroporto. 

Já dentro do avião, cansados, adormecemos nas respectivas cadeiras. Quer dizer, adormeceu o Paulo e mais ninguém dentro do avião pois, passados uns 10 minutos, começou a ressonar tipo rebarbadora, serradora eléctrica, picareta... numa sinfonia conjunta. Coisa grave mesmo. 

Toda a gente a olhar-me de lado tipo "Hey, acorda o teu marido que está a ressonar que nem um porco" e a fazerem-me olhos de reprovação. E eu muito envergonhadinha, muito constrangida. Só que o Paulo não era o meu marido, eu conhecera o Paulo na véspera e não tinha a menor confiança para lhe dar um safanão e mandá-lo calar-se. Me-do. 

A esta altura já eu estava com vontade de ser língua de vaca e de viajar encafuada no porão. De repente ouve-se um "PLOC" e silêncio: o Paulo acordou de súbito.

Pergunto-lhe "Tudo bem?" e o tipo acena-me com a cabeça. "Mas estás mesmo bem?"- insisto. Acena-me novamente, enquanto olha, insistentemente para o chão. Tento fazer conversa e ele não me dá troco, grunhe uns "huns"  e continua de olhos pregados no chão. Começo a pensar "queres lá ver que já disse algum disparate e ofendi o homem?" e a ficar nervosa. Ele desaperta o cinto e começa a procurar qualquer coisa aos nossos pés. Desvia a minha carteira e continua de olhos pregados no chão a mirar tudo. "Precisas de ajuda?"- insisto. Outro "hum" de resposta. Começo a  ficar nervosa e decido ajudá-lo. "Estamos à procura do quê?"- volto à carga, mas já amainada, que já começara a pensar que o homem era doido de todo. Nada. Não me responde e continua à procura. E eu também, à procura de não sei o quê, mas à procura. 

Às páginas tantas vem a hospedeira muito prestável: "Precisam de ajuda?". E o Paulo acena com a cabeça, que não e continua em silêncio. Vinte minutos naquilo e eu continuo sem perceber nada. Às tantas faz-se luz e pergunto, a medo: "Paulo, perdeste a placa, perdão, a prótese dentária?". Finalmente, ele acena que sim.

A hospedeira que ainda não tinha desgrudado percebe o que se passa e começa desde as primeiras cadeiras na 1º classe a perguntar, fila a fila, "Peço desculpa, consegue verificar se por acaso, com a trepidação, tem alguma prótese dentária no chão à frente da sua cadeira?". Sublinho; desde as primeiras cadeiras e nós estávamos cá atrás. 

Às tantas, com o stress, o Paulo lá me explica que estava na Clínica Maló a colocar implantes e que aquela placa era provisória. E foi, de gatas, que encontrámos os ditos, quase a morderem-nos os pés. Literalmente. 

Passámos o resto da viagem a rir, entre a diversão da aventura da placa e o medo da língua de vaca nos denunciar. E foi aí, nessa cumplicidade maluca, nessa quadripolaridade partilhada, que ele me perguntou, enquanto voávamos sobre o Oceano Atlântico, se eu queria criar uma associação. E eu disse que sim, na hora. 
Porque quando reconheces alguém com uma pancada semelhante à tua sabes que só pode dar certo. 

Eu podia falar de sonhos e de como este sonho de uma associação que assenta na participação comunitária, nas premissas básicas da Psicologia Social, me escolheu a mim. Só que era mentiria.

O Bairro nasceu porque duas pessoas partilharam uma história que metia dentes postiços e língua de vaca. E porque, mesmo assim, acreditaram que conseguiam mudar, um bocadinho que fosse, o Mundo. 

Até que a morte a alfândega os separasse. 


[Vai assim com as iniciais para os motores de busca não detectarem este post :P]

2 comentários:

SIRF disse...

altameeeeeente! O que eu me ri ao ler este post! E agradeci tê-lo feito em casa pois de outra forma acho que me tinham chamado de tontinha! LOL

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Tão bom!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...