terça-feira, 7 de junho de 2016

Analfabetismo em 2016 e responsabilidade social à séria



Quando, há dois anos, me pediram ajuda para gerir um projecto ao nível da psicologia social nunca pensei que, dez anos depois de ter deixado de colaborar com aquela instituição, fosse encontrar uma realidade pior que a que tinha deixado. 

Em 2016 existem jovens adultos, todos com idades superiores a 16 anos, a quem nunca foi dada a oportunidade de aprender a ler e a escrever. 

Em 2016 existem jovens adultos com deficiência motora, sem comprometimento cognitivo que o justifique, que nunca tiveram acesso à escola- tal como a conhecemos- por assumpção empírica e sem evidências reais de que não teriam potencial de aprendizagem ao nível da educação formal. 

Em 2016 existem jovens adultos que, devido às suas limitações motoras, não têm acesso a postos de trabalho que impliquem requisitos físicos e nunca terão acesso a postos de trabalho que implique competências de literacia. Existem jovens que querem trabalhar, ter um papel activo na sociedade, contribuir para o PIB, pagar impostos e que não podem porque para além da incapacidade dos seus membros inferiores ficaram metaforicamente "de mãos atadas".

Em 2016 existem jovens adultos que não trabalham e que vão para escolas de "educação especial" fazer grafismos durante anos, como se fossem crianças eternas, infantilizadas para sempre, para se entreterem, para passarem o tempo. Existem jovens que não trabalham e que os pais mantêm cativos em casa, a servirem de damas de companhia a avós velhas, a deitarem um olho a sobrinhos irrequietos, a olharem pela janela a ver o Mundo lá fora, porque há prédios nas cidades sem elevador e sem se ler não há internet nem livros, só janelas para a rua. E o Mundo a acontecer. 

Em 2015, a Ana e o Rogério ouviram esta ladaínha da minha boca. 

E contaram-na à Leonela Santos da R.2-comunicação E Publicidade Lda por altura do Natal. E a Leonela ofereceu ao marido este presente em vez de um perfume caro, de uma peça de roupa de marca, de uma playtation ou de outro presente caro: a oportunidade de canalizar esta valor para mudar o Mundo de duas pessoas. 

O presente do Paulo foi este: custear mensalmente o programa de alfabetização de duas pessoas que não sabem ler, uma delas que quer ser cozinheiro mas que nunca poderá preparar um prato sem saber ler rótulos e receitas, outra que gostava de comunicar com a família que está longe mas que sem letras não sabe ligar um computador, enviar sms, gerir uma conta de facebook, comunicar no ano 2016. 

O pessoal da R.2-comunicação E Publicidade Lda quis associar-se a este projecto e fazer dele não apenas um projecto pessoal da Leonela e do Paulo mas um projecto de todos. E ofereceram mochilas, cadernos personalizados e material escolar bonito para que a aprendizagem seja mais colorida. 

Obrigada, Leonela, Ana e Rogério. E obrigada, especialmente ao Paulo. 2017 promete ser um ano com letras e números, receitas experimentadas e chamadas de skype. E, depois, quem sabe, o desejado emprego, a desejada inclusão social em pleno. 

Tudo graças a vós. 

3 comentários:

Patrícia disse...

Só por curiosidade, esta iniciativa envolve mais beneficiários para além destes dois? Estão ligados a alguma instituição que os apoie?

Pólo Norte disse...

Olá Patrícia,

Esta iniciativa tem uma lógica de apadrinhamento. Há mais pessoas, em situação análoga, à espera de mecenas que permitam a sua inclusão no programa.
A entidade que promove e dinamiza este projecto é a ASBIHP- Associação de Spina Bífida e Hidrocefalia de Portugal para onde poderá ligar para vonhecer melhor o projecto.

Obrigada pelo seu interesse.

Patrícia disse...

Vou ligar esta semana. Talvez consiga uns pozinhos de perlimpimpim.

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