sábado, 25 de junho de 2016

Análise sociológica dos Húngaros em 3 actos

Húngaros fofinhos. Só que não. 



Acto I

É madrugada e queremos apanhar o autocarro 16 que nos levaria a Buda. Entramos no autocarro, estendemos a nota e o motorista informa-nos que não tem trocos. Eu já estava sentada num banco e o motorista sugere que mámen saia do autocarro e vá comprar bilhetes nas máquinas do metro, ali ao lado (os bilhetes são iguais). 
Mámen sai e (literalmente) um minuto depois o motorista decide que não vai esperar pelo passageiro que teve que ir comprar bilhetes sem ser a bordo porque ele próprio não tinha trocos. E arranca. 
Comigo a bordo. 

Acto II

No último dia, depois do secretariado ter assumido o erro e garantido que nos custeavam todas as despesas inerentes à nossa estadia não programada, almoçámos no hotel. À saída, o empregado da recepção garantiu-nos que tínhamos que pagar a refeição. Explicámos que não, mostrámos o email que a nossa interlocutora tinha enviado para o hotel como o nosso cc a pedir que a invoice fosse emitida no nome da Companhia e que todas as refeições estivessem incluídas. 
Resposta: "Aqui diz todas as refeições mas não especifica". 
Não estávamos a perceber: mas não especificava o quê? 
"Não diz jantar de domingo e almoço de segunda. Diz só todas as refeições!"
Pergunto-lhe se está a brincar comigo. 
"Não". 
Para não armar chinfrim paguei e pedi um comprovativo do pagamento para que a Companhia me ressarcisse. 
"Não"- foi a resposta. 
"Não quê?". continuei. 
"Não te dou o recibo, isto é para a contabilidade do hotel!"
Respiro fundo. Ligo para a Companhia. Ele recebe um email da minha interlocutora e arranca-me, literalmente, o cartão de crédito da mão: "I'm gonna refund you"
Filho, "refunda" o que quiseres com esse ar aziado, mas no fim dás-me os recibos dos dois movimentos contabilísticos, explico-lhe. 
"Não". 
Subo para o balcão (o meu metro e sessenta obriga-me a dar pulinhos para chegar aos colarinhos das pessoas), aponto-lhe o dedo e espeto-lho no peito: "Dá-me os dois recibos. Já!"
Deu fotocópias. Para lhe sacar os recibos acho que tinha que o espancar. 

Acto III

Nós perdidos no meio da cidade: "Desculpe, pode dar-nos uma informação?"
"Não"
Dirigimo-nos a um polícia: "Desculpe, temos uma dúvida quanto a transportes: pode ajudar-nos?
"Não. Sou polícia!"
Ficámos sem bateria no telemóvel e no bar onde fomos ver parte do jogo Portugal- Áustria pergunto, por cortesia, ao empregado se posso pôr o bicho a carregar numa tomada que ali tinha à beira.
"Não"
Estamos com uma vista brutal da Chain Bridge e pedimos a um transeunte se nos pode tirar uma fotografia aos dois. 
"Não." 


Uma simpatia que só visto.


Epílogo

Segunda viagem para o aeroporto depois do engano dos voos. 
Todos os taxistas que nos calharam na sorte não falavam quase nada de inglês e este começou logo a meter conversa. Era simpático e começou a contar a sua história. Que era russo e tinha sido polícia antes de ter emigrado para a Hungria e ser taxista. Conversa puxa conversa e falamos de futebol. Ele aborda a tensão entre os adeptos ingleses e os russos. "You know, they don't know us; we'll kill them!". Rimos da força da expressão. Ele continua" Nós, os russos falamos uma vez para as pessoas. Se elas não perceberem... then we kill them". Mais uns quilómetros e fala sobre a família. "Tenho 54 anos e a minha mulher 41. Agora sou uma homem novo. Mais calmo.Já não mato ninguém há mais de três anos..."
Olho para mámen e começo a rezar a todos os meus santinhos. Caraças, e se o homem parvo da recepção,  que por acaso, até foi quem chamou este táxi, mandou um homicida limpar-nos o sebo? O aeroporto nunca mais se avistava.  À chegada transpirava em bica. Demos-lhe uma gorjeta generosa, só por causa das coisas, O taxista despede-se de nós; "you're nice people. E would never killed you". 
Saímos no aeroporto e vim até Lisboa a olhar para trás para ver se ele nos seguia, 

Sobrevivi a Budapeste. Nem eu sei bem como.



2 comentários:

méli disse...

Quando era miúda fui a Budapeste com o meu irmão, ainda mais miúdo que eu. Ficámos impressionados com tanta boçalidade. Entretanto, mais velha, estive na Roménia e até me esqueci que os Húngaros eram antipáticos. :)
Sobre o teu epílogo, deixo-te este link : http://www.portoeditora.pt/imprensa/noticia/ver?id=36503 . Um livro brilhante, mas que me pôs com insónias durante mais de um mês. É que eles matam mesmo...

Sílvia disse...

Eu realmente gostava muito de ir a Budapeste mas diga-se que com essa simpatia toda até fico de pé atrás. Deus me livre!

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