segunda-feira, 13 de junho de 2016

Do nojo geral

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Sexo, bufos e os filhinhos da mamã


Circula na Internet um vídeo de um casal que faz sexo à luz do dia ao lado de uma criança de 10 anos, que assiste. A melhor série que vi nos últimos tempos foi a Candice Renoir, na RTP 2, uma impecável crónica de costumes da actualidade, em França, mas que podia ser aqui ou noutra qualquer sociedade ocidental. É um espelho do que somos hoje. Nem por acaso no episódio deste Sábado, a Candice, uma bela e irreverente inspectora da polícia, descobre que a filha e os colegas com 16 anos roubaram um exame e confronta-os, aos gritos de indignação. Alguns deles, com 16 anos, protegidos por um grupo de 20, insultam-na. A filha diz-lhe que a detesta e sai da casa da mãe, para casa do pai – o casal está separado. Um dos miúdos filma a cena dos berros e insultos, coloca na internet, ela é alvo de chacota e o procurador-chefe confronta-a dizendo que ela põe em causa a imagem da polícia. Portanto o grave não foi roubar o exame, copiar, insultar em grupo uma senhora, mais velha, desrespeitar a mãe, e filmar, numa invasão escandalosa da privacidade – tudo isto na minha infância chamava-se roubo, mentira, delação. O grave foi, imaginem!, que ela gritou com os pobres adolescentes, já se sabe, Oh a adolescência!, e isso colocou em causa a “imagem” da instituição. Já o procurador actuar assim é uma defesa da “imagem da instituição”.
Não sei se configura crime a cena de sexo e que tipo de crime, mau gosto, puro exibicionismo, simples estupidez e brutalidade sobre a criança, tenho a certeza que é. Mas sei que nada legitima que esse vídeo seja colocado na internet, mesmo que seja isso que o casal “estava mesmo a pedir”. Chamam-se as autoridades competentes, entrega-se a prova e o caso fica fechado em investigação. Os emails pessoais, os vídeos, as gravações estão protegidas. Abri-los, expô-los, filmá-los é exactamente o que se fazia na sede da polícia política, chama-se totalitarismo – violação de correspondência, imagem, privacidade. Não me venham dizer que o problema central se resume à cena degradante do sexo ao lado da criança – aliás, se a achavam degradante, como eu acho, podiam ter interrompido, aos berros, em vez de se colocarem de fora, caladinhos, a assistir, até ao fim, filmar, e depois, sob anonimato, colocar online.
A bufaria está instalada na nossa sociedade e é bom que quem tem ainda dois neurónios a funcionar e quer que fiquemos a viver neste país, comece a levantar processos em tribunal a esta gente que circula a nossa correspondência e a nossa voz e imagem, e que quando eles passem na rua sejam tratados como reles informadores, que é isso que são. Já agora, filho meu que assistisse em silêncio aos colegas a insultar-me, com ou sem razão, chegava a casa e ficava um mês de castigo. Se o pai o recebesse depois disso em casa, em fuga da sua cobardia, era porque eu tinha tido filhos do homem errado. O castigo podia ser ir já trabalhar porque estudar, ou seja, viver à custa dos outros, no caso os pais e quem paga a escola através de impostos, implica uma série de regras elementares, entre elas pedir desculpas quando se erra em vez de insultar, em grupo. Sobre insultar a própria mãe esperava-se que o pai pusesse a filha fora de casa e que o procurador-chefe passasse pela filha e disse-lhe assim “sabes, a tua mãe é uma grande profissional, preocupa-se convosco, cuida de ti, trabalha por ti, vocês roubaram, vai lá e pede-lhe desculpa”. Mas sobre os chefes que protegem os bufos…já sabemos quase tudo – as empresas estão transformadas nisto. Têm ganho com isso afastar os mais capazes, promovendo a mediocridade moral e laboral."

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