sábado, 16 de julho de 2016

36 anos menos um dia

[Ali estava eu, a boiar, olhos fechados, ouvidos submersos, mente esvaziada, a sentir a água arrastar-me por vontade própria, para o meio da piscina. Ao longe vozes que não conseguia distinguir, estado quase zen, na véspera de completar 36 anos. A epifania: era isto que tinha feito nos últimos anos, corpo mole, olhos fechados, a tentar manter-me à superfície, deixando a vida fazer como a água e levar-me para onde lhe apetecesse. 
Abri os olhos num género de momento cinematográfico (tipo Jon Snow no episódio que ressuscita) e comecei a nadar com vigor e a pensar "move on, big ass!" ou "não faças nada pela vidinha que não vale a pena!"
O problema é sempre este: esta alternância entre sonhar demasiado alto, ter grandes expectativas e desinvestir sem dolo nem mágoa face às dificuldades, obstáculos, fracassos e demora (a impaciência é o meu maior defeito). Sou uma mulher de resultados, de fins, de metas, e os processos, os métodos, a disciplina agastam-me e entediam-me, não consigo fazer listas, seguir instruções ou passos. Sou pela eficácia e raramente consigo ser eficiente.
Tenho objectivos, alguns tão grandes que não sei por onde hei-de-começar, como um novelo de lã todo emaranhado que no fim sabes que, com trabalho, poderá transformar-se numa manta que te aconchegará e reconfortará mas não consegues deixar de te sentir incapaz e perdida face ao emaranhado de fios, aos nós que se vislumbrarão, às dores de braços que adivinhas ao tentar desembaraçá-lo. 
Continuei a nadar, crianças à volta aos gritos (a minha também), o sol a bater-te com mais força na moleirinha, alguns pirulitos a serem engolidos, gente que não percebe a noção de espaço e choca contra o teu corpo enquanto só queres nadar, direitinha como um fuso, em direcção à borda da piscina. A meta ali, o caminho difícil de percorrer. 
Experimentas a posição vertical e percebes que não sentes o fundo da piscina, que "não tens pé", e agora não podes simplesmente desistir, correndo o risco de te afogares, boiar deixou de ser opção (especialmente agora, em que o silêncio dos ouvidos submersos já não te chega perante as gargalhadas sonoras da tua filha que ouves à superficie da água) e nada te resta senão fazeres o que tem que ser feito: nadar, seguir o processo, a instrução, mexeres os braços e as pernas, em sincronia, respirares de forma correcta para não te cansares, concentrares-te no objectivo sem descurares o processo, fazeres tudo certinho, tudo como tem que ser feito. 
Subi as escadas e deitei-me na espreguiçadeira. A Ana quis partilhá-la comigo, os corpos a aquecerem-se, mutuamente. Ele endireita-nos a sombra para que o sol nos toque sem nos queimar. 
Acho que estou preparada para os 36 anos tal como o Jon Snow quando se levantou e começou a reunir as tropas, conquistar aquilo que era seu por direito. 
Doem-me os braços, caralho. Mas estou pronta. ] 

Hotel Golf-Mar, 16 de Julho de 2016

3 comentários:

Sardine disse...

Obrigada pelo spoiler de GOT...

Pólo Norte disse...

Sardine,

A season acabou há mais de um mês. Isto nem é considerado spoiler, é só uma evidência que começaste a ver a série com um considerável atraso.

0000 disse...

Eu já vi tudo, mas quando li a referência pensei "nãaaaooooo! Alguém pode não ter visto e ler isto!". Acho que merece sempre um spoiler alert!

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