sexta-feira, 22 de julho de 2016

The winter is coming?



"Se soubesse que um amigo morreria amanhã procuraria saber se de mim precisava. Estaria com ele, faria o que fosse preciso. Mas é uma falsa questão pois nunca saberei se alguém morrerá amanhã ou depois, tudo o que possa dizer é então uma perda de tempo, um entretém de espírito. Mas se colocar como hipótese que qualquer dos meus amigos poderá morrer amanhã, se me convencer dessa verdade absoluta, talvez a minha presença na vida de quem amo seja mais efectiva."
Luís Osório, autor do livro Amor citado na página de facebook da "Prova Oral"




O problema é a sensação de identificação, a perturbação do dia-a-dia, a ideia a martelar de que podia ser eu, nós.
Hoje fui ao shopping com a Ana. Ninguém imagina que ir ao shopping com um filho seja a última coisa que se faz na vida. Ninguém se prepara para morrer quando veste um agasalho a um filho para, em família, se assistir à beleza de um fogo de artifício. Ninguém se prepara para perder um ente-querido que lhe liga antes de ir buscar alimentos para fazer o jantar a um supermercado de um centro comercial. Ninguém se prepara para ter que correr para fugir à morte quando está num aeroporto de partida para as férias para as quais trabalhou todo o ano. Ninguém se prepara para a morte quando está a beber um copo de vinho numa esplanada de Paris.
O problema é que já não é longe, no Iraque, na Bósnia ou na Sérvia, na Ucrânia, até. O problema é que não é nos campos de batalha, não são soldados armados a guerrearem uns com os outros porque se alistaram, porque escolheram ser militares, porque as políticas e os governantes querem petróleo. O problema é que não são filhos de mães que se despediram deles em aeroportos militares, não são maridos de mulheres que choraram em cada missão. O problema é que é aqui, nos sítios onde eu e tu até já visitámos, onde temos fotografias de momentos felizes, histórias e memórias comuns ou, apenas, partilhadas.
O problema é que quem morre, morre num jogo de azar, numa roleta russa, só porque teve o azar de estar no espaço errado, no momento errado. O problema é que a morte de qualquer um de nós pode depender de uma cara ou coroa, de um par ou ímpar, de um jogo de pedra, papel ou tesoura.
Uma esplanada em Paris, depois Bruxelas, uma praça com fogo-de-artifício em Nice, agora um shopping em Munique... 
O Mundo está a ficar um lugar perigoso e triste e a liberdade um sitio cada vez mais apertado e claustrofóbico.
O problema- este, hoje e agora- é que a liberdade está a esgotar-se como um fósforo que queima devagarinho e a luz que ilumina fica cada vez mais fraca. 
The winter is coming?

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