sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Eu achava que a vida trazia GPS incorporado

Courage,


["Na verdade não traz. E eu perco-me algumas vezes, depois reencontro os caminhos, volto a situar-me e prossigo em frente. Pé no acelerador (sempre) mas, cada vez mais, o cuidado de ter a certeza de que os meus reflexos me assegurarão travar a tempo e carregar na embraiagem, para não deixar que isto vá abaixo, para não perder velocidade, para não parar. 
Há poucas alturas em que me perco totalmente, fico desorientada, sem rumo e sem certezas, sem estrada de terra batida ou alcatrão, sem chão. 
Hoje, pela terceira vez na minha vida, morreu-me uma pessoa. Morreu-ME que é diferente de morrer uma pessoa, morreu-ME para sempre, num caminho sem volta, num vazio que fica.
Quando morre um dos meus, um daqueles que sempre foram meus, que sempre fizeram parte da minha vida, perco-me por inteiro. Como quando vamos num caminho que percorremos todos os dias e, de repente, nos tiram uma referência, nos fazem questionar em que raio de estrada estamos, uma estrada sempre nossa, sempre familiar, uma estrada que sempre percorremos e que, de repente, nos afigura estranha e desconhecida. Assustadora apesar da sensação de dejá-vu. 
O meu tio morreu. Esperámos a morte anunciada com uma esperança ingénua de que o amor contrariasse o destino. De que cada tratamento e protocolo prescrito pudesse trazer um milagre, um revés, uma esperança, um adiamento. Acreditámos na cirurgia que nos propuseram para que pudesse ouvir melhor o ajudasse, efetivamente, apesar do tumor lhe empurrar o canal auditivo. Acreditámos que estava melhor quando deixou de expulsar pelo nariz os líquidos que tentava ingerir apesar de ser apenas sinal que o tumor crescia e lhe bloqueava também esse canal. Pusemos fé nos protocolos combinados de radioterapia e quimioterapia e tentámos não nos impressionar com a pele do pescoço queimada e em sangue após cada sessão, a magreza crescente, as tonturas e os desmaios. Tentámos não valorizar a falta de audição e ajustámos o nosso tom de voz e a nossa impaciência e frustração para que continuássemos a comunicar. Tentámos não mostrar que era cada vez mais difícil perceber a sua voz, cada vez mais fraca, cada vez mais embrulhada naquele maldito cancro. Custou-me, a cada dia que passava, encarar a sombra em que o meu tio se ia entornando, confrontar-me com aquela imagem doente e cadavérica, às vezes evitava que os meus olhos se cruzassem com os seus, na expectativa vã que não percebesse o nó que me crescia, também a mim, na garganta, não por solidariedade mas por tristeza profunda, por medo que me percebesse o medo, o lamento, a minha sensação merdosa de impotência. 
Numa consulta a que fui com ele o médico mandou-o despir a camisa. As lágrimas fugiram-me e tentei disfarçar: o meu tio parecia uma vítima do Holocausto. O meu tio que sempre gostou de comer, de beber, de chocolatinhos em miniatura e de enchidos gulosos, de passarinhos fritos que apanhava com ratoeiras com formiga de asa, de sandes de courato nas roulotes em dias de jogo na Luz, de moelas e petiscos. O meu tio que nunca foi requintado, o meu tio que era um bon vivant, cá da malta, o meu tio estava a desaparecer, de dia para dia, ossos a desvendarem-se, carne a evaporar-se, olhos a amarelecerem-se, pernas a fraquejarem. 
Tentei sempre mostrar que ia passar, que havia esperança. Tentei não dar o flanco, ser rija, não mostrar que estava com medo, continuei a falar-lhe como sempre, sem mariquices nem mimimis que cá em casa somos assim, rijos e pragmáticos, excelentes escondedores de emoções. 
32 quilos. O meu tio com 32 quilos, os olhos e a pele bacilentos, o sorriso fechado, o corpo a morrer. Eu a entrar no S.O., a pedido da minha mãe, a tentar convence-lo a deixarem-lhe instalar a peg que o impediria de morrer à fome, que lhe providenciaria a alimentação que o maldito cancro não deixava passar. O meu tio a encarar-me, a tentar gritar, desesperado, a dizer "Tu não! Tu não! Por favor, Liana, não!".  Eu a pedir-lhe que me ouvisse, a falar-lhe ao ouvido que ainda escutava, a explicar-lhe a importância de permitir aquele tratamento, a desvalorizar e a simplificar o procedimento. Os olhos dele nos meus "Não! Por favor, não! Quero ir para casa!". Eu a sair do S.O. , a chorar na casa de banho, escondida, para ninguém me ver. Eu de cara fechada a voltar a entrar, a sussurrar-lhe ao ouvido que estava bem, que ele é que sabia, que iríamos para casa, que ia ficar tudo bem, que não se preocupasse, que ninguém o obrigaria, que tivesse calma. Eu a falar com a médica, a pedir à enfermeira que lhe tirasse o catéter, a empurrar-lhe o corpo na cadeira de rodas, a arranjar-lhe o cigarro pelo qual desesperava há horas, a ajudá-lo a entrar no carro, a subir as escadas, a deitar-se no meu sofá, este onde estou agora a escrever e onde ainda lhe sinto o cheiro, lhe vejo o rosto, lhe sinto a presença.
A noite inteira acordada a vê-lo em agonia silenciada. "Deita-te um bocadinho, tio!" "Se me deito fico-me, Liana" "Não ficas nada, que disparate!" Eu a pedir ao Deus que muitas vezes não encontro que não o deixasse ficar-se. Eu a ajeitar-lhe as almofadas. A oferecer-lhe fruta passada, "Tenho fome mas não consigo. Estou cheio de fome mas não consigo, arde-me tudo Liana" Eu a ampará-lo até à casa de banho, a dar-lhe todos os medicamentos, a passar-lhe as bombas, o cotonete gigante para fazer a limpeza, os bochechos. Ele aflito, a tosse, a dificuldade em respirar. Eu a querer ajudar e a não servir para nada. Ele a pedir-me que lhe arranjasse um cigarro, "não tenho, tio. O Rui deixou de fumar". Ele agitado, nervoso. Seis da manhã, "vai-me comprar cigarros, por favor, Liana!". Eu à procura de tabaco perdido cá em casa, a encontrar um maço e a vê-lo sorrir, com vontade de sorrir, com alívio e olhos a rirem-se para o maldito vício que o matou. O fumo a sair-lhe da boca que não deixava entrar nem sair nada mais. 
A minha mãe a apanhá-lo. A minha mãe a fazer o que sempre fez, a assumir o comando do barco, a levá-lo para o hospital novamente, a gerir tudo. A minha mãe a ligar-me "o médico mandou despedir-nos dele. Está muito fraco. Ficou internado e não deve passar desta noite." A minha mãe a chorar e a minha mãe nunca chora e eu com mais medo e tristeza e um nó cada vez maior na garganta, numa noite em branco a aguardar, acordada, quem julgava que me iria acordar com notícias tristes, O sol a romper as frestas da janela. O telefone num silêncio que ansiava e temia. 
O papel único do meu amigo Luis, enfermeiro de mão cheia. A sua intervenção para tudo o que se seguiu: "Se quiseres que ele não morra sozinho vai para lá para o pé dele". Vesti-me para o dia da morte do meu tio e cheguei, autómata, ao hospital. 
Respirava com a ajuda de uma máscara, olhos semi-cerrados, máquinas por todo o lado, pele ainda quente, morfina ao lado e uma serenidade que nunca lhe conheci. Toquei-lhe no rosto, nos ombros, falei-lhe ao ouvido que ouvia aquele tempo todo, devagarinho. O seu coração acusava que me estava a ouvir, a frequência cardíaca aumentava ligeiramente a cada frase minha e eu rezava para que aquele gráfico das pulsações não parasse de subir e descer, mesmo que eu tivesse que falar para sempre, que nunca mais tivesse que me calar. 
O meu tio com mais dificuldades em respirar. Senti que estava quase na hora. Dei-lhe a mão e pedi-lhe que se sentisse em paz. Apertou-ma pela última vez e deu um suspiro mais alto. Depois a máquina começou a ter linhas rectas, a pulsação começou a parar e ficámos ali os dois, ainda de mãos dadas, ainda quentes, mais um tempo, não sei precisar, os meus olhos inundados num mar de dor, a minha garganta num nó cego, o meu coração numa escuridão que esvazia. 
O meu tio morreu, estava calor na rua mas a sua pele arrefeceu e eu fui a pé para casa, a chorar devagarinho com pena dele e da vida, lamentando escolhas e infortúnios, sentindo-me cada vez mais só no Mundo e esvaziada de amor. 
Eu achava que a vida trazia GPS incorporado mas não traz. E quando desaparece, assim, uma referência que sempre lá esteve, eu perco-me e dificilmente me volto a achar, até posso voltar ao caminho mas o caminho nunca mais é o mesmo e fico perdida de qualquer maneira. Morrem-me pessoas e eu morro sempre um bocadinho com elas, as pessoas para quem eu sou a Liana, a miúda, as pessoas para quem eu posso ser só eu. 
A vida não tem satélites que ajudem a recalcular o percurso mais rápido, mais fácil, onde se pagam menos portagens ou onde cheguemos mais rápido ao nosso destino. A vida não tem sequer mapas ou bússolas e às vezes temos que nos resignar a prosseguir pelos caminhos confiando na fé e nas estrelas. 
Talvez seja por isso que acredito naquilo que disse à Ana: "O tio foi para o céu e mora agora numa estrelinha". 
Que a sua estrela, como a do meu avô e da minha avó, me guie sempre que me perca já que tenho a certeza que a vida não vem com GPS incorporado. 
Por agora? Por agora só vejo- ainda- escuridão." ]

Aos 6 de Agosto de 2016, pela morte do meu tio
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