segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Às mães que acompanham hoje, pela primeira vez, os seus filhos no seu primeiro dia de escola


Talvez não tenhas dormido. Talvez tenhas dobrado dez vezes seguidas a roupa que ele levou hoje para a escola. Talvez tenhas ficado com um nó na garganta enquanto lhe engomavas a bata. Talvez te tenha apetecido recuar e mantê-lo em casa dos avós. Talvez tenhas equacionado parar de trabalhar durante mais um ano para ficar em casa a tomar conta dele. Talvez estejas cheia de medo de o entregar a uma educadora desconhecida. Talvez tenhas medo que ele se sinta abandonado quando virares as costas, que não perceba porque o deixaste ali, que procure por ti, que te chame sob choro, que as lágrimas não sequem. Talvez receies que ninguém, excepto tu, o consiga acalmar, lhe conheça os hábitos, as reacções, as respostas, lhe saiba dar beijinhos se ele cair e fizer um dói-dói, conheça a canção certa para o fazer adormecer. Talvez te sintas tu abandonada e de colo vazio quando virares as costas, talvez as tuas lágrimas teimem em não secar, talvez precises tu do beijo dele para te confortar após cada susto que ele te prega ao cair, talvez sejas tu que precisas de ouvir a tua própria voz fazer música para sentires que tens o poder de o adormecer. Talvez olhes para o relógio de dez em dez minutos, talvez gostasses de ter vídeo-chamada directa com a educadora, talvez o tempo não passe, talvez imagines que agora é a hora de comer, quem o estará a ajudar com a sopa, que agora é a hora da sesta, se chamará ele por ti. Talvez sintas que custa muito, que o teu coração está tão apertado que quase não aguentas com o sufoco, talvez nunca mais sejam horas de o ir buscar. 
Talvez sintas isto tudo, algumas coisas ou nada e ainda bem para ti. 
Quero só que saibas que te compreendo. E que mesmo que te diga que o sufoco nunca vai passar, vai melhorar. 
Confia em ti, nas tuas escolhas, na escola e na educadora. E está atenta a tudo. Sempre que te sentires desconfortável fala, sempre que sentires que deveria ser diferente faz-te ouvir, muda sempre que achares que não estás no caminho certo, elogia sempre que for para elogiar, faz todos os reparos que entenderes, participa activamente naquilo que te fizer sentido, faz da educação do teu filho um trabalho de equipa, torna a educadora tua aliada, respeita o espaço e papel de cada uma. Confia. 
O sufoco da separação nunca vai passar. Sente-lo desde que vos cortaram o cordão umbilical e persistirá. 
Mas confia em mim: tudo vai melhorar. 
E poderá ser uma experiência muito, muito feliz. Para ele. Mas também para ti. 

5 comentários:

Sara Pinto disse...

Obrigada...Era mesmo o texto que precisava de ler hoje!

Um beijinho e mais um vez obrigada

República da Bicharada Clínica Veterinária disse...

o meu vai para o infantário desde os 8 meses (e já foi uma sorte ter podido trabalhar com ele aqui) mas, este ano, há uma mudança de paradigma. Vai para a primária, para a escola dos crescidos, pela 1ª vez
E já não me lembro do sufoco do infantário mas estou super stressada com a primária. Só o ATL, que começou na sexta, já está a ser um sufoco
O meu filho está a ficar crescido e isso, para mim, é bom e mau ao mesmo tempo.
Olho para ele e aperta-se me o coração. Deitados juntinhos comparo o tamanho (aproximado) que ele tinha quando mamava (dei de mamar deitada a maior parte das vezes) e o tamanhão que tem agora. Lembro-me de ficar contente e maravilhada quando o pé dele me chegava aos joelhos... e agora...
Os putos crescem, têm de crescer. E isso é tão maravilhoso e assustador ao mesmo tempo que nós, mães (quase todas, e muitos pais), ficamos "sem chão".
QUando acabará este medo irracional que ele não seja feliz no novo ambiente? Na faculdade? No 1º dia do novo emprego? Quando ele, por sua vez, for pai?
Não sei (e suspeito que, infelizmente, será nunca). Só me resta acordar, manhã após manhã, arranjá-lo para a escola, preparar os seus lanches e contar os minutos para a hora de o ir buscar...
Beijinhos e desculpa o desabafo

Mãe Maria disse...

um tempo sempre difícil de equacionar, de viver ainda pior. Mas tem de ser. Eles tem de voar e nós temos de deixá-los levantar o seu voo e estarmos depois presentes para os ampararmos nas quedas.

Vânia Sobreiro disse...

A minha filhota fez agora os cinco meses e no final deste mês tenho de começar a trabalhar... e vai custar tanto... tal como uma mãe outro dia disse, só de pensar que não vou passar o dia inteiro com ela, sinto que me estão a dar pontapés no coração...

Auto-mãe-bilista disse...

Olá,

Confesso que não passava por aqui há algum tempo - na altura do nascimento da Ana acompanhava quase diariamente, a minha disponibilidade era outra.
A propósito da entrada do meu filho para o JI, lembrei-me de um post que falava da adaptação da Ana ao JI, que não tinha sido propriamente fácil. Andei à procura e não encontrei, mas deparei-me com este... E só queria agradecer, porque precisava mesmo de ler isto. Não é hoje o primeiro dia, mas é já na próxima segunda feira.
Às vezes tenho muita confiança e muitas certezas, outras nem por isso. No entanto, sigo com a consciência tranquila por ter procurado o melhor que lhe posso dar por agora. E se não correr bem, cá estarei para resolver.

Obrigada.

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