quinta-feira, 8 de setembro de 2016

As minhas pazes com a Igreja Católica

"Não sei quem disto fez notícia, mas sei que li, algures no tempo e no espaço destes 33 anos de vida, que Sophia de Mello Breyner Andresen, num discurso de entrega de um prémio que lhe atribuíram, referia que aquilo que distinguia a boa da má poesia era, muito provavelmente, a coincidência entre as palavras e aquilo que elas, as palavras, quererão verdadeiramente dizer. O abismo insaciável entre as paredes nuas das coisas e as coisas apalavradas, com sentido, era cortado num milionésimo de segundo por uma palavra de fundo, um eco, um sonho de verdade. 
 Sophia usava uma metáfora estupenda: lembrou-se disso quando ia no autocarro e, ao passar pelo Campo Grande, reparou que uma das janelas do autocarro coincidia na exacta medida daquele momento com a janela de um prédio antigo. Assim a poesia, as palavras, assim a linguagem, assim o amor."

[Afastei-me da Igreja há tanto tempo que não o sei medir. Passei a ser avessa a rituais e sermões, aboli da minha vida a fé em padres e mensageiros, deixei de acreditar na forma e, por isso, me fui afastando do conteúdo. 
Criei uma espécie de religião muito particular,uma religião à minha medida, eu, pretensiosa que não se quer adaptar à religião de todos, acreditando num Deus muito meu, como se Deus pudesse alguma vez ser pertença singular dos Homens, afastando-me da Igreja. Digo-o com algum lamento e arrependimento mas ciente que as experiências que fui tendo me conduziram a este ponto: crente descrente porque não acredito naquela coisa do "não praticante". 
Quem acredita em Deus pratica o bem, pratica a comunhão, pratica a partilha, pratica a cumplicidade. Pratica porque lhe sente a falta, lhe faz sentido, vive com mais oxigénio quando faz parte disto tudo. 
Foi no domingo, por ocasião da renovação de votos do meu casamento. O Cruz é, em primeiro lugar, nosso amigo e em segundo, padre. O padre que nos casou. Ali estava ele, dez anos depois, a renovar-nos os votos. 
Pensámos numa série de configurações para assinalarmos esta efeméride. Decidimos, finalmente, num programa a dois que culminou na capela do Hospital dos Capuchos, onde o Cruz é capelão. A Capela do Hospital dos Capuchos é despojada e não tem altares de talha dourada como a Igreja onde me casei, faltam-lhe bocados de estuque e há azulejos em falta nos painéis mas nunca vi uma igreja tão Igreja. O Cruz, lá à frente, a falar connosco, a partilhar, a comungar da sua sabedoria como um pai que embala um filho para um sono feliz. Sobre a sua cabeça aquela luz, a luz que a clarabóia deixa passar, criando uma imagem etérea e arrepiante. 
A assistir à missa muitos familiares de pessoas doentes, internadas ali ou noutros Hospitais, alguns doentes psiquiátricos e sem-abrigo de camisas limpas e pó nos cabelos, casais jovens que vêm de longe, gente comum que se encontra todos os dias nos cafés e nos passeios das estradas. Nós lá no meio, eu e ele, e o Cruz a embalar-nos, a falar de amor e partilha e as suas palavras a serem como a poesia de Sophia: "a coincidência entre as palavras e aquilo que elas, as palavras, quererão verdadeiramente dizer". 
Houve música a ecoar nas paredes gastas, de violão e de vozes e apertos de mãos de estranhos, muitos apertos de mãos de muitos estranhos, sem-abrigo a olharem-nos nos olhos e a desejarem "Paz de Cristo" de forma sentida como a poesia de Sophia: "a coincidência entre as palavras e aquilo que elas, as palavras, quererão verdadeiramente dizer".
Houve uma senhora a oferecer-me um leque e outra uma garrafa de água a ele, porque comunhão é estar atento às necessidades do outro e não ver como ele está vestido para assistir à missa. Não houve bandejas a pedirem esmolas a meio da celebração mas apenas dois sacos abertos à porta da igreja, no fim da missa, a quem quisesse contribuir. E voluntários a venderem pães de Deus caseiros, fruta apanhada em quintais por fiéis, broas de milho cozidas em forno de lenha para que as receitas revertessem a favor da Igreja. E o que sobrou, no fim- vi-o eu- foi oferecido com naturalidade a quem precisa, de forma discreta e humana. 
Houve um Cruz que desceu com a cruz e benzeu todas as pessoas, fila a fila, algumas com fotografias de familiares doentes na mão, outras a ostentarem fotografias de filhos e netos nas carteiras abertas e parou, perto de nós ["dêem as mãos!" ] e nos benzeu assim, cúmplices e misturados no meio da multidão, a luz da clarabóia sobre nós, as paredes gastas, o som do violão, estranhos a rezarem por nós, desconhecidos a desejarem-nos felicidades, as nossas mãos juntas ali, ele sussurrou-me "Amo-te!" e eu respondi-lhe igual, de lágrimas nos olhos e nó na garganta:"a coincidência entre as palavras e aquilo que elas, as palavras, quererão verdadeiramente dizer".
Restaurei a minha fé na Igreja, no último domingo, num Deus que não é meu mas de todos, estranhos e amigos, desconhecidos e cúmplices, crentes no poder dos afectos e do bem.  
Foi poesia, aquilo que vivi: ""a coincidência entre as palavras e aquilo que elas, as palavras, quererão verdadeiramente dizer". 
Verdadeira poesia. Em forma de fé. 

[O Padre José Cruz celebra  todos os domingos e dias santos, às 19h00, e todas as quartas-feiras com adoração do santíssimo, às 17h00 no Hospital da CUF Descobertas e aos domingos pelas 17h no Hospital dos Capuchos.]

6 comentários:

Cecília Fernandes Vigário disse...

De lágrimas nos olhos fico feliz pela vossa felicidade e aos mesmo tempo por ter alguém que sente a Igreja da forma que a sinto: no seu dia a dia, nos detalhes mais cruz, na ausência de ostentação, na vida humana plena, tal e qual como é, com os seus bons e menos bons momentos. Acho que a renovação dos vossos votos transbordou casamento, talvez ainda mais que no dia que o fizeram pela primeira vez. Mas não é isso o casamento? Vezes e vezes sem conta descobrirmos e professarmos a união com a qual um dia nos comprometemos? Adoro momentos de amor e adoro pessoas humanas como o Cruz que nos elevam ao que de melhor o mundo espiritual nos tem para oferecer. Obrigado pela partilha!

maria disse...

Obrigada pela partilha. Simplesmente emocionante...

CSC disse...

Adorei o texto: a perfeita coincidência entre as palavras e o que elas me quiseram dizer! 😉 (Parabéns a ambos pela feliz celebração!)

Ana Pragana disse...

Zanguei-me com Deus e com a Igreja há 1 ano 3 meses e 6 dias atrás.
Eu, que vivia a minha comunhão com a comunidade de forma tão intensa, tão natural, eu que dei catequese, que acompanhei miúdos nas suas caminhadas anos a fio, que era tão crente, tão "praticante", eu que sentia a Igreja como segunda casa...
Zanguei-me e tu sabes porquê. Zanguei-me porque o meu João, que não gosta de cumprir rituais só porque sim, nem de dizer Ámen sem estar certo das suas crenças, comunga todos os dias dos valores que a "minha" Igreja me ensinou, mesmo sem dizer Católico e também ele sofreu tamanha perda. Zanguei-me porque achei que não merecia (como se a minha prática de fé me desse imunidade à dor, me blindasse do sofrimento, me fizesse mais importante que aos outros... hipócrita, eu).
Zanguei-me quando pessoas que eram Igreja como eu, onde eu era, me diziam "Deixa lá, vais ter outro" ou "Deus é que sabe, foi melhor assim". Hipócrita, eu, mais uma vez, achei que pessoas que eram Igreja como eu teriam palavras mais sábias, mais curativas, que me aliviassem a dor.

Estou lentamente a fazer as pazes. Mais comigo até. A tentar deixar-me de hipocrisias e perceber que por cada palavra que me magoou, tive 1000 gestos de amor, de carinho, que me ajudaram a estar aqui agora. Que houve quem partilhasse da minha dor para me tentar reduzir o sofrimento, que houve quem me tirasse da frente tudo o que achava que me podia trazer ainda mais dor...

Ainda choro cada vez que me sento num banco de uma Igreja, mas um dia vai deixar de ser assim... Faz-me falta...

(Gosto de ti, sim?)

melisand disse...

Olá!

Raramente comento o teu blog mas hoje ao ler, fiquei surpreendida. O Cruz, foi o padre que me acompanhou quando era adolescente. É incrivel como através dele, das palavras e dos gestos, ele transmite tanto amor, tanta serenidade e tanta paz. É igualmente incrivel, como continuamos com essa sensação de tranquilidade e paz depois de ouvirmos as suas palavras.
Casei-me este ano, sempre pensei que fosse o Cruz que celebrasse o meu casamento porque foi um apoio importante em momentos cruciais da minha vida. Não foi ele quem me casou mas depois de termos conversado, percebi que o importante não é tê-lo como padre a casar-nos mas sim podermos tornar realidade o que as suas palavras.

Obrigado pelo testemunho

Paracetamol disse...

Não sou muito boa nas palavras, mas quero deixar-lhe um abraço bem apertadinho.

Beijinho!

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