quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Mulher séria tem ouvidos, sim!

             



 Foi isto que aconteceu na semana passada, em Estocolmo, durante um dos últimos espetáculos da sua tournée pela europa. Pouco mais de dois minutos depois de ter entrado em palco, Amy Schumer foi interrompida pela frase “mostra-nos as mamas”. Gritada por um homem que envergava uma t-shirt com a frase “I love pussies”, e que aparentemente estava a achar delirante o seu próprio comportamento. Como se o facto de aquele ser um espetáculo que prima pelo humor e pela ironia, lhe desse abertura para fazer um comentário do género. E o facto de ela ser mulher, permitisse a automática sexualização do seu corpo. Pela expressão que fez ao ser interpelado pela artista, que se lhe dirigiu diretamente numa curta conversa, o homem nitidamente achou que a laracha ia ser recebida com empatia. Que, provavelmente, a artista se iria rir de tal “disparate” e que até embarcaria nele. Mas não foi isso que aconteceu. E ainda bem. 

 Amy Schumer, que tem um longo historial de momentos em que deixou claro que comportamentos sexistas não são do seu agrado, optou por chamar o homem ao palco. Quando este se recusou, Schumer apelou a que a restante audiência olhasse e apontasse diretamente para ele. Perguntou-lhe o que fazia da vida e, quando a resposta foi “vendas”, aproveitou para ironizar: “Oh, vendas? E como está a correr agora? Está a resultar? A mim parece-me que ninguém está a comprar esse comportamento”. Com o homem agora visivelmente embaraçado e com uma audiência de milhares de pessoas a rir da situação, Schumer deu a sua estocada final: “Foste muito querido, mas se continuares a gritar, vais a acabar a gritar ‘mostra-nos as mamas’ no parque de estacionamento, que é onde irás parar, filho da mãe”. 




 Primeiro: com tanta laracha possível, era mesmo preciso usar uma que recorre imediatamente à sexualização do corpo feminino? E se quem estivesse em palco fosse um homem, a piadinha teria cariz sexual à mesma? Se fosse um Jerry Seinfeld, por exemplo, diria algo como “mostra-nos a pila”? Isso passar-lhe-ia sequer pela cabeça? Muito provavelmente não. Mas Amy Schumer é uma mulher. “Ainda por cima”, diriam algumas pessoas, uma mulher que já apareceu nua em capas de revista. “Pior que isso”, diriam outros, uma mulher que fala de sexo em público. Uma mulher sem papas na língua. Uma mulher que, muito provavelmente, “até está a pedi-las”. E isso, dizem-nos a experiência, as estatísticas e os inúmeros casos de comportamentos abusivos que chegam a tribunal, torna-a uma pessoa ‘mais dúbia’. 



Paula Cosme Pinto in "Expresso"

2 comentários:

traquinasmother disse...

Aqui posso escrever
Sem comentarios,porque está tudo,MUITO BEM,dito.
Compartir é o melhor feedback possivel..

Gorduchita disse...

Um exemplo mesmo!

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