terça-feira, 18 de outubro de 2016

Há um episódio da Princesa Sofia em que ela aconselha à amiga a pensar em coisas felizes quando ela se sente muito triste ou zangada.*

[A primeira vez que vi a Ana, olhos nos olhos, sangue com saliva de beijos, coração a transbordar. Cortar as pontas do feijão verde com a minha avó, a faca de cabo de madeira, para a seguir ela me fazer peixinhos da horta. Apanhar o autocarro para ir com a minha mãe comer hot dogs a um carrinho ambulante, em Cascais, às sextas-feiras quando não tínhamos dinheiro para nada, quase nem para comprar hot dogs. A hora em que o meu avô chegava do trabalho para almoçar e a mistela que me fazia, esmagando as batatas e o peixe cozido, de modo a convencer-me a comê-los. O cheiro a lavanda da minha professora da primária Emília. Os olhos castanhos da Laica, a (única) cadela da minha vida. Papo-seco com manteiga derretida nos bicos do fogão. O dia em que a minha tia chegou de Londres, depois do que para mim pareceram séculos de anos de emigração, numa altura em que mal havia telefone quanto mais skype. Sentir que chegava ao céu sentada nas cavalitas do pai que tive antes de deixar de ter pai. O pão por Deus, todos os primeiros de Novembro, a passear com a minha mãe de saco na mão pela minha rua, todas as vizinhas a sorrirem e a darem-me doces ao ver-me passar. O dia em que calcei uns sapatos que não as horríveis botas ortopédicas, tinha uns dez anos, acho eu. A primeira vez que vi a minha prima na maternidade e o sentimento de que era um bocadinho minha. A primeira vez que viajámos as duas, no cruzeiro a Marrocos, prova dos nove em como nos safávamos sozinhas.O cheiro das folhinhas da minha colecção de blocos. Cada cinto de cor diferente conseguido no karaté. Groselha, capilé e leite com nesquick colocado em couvetes e transformados em gelados nos Verões da minha infância. O balanço do corpo da minha avó, em noites com dores graves, a embalar-me enquanto se aninhava ao meu lado na cama apertada. O sorriso imperfeito do meu avô. O lançamento dos livros, o orgulho nos olhos de toda a família. A viagem à Eurodisney com a minha mãe, de auto-caravana. Conseguir fazer o pino de cabeça. O meu tio, sóbrio e jovem, a levar-me ao Avante. O meu primeiro beijo na Vagueira e o coração a sair-me pela boca. A sensação de poder a beber um copo ao cimo das escadarias do Bahaus com a Cláudia. A minha festa de 18º aniversário a ver o dia nascer no Tamariz. O fogo de artifício e o jogo de luzes no fim da minha primeira noite na Expo'98 com o João Carlos. O meu nome na pauta exibida na vitrina da Reitoria. Os olhos orgulhosos do meu avô a contar a toda a gente que eu tinha entrado na faculdade. O primeiro dia de praxes. O dia em que nos beijámos pela primeira vez no terraço da faculdade. Cheiro a relva acabadinha de cortar. Andar de barco no Serpentine e ser feliz em Covent Garden. Trabalhos académicos partilhados com eles na casa da Avenida de Roma e muita pasta ao almoço e ao jantar. A primeira vez que acampámos na Caldeira de Santo Cristo e toda a paixão que sentíamos sob aquele céu estrelado. Encontrar o conforto nos olhos da minha mãe sempre que estou doente (e passa sempre porque os olhos dela curam tudo). O dia em que a minha avó "acordou" do AVC e voltou a falar e a esperança que senti. A primeira chave de uma casa só minha no porta-chaves. Os primeiros cartões profissionais com o meu nome ali gravado. O sol de Cabo Verde na minha pele e ponchas partilhadas com a minha comadre. A marcha nupcial a tocar e lá à frente todas as pessoas que eu mais amo a partilharem não mais que dois metros quadrados. Lapas grelhadas nos Açores. A minha mãe a ajeitar-me o cabelo por debaixo do véu de noiva. O "sim": o meu e o dele. O lenço dos namorados que me ofereceram e as minhas raízes minhotas para sempre presentes. Muitos amigos felizes por nos verem felizes. O cheiro a jasmim e o amanhecer no deserto com vista para lagos coloridos numa lua-de-mel inesquecível. A reconciliação num aeroporto insular. Os livros dele novamente na estante da nossa casa. As conversas de carro na road trip pela Escócia. Aletria no Natal. Os saltos de alegria imensa dele ao olhar para a confirmação de um teste de gravidez. Nova Iorque a dois e meio. Cheiro a hortelã e canela. O ar incrédulo da minha mãe a receber a notícia que ia ser avó. O grito de euforia da minha prima ao ouvir a notícia que era uma menina que aí vinha. Dias de Santo António comemorados em minha casa com a Cláudia e a Rosa. O beijo que ele me pousou assim que entrou no quarto, primeiro que tudo, antes sequer de ver a filha que tínhamos acabado de fazer nascer. O cheiro dos livros que eu mais gosto de ler. A chegada a casa e a sensação de sermos uma família de três. A primeira gargalhada. A primeira palavra "mamã". Queijo e vinhos franceses comidos num terraço de Montmartre. Beijos de bochechas cheias todas as noites. Deitar-me em conchinha nas noites frias de Inverno. Tom Jobim a tocar no ar. As gargalhadas deles enquanto ele lhe dá banho. Sushi em dias tristes. O cheiro dela enquanto a massajo com creme a seguir ao banho. O respirar dela no meu colo a adormecer. Mojitos bebidos  a três (mosqueteiras). Ramos de malmequeres oferecidos sem pretexto nenhum. Descobrir Budapeste a dois e sentir que o meu lugar é sempre onde somos felizes em plural. A minha mãe a rir em coro com a minha filha. Sol na pele. Dez anos de casados numa igreja velha com a sensação mais plena de espiritualidade que já senti. A caixa de música de corda que ele me ofereceu. Pés descalços. A alegria dela quando abre a porta e o gato a espera. O cheiro a fruta fresca todos os sábados no mercado pela manhã. Expressões de todas as minhas pessoas concentradas no rosto da minha filha. Amar os outros como forma de nos amarmos mais a nós mesmos.  ]

* E depois, quando a amiga pensa, faz-se céu limpo e arco-íris no Mundo. 

[Agora, comigo também.].
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