segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Quem nunca foi ao Pão por Deus não sabe...

... o que é acordar cedo para a manhã render mais doces. Preparar um taleigo e lá dentro dois sacos de plástico para reforçar a recolha. Tocar às campainhas, subir escadas de prédios, entrar quintais adentro e gritar "´Pãããão por Deus". Não percebe o fascínio de ter no mesmo saco nozes e amêndoas, castanhas cruas, caramelos de Badajoz, romãs, figos passados, beijinhos, rebuçados melados, frutos secos, broas e um porta-moedas com moedas pequeninas. A alegria de, na nossa rua, à custa das vizinhas se encher logo o primeiro saco. De entrar nos cafés, papelarias, no talho e na peixaria e de se  (en)sacar sempre qualquer coisa. De praguejar quando não nos abrem a porta. De acelerar o passo porque ao meio-dia acaba o peditório. De passar na rua e ser-se chamado por transeuntes que nos estendiam moedas. De no fim de tudo se chegar a casa e despejar o(s) saco(s), separar os géneros por espécies (frutos para um lado, doces para outro, rebuçados para outro e beijinhos para a boca), muitas vezes na presença de alimentos não identificados como figos secos em profunda osmose com rebuçados melados e abrir o porta moedas e contar as moedas. De receber os melhores "pão por Deus" dos avós, das tias, da mãe e do pai e, especialmente, dos padrinhos. De odiar a sirene dos bombeiros que anuncia o meio-dia. De saber que o final feliz implica a comida toda armazenada em potes para os tempos vindouros e o dinheiro em montinhos de moeda pronto a servir para comprar um brinquedo que muito de deseja. O que é visitar a vizinhança toda numa só manhã.
Quem nunca foi ao Pão por Deus não sabe o que é ter as mãos meladas de felicidade no primeiro de Novembro. E um colar feito de pinhões ao pescoço.
 
[Sim, sou uma velha do Restelo. Ou não, porque pelo que acabei de constatar na página de facebook do blog no Restelo ninguém ia ao pão por Deus. Não sabem o que perdiam...]

1 comentário:

Cláudia S. Reis disse...

Todos os anos, nesta altura, a minha mãe me conta as histórias da sua infância de quando ia pedir Pão por Deus. Eu nunca tive essa experiência e tenho pena...

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