domingo, 27 de novembro de 2016

Anos bissextos

Sempre tive mixed feelings acerca dos anos bissextos. Nasci num o que deveria ser uma razão para os associar a anos auspiciosos mas, tendo em conta todos os contornos que se sucederam ao meu nascimento, 1980 foi um ano duro para toda a minha família, provavelmente dos mais difíceis de sempre. 
1984 foi tramado, com o início de múltiplas cirurgias e internamentos prolongados e em 1988 os meus pais separaram-se e o meu pai demitiu-se das suas funções. 
1992 foi um ano bom, o primeiro ano bissexto bom de que tenho memória: publiquei dois livros, fiz as primeiras férias para fora do país sozinha com a minha mãe, a vida começava a entrar em velocidade de cruzeiro. A partir daí comecei a dar tréguas aos anos bissextos: 1996, 2000 e 2004 também nos sorriram com férias ao sol, relações estáveis, entrada no mercado de trabalho, tudo a compôr-se para o início de uma vida independente, da primeira casa, do casamento que se seguiu. 
2008 foi o pior ano da minha vida: a minha estreia nesta coisa do luto e da luta com o luto, a morte do meu avô, a minha separação, muita agitação no trabalho, a vida toda de pernas para o ar. 
2012 redimiu-se porque me trouxe a Ana e, ainda que com a morte da minha avó no fim do ano anterior, tudo se amenizou porque nasceu a minha esperança em deixar o Mundo melhor que o encontrei. 
2016 foi um ano estúpido. A doença bolorenta do meu tio, a espera pela morte prometida, a esperança vã em fintá-la, aquele dia de Verão em que o fomos entregar às cinzas, tão cheio de sol e tão triste, tão Verão na rua e Inverno dentro de nós, a provar-nos que pode haver bipolaridade no Mundo e em nós no Mundo. 2016 foi duro. Foi um ano de outras perdas das quais não quero escrever, de fechar capítulos, de constatar que nem sempre consigo, nem sempre posso e que não basta querer. Foi um ano em que fui forçada a dizer muitas vezes que não assumindo a minha incapacidade, constatando as minhas fraquezas, embandeirando a minha vulnerabilidade. Foi um ano em que precisei mais de receber do que consegui dar. 
Estou desejosa que acabe o ano. 2016 já deve uns meses à cova e eu assumo, de uma vez por todas, que não gosto de anos bissextos. 

[2012: desculpa a generalização, sim?]

2 comentários:

Isabel Simões disse...

Ainda hoje me lembrei exatamente do mesmo. Estou desejosa que termine...sem fazer mais estragos...

ccstylebook disse...

Sabes Pólo Norte, tenho uma amiga com a mesma crença do que tu: diz que os anos bissextos são mau agoiro. Este, realmente, não foi assim lá grande coisa. E só veio comprovar/confirmar a teoria dela. Eu confesso que também tinha umas manias estranhas com os pares versus ímpares, mas já me deixei disso. Uma mulher de palavras, como tu, devia estar-se bem a cagar para os números. A vida acontece, seja lá em que ano for. E apesar de todas as contrariedades que nos pode ter trazido, (no raio dos anos bissextos), ela fica-te bem. [Espero que a mim também, caraças!]. Vamos lá embora :P

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