quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ele não deixou de fumar


Seis meses. Está a fazer seis meses que ele parou de fumar. Digo "parou" de fumar porque é  o verbo que ele usa, embora eu preferisse o compromisso do verbo "deixar". Ele diz que não deixou de fumar, que parou e ele precisa dessa conotação não permanente, não definitiva, não castradora e fatalista: ele parou de fumar. 
Sempre o conheci fumador. 95% das nossas fotografias têm o cigarro como elemento adicional, um amigo eternizou-o numa tela e, quando a recebemos, ali estava ele: o cigarro no meio dos dedos.
Nunca fui fundamentalista quanto ao tabaco nem nunca fui cigarro-fóbica. Respeito as escolhas de cada um, desde que não interfiram no meu bem estar, na minha liberdade. Sempre o conheci a fumar e nunca o cigarro foi um assunto entre nós, sou filha de pais fumadores, na minha casa sempre se fumou, "normalizei" o tabaco em cima dos móveis da entrada e os cinzeiros pela casa. 
Um dia, tínhamos acabado de sair da adolescência, a minha mãe ficou com um pólipo na faringe e teve que ser operada. Nunca tive tanto medo na vida e ele soube-o. Tentou deixar de fumar a seguir, sem que eu lho tenha pedido, voltou a fumar, ao princípio às minhas escondidas, ele não percebia, até aí, que mais que a tristeza que sentia por ele voltar fumar, foi a falta de confiança em admitir perante mim a vulnerabilidade do seu vício que me matava por dentro. Nunca lhe pedi para deixar de fumar, gosto dele com cigarro ou sem, o tabaco não tem o poder de mudar o amor que sinto por ele. 
Depois engravidei e ele voltou a falar-me do assunto, sempre com planos para o futuro, sempre a empurrar a data com a barriga, sempre a procrastinar a decisão. "Quando ela nascer logo deixo de fumar!". Não deixou. E depois vieram problemas no trabalho e começou a fumar mais, o cigarro servia de super-ego, de tampão de emoções, de forma de descomprimir e de se auto-controlar, de tubo de escape da alma. 
E o meu tio ficou doente. Muito doente. 
O meu amigo Luis, o melhor enfermeiro do Mundo, avisou-me que não havia nada a fazer, que ele iria morrer. O tumor naso-faríngico iria levar a melhor e- sim!- fumar 3 maços de cigarros por dia contribuía para aquele diagnóstico. E o meu tio não deixou de fumar até à véspera de morrer onde, no meu sofá, o vi rir pela última vez quando lhe estendi para a mão um maço de cigarros. 
E ele viu-me a chorar. E a sofrer. E a fazer-me de forte. E a ser bruta. E a engolir soluços e nós na garganta, medos e ansiedades, o terror de quem tem que esperar a morte das pessoas de quem gosta, inútil e incapaz, sem nada poder fazer para travar o dia em que o cigarro se apagaria das mãos dele- do meu tio- de vez. 
E um dia disse-me "vou parar de fumar". Eu nunca lhe pedi. Aliás, posso ter-lhe pedido no desespero de quem espera a morte de quem ama com o assassino a fumegar-lhe nos dedos mas aí, era o desespero a pedir-lhe, não eu. Estava eu a contar, um dia disse-me "vou parar de fumar" e eu nunca acreditei, não gosto de me desiludir, não gosto de criar falsas expectativas, não porque não acreditasse nele mas porque conheço o poder inebriante do vício, a fugacidade da motivação de quem se consola com um cigarro aceso ao relento de uma varanda. 
Comprámos os comprimidos e ele cumpriu todo o tratamento. Poucas vezes falámos disso, de ele estar a parar de fumar, às vezes via-o ansioso, sempre de halls no bolso e a roer, muitas vezes sem saber o que fazer às mãos nos momentos de tensão, a snifar fumos passivos dos amigos que fumavam à sua beira, mais irritado, com menos paciência, mais intolerante e com o pavio mais curto. Conheci-lhe insónias, sonhos agitados, começou a reduzir o número de cafés porque o café pede o cigarro, os cinzeiros foram desaparecendo, começámos a fazer programas durante mais tempo seguido sem intervalos para fumar, a pele a ficar mais bonita, os dedos a cheirarem bem, os dentes mais brancos. Começou a ter mais energia, força, endurance. A conseguir correr com a miúda sem cuspir os pulmões, a ser mais energético e ágil. Poucas vezes falámos disso, de ele estar a parar de fumar mas eu conheci-o, meses a fio, a lutar contra o vício, a dar o seu melhor, a sofrer imenso com o processo, a esforçar-se horrores. E, mesmo que ele não conseguisse, só por isto, só por tentar eu amo-o ainda mais, porque a motivação dele era apenas uma: não me ver sofrer por ele assim, como estava a sofrer pelo meu tio, não me ver a mim- que não fumo- ser mais uma vez vencida pelo maldito vício.
E um dia acabaram, de vez, os comprimidos e ele não voltou à farmácia. "Conseguiste mesmo deixar de fumar?"- perguntei-lhe, em euforia. 
"Não deixei de fumar: parei de fumar!"
Para mim tanto me faz que ele não tenha deixado de fumar, que tenha engordado um bocadinho, ande mais impaciente e menos tolerante: ele parou de fumar. O meu tio, entretanto, deixou de fumar. De vez.  Morreu. Não me importo que ele tenha parado de fumar para que um dia não deixe de vez assim.
Sinto muito orgulho nele. Mesmo que não tenha deixado de fumar. Mesmo que apenas tenha parado, um dia de cada vez, há quase seis meses. Que pare para sempre.


[E, sim, sem qualquer interesse comercial nisto porque pagámos todas as caixas de medicamentos e o tratamento não nos saiu, propriamente, barato, sim, o Champix foi, no caso dele, bastante eficaz.]

1 comentário:

afonso disse...

Compreendo-o muito bem. Eu parei de fumar há quase 13 anos e ainda me considero fumadora, acho que o serei para sempre, só que parei de fumar.
No meu caso consegui apenas com força de vontade e chicletes de morango. Foi uma decisão, parar de fumar. Espero conseguir mantê-la sempre. Espero que ele também o consiga. Mais não seja porque ficamos a cheirar tão melhor (pode ser muito parvo, e tudo o resto ser bem mais importante, a saúde e tal, mas para mim o facto de em dias de chuva não ficar com aquele cheiro pestilento e húmido agarrado aos dedos, à cara, à boca, à roupa, foi meio caminho para uma forte decisão).

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