sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 quadripolar

2016 não teria sido um ano especialmente mau se o meu tio não tivesse morrido. Mas morreu. E a par de 2008 e de 2011, anos em que perdi os meus avós, tornou-se num dos piores anos da minha vida.
Mas não foi pior que esses anos não obstante o Trump e a Síria e todo o caos no Mundo.
Não que sejamos autistas sociais mas, na verdade, o Mundo é uma coisa muito íntima e pessoal. Poderia ter havido o fim do conflito israelo-árabe, o fim da violência sob todas as formas, o Obama ter continuado na Casa Branca e Portugal ter, por milagre, ganho o Euromilhões dos países e saldado a dívida externa que nada disso teria melhorado o meu ano, quando assisti, de mãos dadas, ao último suspiro de um dos meus.
Por isso digo que o Mundo é uma coisa muito íntima e pessoal e em 2012 até poderia ter eclodido a terceira guerra mundial que ninguém conseguiria transformar o melhor ano da minha vida noutra coisa que não isso mesmo: o melhor ano da minha vida, o ano em que me tornei mãe da Ana.
2016 foi duro, áspero e azedo.
Não chorei o que deveria ter chorado por força de ter que ser forte, imposição inata de mim para mim. Por outro lado, permiti-me à tristeza profunda, ao silêncio, a não querer falar com ninguém porque não me apeteciam vozes nem palavras. Permiti-me ao pensamento como forma de afastar os meus demónios interiores, à racionalização de mãos dadas com o luxo de ouvir a minha voz interior e de lhe obedecer sem, como sempre o faço, a contrariar em prol dos outros. Abracei- aliviada!- a minha vulnerabilidade.
Em 2016 tive medos e inseguranças como mãe, mulher e pessoa. E nem sempre tomei as decisões certas. Mas deixei de me auto-flagelar por cada erro, cada tiro ao lado, cada falhanço.
Em 2016 nem sempre a vida me proporcionou as coisas certas. E percebi que o ser humano é presunçoso e acha que controla tudo. Mas depois há a sorte, o acaso, o destino e o Mundo lá fora. Em 2016 redimensionei a minha auto-percepção face ao Mundo. E aconcheguei-me, confortável e em casa, com a minha pequenez.
Em 2016 perdi pessoas que tinha e que estavam para vir. Como uma passageira num aeroporto que perde voos de chegada e partida e se sente perdida no meio do maranhal de pessoas e de caos. Deixei de olhar para o mostrador de voos e prendi-me, com força ao chão. Quis ficar em casa, em terra, chão firme e seguro da vida.
Em 2016 cresci muito, horrores e não se vê por fora mas eu sinto-o como nunca. Não envelheci, cresci, como crescem as plantas que nem sempre têm a obrigação de dar flores.
Em 2016 disse mais vezes que não podia e não queria. Fiz menos vezes fretes. Não disse sempre o que pensava para não magoar pessoas. Porque nem sempre o que nós pensamos, mesmo sendo verdade, é o melhor para se dizer. Fui, ainda assim, mais verdadeira. Não quis ganhar todas as guerras. Escolhi cada batalha. Entre ter razão e ser feliz preferi, muitas vezes, deixar de ter razão para ser feliz.
Em 2016 não tive nem um esqueleto no armário. Não me senti injusta com ninguém. Dormi, todos os dias, de consciência tranquila. Não magoei, deliberadamente, ninguém. Fui mais gentil. Fui melhor pessoa.
Em 2016 cumpri muitos objectivos. Sonhei em segredo porque percebi que quem sonha em murmúrio e não faz alarido tem mais probabilidades de os concretizar. Concretizei um sonho de uma vida. Fiz mais do que escrevi. E fiz muito, tanto, imenso, E muita gente acreditou, confiou e juntou-se a mim. Em 2016 fiz parte de uma corrente de gente fazedora. E foi absolutamente compensador.
Em 2016 dediquei-me aos outros como forma de me alimentar a mim. Ajudei a mudar vidas. Muitas vidas. E em cada contributo para a mudança na vida dos outros mudei um bocadinho a minha.
Em 2016 tive a certeza de quem está ao meu lado. E foi nisso que me foquei. Não em quem está à frente ou atrás. Mas, simplesmente, em quem está ao meu lado porque são essas as minhas pessoas. Senti-me mais segura e confiante que nunca.
Em 2016 senti-me em paz com quem sou. Senti muito. Abracei cada emoção e sentimento sem medos: os bons e os maus. Em 2016 fui a melhor pessoa que consegui ser.  E muito certa de quem sou, gostando de quem me tenho vindo a tornar.  
E, mesmo tendo sido um dos piores anos da minha vida, foi um ano em que cresci tanto que, não sendo por mais nenhum motivo, esse é o suficiente para acreditar que, em 2016, não deixei de ser feliz.

3 comentários:

ccstylebook disse...

"cresci, como crescem as plantas que nem sempre têm a obrigação de dar flores". Resume tudo. Boas saídas. ;)

м♥ disse...

A frase final deu cabo de mim. É que é tal e qual isso que penso para mim. Foi um ano mauzinho, mas se ainda assim fui feliz em 2016, 2017 tem tudo para dar certo!

Bom ano novo, querida Ursa.

Isabel Simões disse...

Feliz 2017! ;)

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