quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Calinhas, a maior



Conheço muitas pessoas fantásticas mas assim épicas só conhecia uma: Clara.
Clara era (muito) mais que a avó da minha melhor amiga. Filha de judeus, o pai engenheiro de minas de origem polaca perdeu-se de amores pela mãe e vieram formar família em Portugal onde Clara, filha única e amantíssima, aprendeu a tocar piano e a falar francês. E mais seis idiomas. E a exercer a sua capacidade de pensamento crítico, analítico e decisor ate ao ultimo dia de sua vida.
Clara chegou até a mim num encontro que só a generosidade da sua neta Catarina tornou possível. Clara não era Clara para nós: era Calinhas. Sem dona, senhora, doutora ou qualquer epíteto merecido e sempre insuficiente. Era Calinhas, petit nom de afecto e respeito, de jovialidade e proximidade como se não nos separassem exactamente 66 anos de vida.
Calinhas viveu tudo em 102 anos de vida e podia viver outros tantos que estaria pronta para tudo. Mas Calinhas também viveu mais do que o seu coração merecia e foi a morte prematura do filho que ditou o princípio do fim. Calinhas sobreviveu a duas grandes guerras, a perseguições aos judeus, aos novos cristãos, ao colonialismo, a uma nova vida na Guiné-Bissau, ao amor de uma vida com o homem da sua vida, a nascimentos de filhos, netos e bisnetos, à prisão do marido pela PIDE, a ser impedida de voltar a casa, à diáspora vivida por cada filho, a partidas e regressos, a verões ventosos na casa de São Martinho, a Invernos chuvosos na de Paço de Arcos, Calinhas era eterna e nós acreditávamos que imortal. Calinhas só nao sobreviveu à morte do filho e passou a viver mortiça e triste, prematuramente velha aos 100 anos, morta por dentro.
Calinhas foi a mulher mais excepcional que conheci.
Uma mulher progressista que me mostrou um livro autografado pelo seu amigo Pessoa. Uma mulher que aos 90 anos quis retirar sinais inesteticos do rosto porque a dignidade não envelhece. Uma mulher de extremo bom gosto e cultura. Uma mulher que adorava comida indiana e que não recusava experimentar qualquer alimento do Mundo. Uma mulher que dançou, aos 92 anos, no meu casamento. Uma mulher que, quando decidiu recrutar uma empregada, lembrou-se de que iria dar preferência a uma de nacionalidade russa porque tinha o seu russo muito "destreinado". Uma mulher que aos 100 anos fazia chamadas de Skype, enviava emails, comentava a actualidade, tinha conta de facebook, lia blogs.
Calinhas morreu. Não foi bem morrer: não quis viver mais. Porque "did it her way" até ao fim. Como só fazem as árvores que morrem de pé.
Lá dentro, do crematório, soava a música russa que ela escolhera. Cá fora, no céu do crematório desenhou-se um arco-íris. 
Clara- Calinhas para nós-  existirá para sempre naquelas sete cores. ♡

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