sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

De noite todos os gatos são pardos. E de dia também, granda porra!

cat crazy wow kitten spinning


Disclaimer número 1- não sou uma animal lover. Não sou, pronto, já disse. Não que seja uma animal hater, credo, que horror! Mas não sou aquele tipo de pessoa que se derrete com bichinhos, que pára na rua para fazer festinhas a gatos vadios nem que têm um impulso imediato para resgatar todos os cães abandonados com que se cruza. Também gosto demasiado de chicha para um dia ponderar vir a ser vegetariana e nem me passa pela cabeça deixar de comer carne (Aliás, de cada vez que penso na alcatra dos Açores salivo. Pavlov explicará.) Em minha defesa, também vos afianço que não consigo fazer mal nem a um insecto. E se vir um animal em apuros sou incapaz de não o socorrer, que não sendo uma animal lover, sou sensível. E desde que pari que deixei de comer leitão à conta disto

Disclaimer número 2- Depois da minha cadela Laica ter morrido fiquei com dificuldade em afeiçoar-me a animais de estimação (a Psicologia também explicará.) E só cedi aos gatos porque a minha filha adoooora bichos e sei as vantagens de crianças e animais coabitarem.




Tenho azar com os bichos. Com gatos, mais propriamente. O Freud de Mámen morreu de velhice e deixou-o num pranto. A seguir tivemos a Tuvy que morreu de uma doença manhosa e eu jurei que nunca mais queria gatos.
A Mimi foi a minha primeira excepção. Maria Emília era uma gata distinta que o pessoal da empresa resgatou da rua e me empandeirou. Eu disse que não, que não era uma "animal lover" mas ninguém me ligou. Um dia, mámen e Ana foram buscar-me ao trabalho e a Ana apaixonou-se pela gata. Trouxemo-la para casa. Mimi tinha problemas: atirava-se contra os vidros das janelas, miava muito, esgravatava a porta e todas as janelas da casa. Queria, desesperadamente, sair. Ora eu não percebia aquela fixação da ingrata: tinha cama, comida (da húmida!) e roupa lavada lá em casa. A Ana adorava-a de paixão. Nas férias levavamo-la connosco e acompanhava-nos para todo o lado para onde íamos. Mas o que a gata mais queria na vida era bazar. A veterinária disse-nos que parecia que ela tinha uma psicopatologia qualquer (claro, com tantas gatas no Mundo a gata maluca tinha que me calhar a mim!) e aconselhou-nos a colocá-la num quintal com outros animais. Foi assim que tivemos que a colocar na casa de uma pessoa da família, onde vive feliz desde então e não nos liga peva quando estamos lá de visita. A Ana continua a ficar desgostosa com tanta ingratidão. E eu voltei à minha conviccão: acabaram-se os animais cá em casa.
Mas depois abandonaram o gato à minha porta. Literalmente. E a senhora da loja de animais estava a passar na rua nesse preciso momento e "Óóoo, fica lá com ele! Eu amadrinho-a! É tão bom para a Ana e mimimimi". Ficámos. Baptizámo-lo de Papo-Seco (baptizou a Ana, honra lhe seja feita).
Papo-Seco era um lord na minha casa. O gato mais lord que possam imaginar.
Tinha uma cama mas fugia para o nosso quarto e eu- pela primeira vez em 36 anos- permitia que dormisse aos nossos pés. Comia comida da boa, nada de marca branca de supermercado. Tinha areia perfumada. Uma coleira maricas. Com ele descobri que havia chocolates para gatos e de vez em quanto era presenteado com um. A Ana era amantíssima e mimava-o até à exaustão.
Mudámos de casa e pensámos que bom que era para ele, agora com espaço ao ar livre se lhe apetecesse. Papo-Seco amuou. Miou dias a fio quando nos mudámos. E noites. Acordei mais vezes a meio da noite para consolar o Papo-Seco que em quatro anos de maternidade.
Fomos à veterinária. Eu já ia preparada que que ela me dissesse que tínhamos outra vez um gato perturbado mas parecia que não: tinha, apenas, chegado o cio.
E chegou o cio. Oh se chegou. O gato miava, uivava, trepava paredes e fazia xixi em cima da minha roupa. Culpei mámen e a veterinária que insistiu que o gato deveria ser apenas castrado apenas depois do primeiro cio. Culpei Bastet, o Passos Coelho, o Sócrates, o Ricardo Salgado, a minha sogra e o Jorge Jesus. Roguei pragas à senhora da loja dos animais pela ideia peregrina de me ter convencido a adoptar o bichano. Mas aguentei-me: firme e hirta com a convicção que o cio iria passar, castrávamos o bicho e seríamos felizes para sempre.
Acontece que o gato apanhou uma janela aberta e escapuliu-se. Assim, à cara podre. Fugiu. Deu de frosques. Pôs-se na alheta.
Depois de uma semana de procura incessante do cabrão do gato avistámo-lo num terreno baldio por detrás da nossa casa, onde uma senhora velhota com a mania dos gatos, alimenta uma matilha inteira de felinos. São mais de 50. Construiu-lhes um abrigo, dá-lhes comida e água diariamente e fala com eles. Ali estava ele: o fodilhão implacável ingrato do meu gato, por quem a desgraçada da minha filha andava há uma semana - literalmente- a chorar.
Saí do carro para o apanhar. "Papo-Seco: pshhh, pshhh! Papo-sequinho: anda cá à dona, fofinho! Pshhh!" O gajo fugiu para dentro do abrigo. Insistentemente fugia.
A voz da Ana: "Oh  mamãzinha, vai lá buscá-lo, pufavor!" Respirei fundo e entrei. Foi preciso córage, senhores. Oh se foi! Eram mesmo mais de 50 gatos. Gatos por todo o lado. Gatos pela direita, pela esquerda, à frente, atrás, em cima, em baixo: gatos everywhere. Mas eu ia em missão: "Respira fundo, Liliana! Apanha o gato e bazas!" Dos 50 gatos, 49 eram tigrados. Tipo todos menos um. "Calma, Liliana. Tu conheces o teu gato, mulher! Vai!" Agarrei no Papo-Seco, depois de uma guerra do qual eu saí muito arranhada e com as mãos  num estado que poderiam denunciar uma luta com uma nails artist daquelas que agora tem unhas bicudas à moda da Casa dos Segredos.
Mas saí vitoriosa.
Cheguei- vitoriosa!- ao pé da Ana com o gato, mas só recebi uma expressão incrédula: "Mãe, esse não é o Papo-Seco! O Papo-Seco tem uma manchinha no olho e o rabo é mais preto!". Voltei ao abrigo, com os nervos em franja. Agarrei noutro, com o rabo mais preto.  Não sei antes levar uma mordida de um dos bichos e ter a certeza que umas pulguinhas se apaixonaram pela minha roupa.
Em casa dei banho ao estupor. A Ana tentou agarrá-lo para lhe dar festinhas não sem antes o cabrão lhe ter quase vazado um olho. Deixei-o miar desalmadamente a tarde toda, convencida que o tarado ainda não tinha tirado a barriga da miséria e não tinha pinado tudo o que lhe competia. "Papo-seco. Pshhhh. Anda cá, pequenino!"
Duas horas debaixo da cama. Pedi à Ana que o deixasse sossegadinho até ele ficar menos stressado.
Mámen chegou a casa do trabalho e eu dei-lhe- orgulhosa, porém toda escafiada dos arranhões- a notícia do resgate.
"Epá, que alívio!"- exclamou. "Deixa-me lá vê-lo..."
E trouxe-o, sob um miado de protestos até à sala onde, de sorriso irónico me perguntou:

"Castraste-o, entretanto? Ou mudamos-lhe o nome para Carcaça?"

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2 comentários:

Sabi disse...

Eu não queria ser a má da fita, mas pelo que me diz a experiência, gato que conhece rua, dificilmente se contenta em casa :/ e isso de castrar devia era ter sido logo aos quatro/cinco meses... os gatos macho não têm cio, quem tem são as fêmeas, os machos estão sempre prontos para a festa, basta sentirem fêmeas em cio por perto (estamos na altura)...
Se fosse a vocês mudava a veterinária, isso são muitas informações erradas :/

Cristina Loureiro disse...

LOL não acredito que trouxeste uma gata em vez de um gato LOL

Tenho 2 gatos e ambos foram castrados antes dos 6 meses e depois dos 4. Para serem gatos de casa o ideal é mesmo castrá-los o quanto antes. Mesmo assim um dos meus às vezes bate-lhe a curiosidade e quer ver o que há por trás do muro do jardim mas depois fica cagado de medo e não vai mais longe. :P

Espero que pelo menos não tenhas trazido uma gata com brinde(leia-se bebés) :/

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