segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Foi um hygge que se nos deu!

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Com a mudança de casa tentámos decidimo-nos a destralhar.

Muito convicta- depois de mil contas do instagram visitadas e revisitadas, depois de imagens e imagens do pinterest percorridas, de me deliciar com o ar relaxado, zen e pacífico das bloggers/instagrammers/pinteresters e senhoras com ar de quem não dá um pum com canecas de chá nas mãos e mantas brancas/cinza/bege de lãs XL de ovelhas felizes da Escócia profunda em cima dos joelhos, a viver em casas brancas, com móveis brancos, sofás brancos, tudo alinhado, tudo arrumado, filhos imaculados, quartos das crianças sem brinquedos que parecem capas de revista de decoração, cozinhas de bancadas livres, paredes sem furos nem quadros (a tendência é poucos quadros e todos em cima de móveis baixinhos e encostados às paredes) e casas de banho com sabonetes naturais e orgânicos sem corantes nem conservantes fabricados em casa por mulheres no seu décimo primeiro dia de ovulação em noites de lua cheia- eu queria uma casa hygge.

Eu queria uma casa hygge, minimalista, sem ruído visual/sonoro/auditivo/sensorial, imaculada e zen para ficar com aquele semblante feliz e pacífico das senhoras dos blogs/ instagram/pinterest com ar de quem não dá um pum.

A casa nova era o melhor pretexto para destralhar. Comecei por partilhar com mámen a ideia e de lhe mostrar alguns exemplos de ambientes que gostaria de reproduzir.

Começou logo a complicar: "mas essa gente não vê televisão? Onde é que eles enfiam a televisão? Num armário fechado?". Revirei os olhos e expliquei-lhe que poderíamos viver sem televisão e tal, que até era bom e ele lembrou-me as vezes em que precisamos de limpar a casa/trabalhar em silêncio/estar concentrados a fazer uma tarefa e que somos salvos pelo Disney Channel a hipnotizar entreter a miúda. Ok, concedo na televisão. "Mas olha lá: e os livros? Essa gente com cara de quem não come para não fazer migalhas não lê? Onde é que eles enfiam os livros?" Pronto, estragou tudo que se há coisa que eu levo a  sério são os meus ricos livrinhos e sim, tínhamos que comprar estantes q.b. que livros são mais de mil. "E se forrássemos os livros todos de brancos para ficar visualmente clean?"- atrevi-me, num delírio. Lançou-me um olhar gélido e disse-me que poderia deixar essa tarefa para a reforma, pois que era um excelente passatempo para esperar a morte.

A ver as casas de banho dos ambientes por mim seleccionados no pinterest dei por ele a rir às gargalhadas: "Tu estás a gozar comigo? Esta gente não tem papel higiénico à vista! Não têm caixote do lixo para meter papel nem piaçabas? Ou não limpam os rabos ou têm problemas de canalização e lá se vai o hygge deles cá com uma pinta..." Respirei fundo., Respirei muito fundo.

Fomos ao quarto da Ana e começámos a olhar com o filtro do hygge para aquilo. O hygge reforça a ideia de desapego e minimalismo e o quarto da Ana é um souk de Pinipons, Barbies, Nenucos e Legos. Um atentando a qualquer hygge que se preze, portanto. "Bem, poderíamos reduzir o número do brinquedos, não achas?" "Sim, sim. Tiras a TV da sala, gamas-lhe brinquedos e depois é melhor tapares as tomadas de casa e preparares-te para uma dolorosa e hygge conta de pedopsiquiatra, boa ideia, sim senhora". Estúpido, a boicotar o meu hygge!

Seguimos para o nosso quarto e ele mudou de atitude. Abre o meu roupeiro e começa a sacar das roupas que já não me servem e que guardo religiosamente por questões de compulsão acumuladora emocionais. "Ah, se queres desapego acho que sim! Já não usas este fato de macaco há uns 20 anos. Aliás, acho que nunca te vi vestida com ele e já estamos juntos há 18!" Cabrão, a querer deitar fora o meu fato macaco leopardo, coisa mais linda, peça vintage dos anos 90, tão felizes que fomos no Bauhaus. E continuava a assassinar as minhas memórias atirando para um saco preto o vestido comprido azul com que comemorei os meus 18 anos aos melos com o Gil no Tamariz, a camisa azul que tinha vestida no concerto do Bryan Adams de 10 de Junho de  1994, a saia hippie com que fui ao meu primeiro Sudoeste e por aí fora. "Hey pára tudo: isso são peças emocionais!" O tipo continuava muito sério: "Liliana, não é suposto praticar a arte do desapego? Ser em vez de ter? Então?!" Lancei-me sobre ele a tempo de salvar a minha colecção de relógios swatchs  que não uso há mais de dez anos mas que me lembram uma adolescência muito feliz.

A esta altura eu já não queria ter aquele ar zen, de quem não dá um pum, das senhoras hygge.

Eu queria apego, queria recordações, memórias, livros com capas à vista, quadros nas paredes, televisão para entreter a miúda quando eu já estou com os cabelos em pé, peças de lego que me fodem os pés quando as piso mas que espelham a imaginação da minha filha. queria piaçabas nas casas de banho e tábuas de madeira de corte bonitas em cima das bancadas de cozinha, as nossas fotografias pelas divisões, nódoas de compota das panquecas de sábado de manhã nas toalhas de mesa que nunca poderão ser alvas e branca. Queria puns e gargalhadas. E café em vez de chá. 
"Então, estás a reconsiderar a decoração?!"- interrompeu-me ele os pensamentos.

Nunca se metam com uma gaja trendy despeitada: "Olha, vai para o hygge que te pariu!"


[Um cheirinho de decoração hygge aqui para os interessados]

7 comentários:

Gorduchita disse...

Ia-me desfazendo a rir! :D

Dona Foca disse...

Ah ah ah!
Ainda ontem estava a ver um daqueles programas de renovação de casas e comentei com o meu marido "estas casas no fim da renovação e decoração parece que ninguém lá vive dentro! Onde é que guardam a tralha?!?!"
Também tenho desses sonhos de móveis brancos e ambientes airosos, mas depois lembro-me que a casa é pequena e que juntos temos muita coisa!

Dina disse...

Amei, amei, amei :) Não quero uma casa de revista de decoração: quero uma casa com vida e que reflicta quem lá vive

Dina disse...

Amei, amei, amei :) Não quero uma casa de revista de decoração: quero uma casa com vida e que reflicta quem lá vive

Sofia Ferreira disse...

Muito bom!! Bjs

Sabi disse...

Nós já tentamos ser minimalistas na sala... depois veio o miúdo e mudámos tudo para criar um espaço de brincadeiras para ele e acomodar espaços para os nossos interesses e podermos estar todos juntos na sala. Ficou a sala cheia de coisas e, na nossa opinião, muito mais acolhedora... :)

papoila disse...

O Hygge dos dinamarqueses, suponho que o original, não é tudo clean, sem ornamentos, o hygge é mais o confortável sem excessos! Acolhedor, mas sem mensagens obvias, claro que ajuda se tiverem umas peças especiais, mas não têm que ser moderninhas sem graça! Bom, a cada um o seu hygge, é a mensagem! Boas decorações S, uma portuguesa em terra viking a tentar hygge sig!

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