quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O amor (verdadeiro) emociona-me

             


Fui a um velório há menos de um mês e emocionei-me muito. Calinhas entrou na câmara crematória ao som da mesma música russa que tocava quando nasceu. Não estou habituada a detectar beleza na morte, muito refém da herança judaico-cristã, do catolicismo do luto de roupa preta e do barulho impossível da terra a bater sobre a madeira do caixão a descer à cova.
Mário Soares morreu e com ele acabou uma era.
Mário Soares morreu e com ele levou uma das mais belas histórias de amor contemporâneas, daquelas que são difíceis e resistentes, reais e resilientes, que são- efectivamente- para sempre.
Mário Soares morreu e assisti a uma das cerimónias fúnebres mais belas de que há memória mesmo com lágrimas de filhos e netos (e como me apertou o coração quando as televisões filmaram os netos mais novos, tão desnecessária aquela montra televisiva de dor, tão escusada e intrusiva), mesmo com a impessoalidade da multidão na plateia, mesmo com honras de Estado e protocolo à mistura.
Mário Soares morreu e ouviu-se a voz de Maria Barroso, serena e pausada, real e perene, verdadeira e eterna.
A voz de Maria Barroso a lembrar-nos que às histórias de amor- as verdadeiras- nem a morte (especialmente nem a morte) as separa.

3 comentários:

Maria Luís disse...

Foi realmente emocionante. Destaco também o discurso da filha. Forte...!

Hortelã Pimenta | Facebook | Instagram

Paula Ferrinho disse...


É verdade... assisti em direto, nesse dia, às cerimónias fúnebres, o que não era, aliás, difícil, já que todas as televisões as estavam a passar.
Lembro-me de ter ficado emocionada com este poema, tal foi a intensidade do amor que transparece da sua declamação, quer pelo peso lindo das palavras, quer pela entoação/sentimento com que foram declamadas. Foi um momento maravilhoso, embora triste e penso que o "peso" do protocolo, não lhe conseguiu tirar um encanto de simplicidade.
O amor verdadeiro também me comove sempre, tal como a ti e também como tu concordo que os nossos "momentos de morte" estão carregados de uma tristeza, um luto, uma carga negativa que não têm, necessariamente, que ter. A morte, embora triste, faz parte de nós e dela podemos receber momentos destes... tristes, mas profundamente verdadeiros e comoventes.
Vou partilhar... Obrigada!

Paula Ferrinho disse...



No seguimento do meu comentário anterior, partilho contigo...

http://agridoceedoce.blogspot.pt/2017/01/profundezas-da-alma-quando-li-este-post.html

Um beijinho,

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