Dali, seguiram para casa da Tia Aldinha, irmã solteirona do avó Lalau, no Largo da Ribeira Velha, fronteiriço com a Luisa Todi, precisamente na casa sobre o arco, um primeiro andar com sobreloja. O caminho é curto, devem-no ter feito a pé. Não deve ter chovido durante o percurso, mas a ausência de fotografias no adro da Igreja faz-me pensar que talvez tenha chovido, embora as roupas dos convidados apareçam sempre enxutas nas fotos. Só existem fotos no interior da Igreja e em casa. Só as da partida para a lua-de-mel na rua. O Avô um charme irresistível de galã. A Avó de olhar triste: “Ia pela primeira vez para longe dos meus pais”.
Na mesa da casa de jantar, vejo os cestos de nougat recheados com fios de ovos. É a única coisa que vejo por cima da mesa quando fecho os olhos, recordado de cor, as fotos. Não há foto da corbeille, como há das irmãs da Avó. Mas houve presentes, que chegaram até nós. O pós-guerra, as senhas de racionamento, a dificuldade em encontrar linho para os lençóis bordados podem ter ditado o comedimento na ostentação. Nada mais resta do vestido de casamento, que se estragou com o tempo. Sobejam as flores de laranjeira em cera que culminavam o bolo de andares, qual cereja, que, tal como o lunch, foi servido pelo restaurante do Hotel Esperança.
Há onze anos, também num mês de Janeiro, não chovia. “- A Mãe é melhor não ficar à frente, vai custar-lhe mais.” “- Eu fico até ao fim! Até ao fim!” E ficou. O som do caixão a cair na terra, a terra a cair no caixão.
A Avó ficou até ao fim. Há dois anos. O corpo mutilado, cadavérico mas inchado dos fluídos que a apodreciam por dentro, mas ficou. A morte já rondava quando lhe dei a última refeição. Nunca agradeci à minha Mãe por mo ter pedido para fazer, apenas o agradeci por dentro. Entre duas colheradas, perguntou-me algo que não lhe consegui responder, nem uma mentira piedosa. Ainda hoje não sei responder porque teve de passar por todo aquele sofrimento final. Na manhã seguinte, já não dava acordo de si. “Vais ter de cancelar o que tens esta semana”. “- Eu sei, logo se vê”. Um diálogo entre mim e a Mãe, diante do seu olhar, que não estava lá. Sussurrei-lhe um gosto muito de ti e pensei para mim que não precisava de lutar mais. Não sei qual das duas ouviu, mas deixou-nos poucos minutos depois.
Do meu grande crush blogosférico Pedro Urbano no seu blog pessoal
2 comentários:
:) Obrigado
Mas que bela história, mesmo!
Olá, sou a Olivia. Nova por estas bandas. Gostei de conhecer o teu espaço. **
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