sábado, 18 de março de 2017

Primeiro amor

"É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo. 
 Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal «só porque acaba». Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo. 
 O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói — porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre de mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte «um único bocadinho de nós». Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. E inobservável. E difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada. 
 Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado. 
É como a criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa “Meu Deus! Como pode ser!” do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas não como ligar electrodomésticos á corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual um micro-ondas. Mas o “Zing!” inicial, o tremor perigoso que se dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor- é o primeiro casamento; mas não é igual. 
Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer "Alto e Pára o Baile", amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem; amores democráticos que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro.
Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria o primeiro. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar.Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo,  reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida- e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se.
Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes , são mais parecidos. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes. os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais.
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi.
Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais "inteligentes".
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, maus suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que  lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro."


 Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

sexta-feira, 17 de março de 2017

Aquele dia...

... em que queres desejar os parabéns a alguém que é muito importante (e com quem convem não meteres a pata na poça) e te enganas na data. 

Foi hoje. 

terça-feira, 14 de março de 2017

14 de Março de 2017: à minha avó Ana




Eu era feliz mas não sabia muito bem o que era isto de ser feliz. Talvez, quando somos pequenos, acreditemos tanto na sobredimensão das coisas que achamos que o que sentimos ainda não é aquilo, não é bem o auge, falta sempre um bocadinho. Talvez por sermos pequenos e, mesmo assim, já termos tudo o que é importante desconfiemos que a vida não pode ser só aquilo, que tem que haver mais para a frente, mais e melhor,
Talvez seja esta a magia da felicidade, quando a temos no expoente máximo: não a intectualizarmos, não a trazermos à razão e ao pensamento, vivermos naturalmente como se aquilo fosse a norma, como se viver, assim, feliz e tranquilo, fosse tão natural como respirar. 
Acordar espreguiçando-nos, comer papa com remelas nos olhos, ver desenhos animados na televisão, chegar à escola com alegria por reencontrar os amigos, aprender coisas novas que vão de encontro à nossa curiosidade, ter a sensação de que hoje se sabe mais que ontem, brincar e fingir que podemos ser o que quisermos, sendo-o, efectivamente, transformar um galho num cavalo, flores de amoreiras em pequeninas jóias, sentir alegria genuína quando o meu avô, montado na sua bicicleta, me ia apanhar à escola e me dava boleia na parte de trás, chegar a casa e comer o pão com manteiga aquecido no bico do fogão, o cheiro da minha avó, o beijo na sua pele enrugada e macia, esperar a minha mãe chegar do trabalho, fazermos juntas os trabalhos de casa, jantarmos todos- apertados- na mesa redonda que ocupava mais de metade da sala, adormecer sempre com alguém preocupado em dar-me um beijo de boas noites e garantir que estava tapada. 
Depois, talvez pela adolescência, estraga-se tudo numa partida inglória de hormonas, leitura de maus escritores e questões filosóficas que nos atormentam a moleirinha e pagamos a factura- bem cara- o resto das nossas vidas, à procura da felicidade que se teve sem fazer nada, de mão beijada, sem qualquer mérito próprio, só porque tivemos a sorte de nascer rodeados de afecto e termos por perto uma data de pessoas para quem somos prioridade, que se importam connosco, que nos amam incondicionalmente só porque fazemos parte delas, porque lhes pertencemos, porque somos todos primeira pessoa do mesmo plural. Nós. 
Passei grande parte da minha idade adulta a gerir hormonas, a preterir escritores e a seleccionar outros novos, a ler gente melhor e a domar todas os meus fantasmas kafkianos Acho que o resto da minha vida vai ser passado a recuperar o que já tive. Não são coisas complicadas, talvez seja isso que aprendemos o resto da vida e que desconfiamos por serem todo um cliché: a felicidade está mesmo nas pequenas coisas- o prazer de acordar com tempo para me espreguiçar, ver televisão sem preocupações na cabeça, só a curtir o programa, manter a curiosidade para aprender afastando a presunção de que já se sabe tudo, brincar sem receio do ridículo, experimentar ser o que quisermos e pudermos ser sem medo de mudar, de falhar, de tentar de novo, encontrar amigos com genuína alegria por estarmos juntos, olhar para a natureza como se cada ramo pudesse ser o que nos dita a nossa imaginação.
Talvez seja essa a tristeza de sermos adultos: a sensação de que não se podem recuperar pessoas. De que nunca mais estaremos completos. Que fomos, algures, felizes porque tínhamos junto de nós todas as pessoas que amávamos. Todas, sem excepção, sem lugares por preencher na mesa de Natal, sem datas no calendário por celebrar à força das pessoas que partiram, de não faltar, absolutamente, ninguém para termos o coração cheio desse afecto bom de quem nasceu connosco, de quem sempre lá esteve. Nós.
A angústia de sermos adultos é este entalamento de não conseguirmos que coexistam no tempo quem nos fez"nós" e quem criámos enquanto "nós", passado e futuro, felicidade completa do afecto de quem nos protege, de quem nos quer acima de todas as coisas, de quem nos ensinou o que é ser amado com o afecto de quem nos cabe a nós proteger, de quem queremos acima de todas as coisas, de quem nasceu para nos fazer aprender a arte de sermos nós a ensinar o amor. 

88 anos.
Hoje a minha avó celebraria 88 anos.

E a sua ausência nunca permitirá que eu volte a sentir uma felicidade completa, uma felicidade de fechar os olhos e sentir que alguém me beija a fronte e me tapa o corpo, aconchegando-me e fazendo-me acreditar que não me falta absolutamente nada.
A minha avó faz-me falta todos os dias. Até que a morte não nos separe. A nós. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Ah, quando é que há um dia do Homem?

Quando eles quiserem. Basta quererem.
Nós? Infelizmente, nós não queremos um dia da Mulher (nós até queríamos mesmo era um dia de igualdade de género, sabem?)
A questão é que nós- ainda- precisamos dele.

Anúncio "comemorativo" do Stand Virtual. Ano da graça de 2017. É isto. 

Assinalemos o dia da Mulher. Comemorar? Não. Ainda não.




"Mulher séria não tem ouvidos"/"Ela é puta, ele é engatatão"/ "Vais ter uma menina? Prepara já a caçadeira!"/ "A mulher e a sardinha quer-se pequenina"/"Ressabiada e mal fodida"/"Mulher de rua"/ "Subiu na horizontal"/ "As mulheres são todas umas cabras umas para as outras"/"Segredo em boca de mulher é manteiga em focinho de cão" /"O lugar da mulher é na cozinha"/ "As meninas não se sentam de pernas abertas!"/"A mula e a mulher com o pau se quer"/"Mulher, cavalo e  cão não se emprestam nem se dão"/ "Uma lady na mesa, uma louca na cama"/"Atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher"/ "Mulher calada, mulher honrada"/ "Pôs-se a jeito!"/"Tens que te dar ao respeito"/"Filho de mãe solteira"/ "Não sejas histérica!"/ "Chorar com uma menina"/ "Mulher ao volante, perigo constante"/"Coisas de gajas""/Está de mau humor? Deve estar com o período!"/"Recatada e do lar"/"Corres como uma menina"/"Mas quem é que veste as calças lá em casa?"/"Podia falar com o chefe de família?"/"Filho(a) da puta!"/"Primeira dama" / Às meninas não se bate nem com uma flor"/ "A conversa já chegou à cozinha?"/"Mulher fácil"/ "Isso não é para meninas"/"Porta-te como uma senhora"/"Ladies night"/"Mulher séria não tem ouvidos" (bis)

Podia dizer "puta que os pariu".  Mas- até aí- a culpa é sempre da mulher. 


[O resto? O resto está aqui.]

terça-feira, 7 de março de 2017

Fado do aziado ou João Braga em dissonância cognitiva

João Braga escreveu há dias: "Agora basta ser-se preto ou gay para ganhar os Óscares".

João Braga é um sportinguista ferrenho. 

Como terá reagido João Braga à conquista de uma medalha de ouro de Nélson Évora e de um segundo lugar de Patrícia Mamona- atletas do seu Sporting- nos últimos dias?



Ando viciada nisto...*

Podia-me dar para roer roupa mas tem-me dado para beber isto às pazadas.



Experimentem, caramba!



*Serviço público. Porque sou uma fixe. Sem parceria nem nada.  Mas se a Lipton quiser pagar-me em géneros, não me faço de fyna.

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que contam os dias que tem cada mês socorrendo-se dos nós dos dedos e as outras.

O Salvador da Pátria

Vencidos os preconceitos da primeira eliminatória (sim, combato todos os dias os meus próprios preconceitos) predispus-me a acompanhar melhor os movimentos do Salvador Sobral (de quem me lembrava de um daqueles concursos de talentos de há mil anos). Movimentos não à letra, tá?
Fui revisitar as actuações dele no Ídolos. Relembrei-me do ar "beto". Fui pesquisar o seu percurso pós-ídolos, o trajecto entre diferentes países, as influências de jazz que (agora) notamos que estão lá. 
Revi a primeira eliminatória. Li as notícias que justificavam as roupas largas, a cirurgia de urgência pós emissão. Pensei melhor. Ouvi mais vezes: de olhos fechados, abertos, a trautear baixinho a melodia, a acompanhar já com a letra decorada. 
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. 
Ouvi ao vivo e auto-puni-me violentamente. Salvador Sobral- como dizia a Catarina Fonseca numa caixa de comentários de uma amiga comum:  " tem de ser todo ele diferente. Se é diferente num lado e igual no outro, passa só a ser um quase-igual."
Caramba, era mesmo aquilo!
Salvador tem bossa nova, jazz, Jobim, Caetano e- claro!- Luisa Sobral na voz. É único e sublime. E deixa-nos com uma música que sobreviverá ao festival da canção, ao concurso e aos votos, aos points e aos concorrentes macarrónicos, proeza já não vista há mais de 20 anos.
Sabem que mais? Se em Kiev ganharmos, ganhamos bonito.
A vantagem é que-desta vez- se perdermos- caraças- também perdemos bonito.



Se um dia alguém 
Perguntar por mim 
Diz que vivi 
Para te amar 
Antes de ti 
Só existi 
Cansado e sem nada p’ra dar 
Meu bem 
Ouve as minhas preces 
Peço que regresses 
Que me voltes a querer 
Eu sei 
Que não se ama sozinho
 Talvez devagarinho 
Possas voltar a aprender 
Se o teu coração 
Não quiser ceder 
Não sentir paixão 
Não quiser sofrer 
Sem fazer planos 
Do que virá depois 
O meu coração 
Pode amar pelos dois

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sabem aquela coisa de ser tão mau e dar a volta e ficar muito bom?



É isto.

New facebook page on the the block

É uma brilhante ideia do MC Somsen para poupar os incautos frequentadores das redes sociais do lixo noticioso cibernáutico. 
Sabem aqueles links para notícias apelativos e "misteriosos" que nos impelem a clicar para ler mais? E que, regra geral, resultam em lame news, notícias decepcionantes, irrelevantes, publicidade ou spam camuflados de notícias? 
MC Somsen dispõe-se a poupar a malta na sua página de facebook "Anti Clickbait Portugal". Portanto, a partir de agora no more clicks a notícias parvas só por causa das tosse porque "é bem feita porque o cão tem a mania que é espertalhão".

Do que estão à espera? Espreitam-na aqui. 

A terapia de casal está sobrevalorizada


Hospitais (apenas) "baby-friendly"? Não, obrigada!

Li este artigo. Fiquei-obviamente- doente (acredito que seja um caso extremo mas ainda acontece. No segundo milénio da história E isso angustia-me.)

Bebés a morrerem de fome, em pleno século XXI, por fanatismo de equipas médicas numa altura em que as mulheres, recente mães e inexperientes, não se dão ao luxo de tentar seguir o seu instinto e só querem fazer "tudo certo", tudo o que diz a OMS e as suas cartilhas do "ideal" e da lácteo-culpa.

Mais de 50% das mães de primeira viagem que já conheci seguem, cegamente, a opinião dos médicos com medo de errarem, de prejudicarem os seus filhos e com a absoluta crença de que os médicos é que sabem. E que, obviamente, sabem mais que elas. Mais de 50%.

Esta é uma fase em que as mulheres não querem correr riscos. O que está em jogo é demasiado importante para se arriscar. É o seu bebé, a coisa mais importante do Mundo. Não há margem para erros e quer-se tudo feito de forma rigorosa, sem falhas e ideal.


Só que o Mundo não é ideal.

 O Mundo é gerido por nós, com as nossas condicionantes, emoções, necessidades, vontades, motivações. O melhor para os bebés será sempre o que decidir a sua mãe com a inteligibilidade do instinto que é- nos dias de hoje- muito subvalorizado e preterido face a manuais de sobrevivência, crónicas de revista de pediatras que escrevem para um universo de mães, obviamente generalizando, workshops com turmas cheias para se aprender de mudar fraldas, usar sling e cantar afinadamente canções de embalar. 

 Não voltarei a ser mãe, provavelmente.

Não sei se serei avó. Se um dia o for direi à minha filha que siga o que sente. Sempre o que sente. Que escolha um médico em quem confie- um médico, não uma amiga, não uma hipster dos partos, não uma opinadora- e que a respeite como mãe, a oiça e dê importância às suas condicionantes, emoções necessidades, vontades e emoções. E especialmente ao que ela sinta. E que não lhe pregue teorias mas que a oriente e ajude, num processo calmo e personalizado, a encontrar os seus próprios caminhos de maternidade no que às suas dúvidas disser respeito.

Acredito que a mãe se deve rodear de pessoas em que confia e que a respeitem na sua nova condição. Pessoas com conhecimento cientifico como médicos mas que sejam humanos, Pessoas com experiência emocional como os seus familiares (mães, avós, tias) mas com bom senso. E que- no fim de contas- esses funcionem como consultores mas quem decide será sempre ela, com base naquilo que acredita ser o melhor. Para toda a família (ela, marido, bebé e outros filhos, se os houver).

O resto? O resto é instinto. É quase sempre infalível e não o devemos desprezar. Urge dar às mulheres o poder de acreditarem no seu instinto porque cada mãe sabe- em última instância- o que fazer.

 O Mundo não é ideal. A maternidade também não. Errar faz parte. Tentar várias vezes também. Não acertar à primeira é natural.

As alternativas devem ser oferecidas. Devem ser postas em cima da mesa para que as mães tenham livre arbítrio para decidirem em consciência. E depois da escolha feita, da decisão tomada,  devem ser apoiadas nas suas escolhas, da mesma forma profissional, sejam essas escolhas quais forem. Sejam ajudarem nas pegas, apoiarem nas estratégias de amamentação, como ensinarem a dar biberão de forma a evitar a entrada de ar ou prestarem informação correcta sobre o Parlodel.

 Quando os hospitais se deixarem de merdas de amigos dos bebés e se focarem em serem "family friendly" porque os bebés são parte de um todo, são seres biopsicossociais, só aí, o paradigma mudará.

O dogma não deve ser o a favor ou contra a amamentação/o co-sleeping/a alimentação biológica ou o que quer que seja, Deve o da liberdade de escolha e no apoio em cada escolha individual de cada família e na optimização dessa escolha. Seja sobre que tema for. Desde que se ame, se cuide e se queira o melhor.

 Venha a mudança!

[Disclaimer 1 já antes de coiso- Gente mais acalorada pró-amamentação antes que vos dê um fanico: eu não sou contra a vossa perspectiva, não sou contra a amamentação, aliás, sou muito a favor. Para todas as mulheres que o desejam, consigam ou para quem lhes faça sentido. Da mesma forma que sou a  favor da alimentação com leite artificial para todas as mulheres para quem essa escolha seja a que desejam, consigam ou para quem faça sentido. Respeito, empatia, discussão saudável sobre o tema é bem-vinda. De resto, já dei para esse peditório. E já não tenho disponibilidade para o fazer.]

[Disclaimer 2- Fedisbest é uma organização fabulosa que defende que "babies should never go hungry and mothers should be supported in choosing clinically safe feeding options for their babies. Whether breast milk, formula, or a combination of both . Conheçam-na.]

quarta-feira, 1 de março de 2017

Foi Carnaval e nem sei como não passei mal

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Com tanta coisa que se discute no Parlamento, nas mesas de café e nos comentários a status de facebook, ideias de se mudarem os feriados todos para a segunda-feira seguinte, de se suprimirem os católicos que somos um estado laico, de não comemorarmos o Natal nas escolas (pela mesma razão) nem o dia do pai nem o da mãe para não melindrarmos as crianças órfãs e as filhas de pais cretinos como o meu, com ideias de encurtarem férias de Verão (que jeito tem férias escolares de Verão sem o mínimo de três meses, senhores?), de não importarmos o Valentine's nem o Halloween, de se abolirem os TPCs (tenho pena da professora da Ana porque eu vou ser porta estandarte dessa bandeira a partir do primeiro dia de aulas dela até ao último) e tudo e tudo, ninguém se lembra do que é verdadeiramente importante: regulamentar o Carnaval!


Primeiro: urge mudar a data do Carnaval do calendário. Para Julho, Agosto o mais tardar.

Estamos fartos de piratas enchouriçados em anoraks, de sereias com collants e (sim, assumo!) a Ana mascarou-se de Ladybug com o maior índice de consenso aqui em casa porque... a máscara implicava um fato de macaco que potenciava que ela pudesse levar por baixo camisolas interiores, camisolas de gola alta, collants, leggins e pijama se fosse preciso. Sim- admito!- que também se mascarou de Elsa com uma camisola de gola alta azul bebé por baixo, que a parva da Elsa verdadeira estava frozen, estava frozen, mas andava ali de racha no vestido com o pernil ao léu que vê-se mesmo que ia ficar com uma pneumonia- a grande parva! E estão a ver o terceiro disfarce? O de fada? Comeu com collants, camisola de gola alta e ficou enchouriçada que, por estes lados, as fadas não são magras: são anafadas e quentinhas, que não se admitem padrões de beleza aplicados a quem quer que seja, quanto mais a fadas...

Quando finalmente uma pessoa agarra no enchouriçadíssimo filho, o mune de serpetinas e papelinhos e... chove! Serpentinas no chão encharcadas, papelinhos a colarem-se às solas dos sapatos todos melados e é a loucura da diversão!

Ah, mas na escola é que vai ser! A escola decidiu-se por um tema- suponhamos animais marinhos para celebrar a diversidade dos mares e coiso e tudo super pedagógico e fundamentado em relatórios de actividades e projectos educativos- e depois de um DIY exigentíssimo (que não deu em nada senão bosta ao ponto de teres tido o bom senso de ir comprar uma fatiota que não envergonhe o teu filho até à marinho-medula) chegas lá e o que vês? Meninas vestidas de lavadeiras com uma trouxa na pinha (raios m'a partam, estas miúdas nasceram em 2012, estão a ver a cena? Nem máquinas de lavar roupa manuais elas sonham o que são, quanto mais tanques. Tanques. Trouxas. Saias à varina com meias rendadas.). Ah, mete água. Pois mete. Mete mesmo muita água, quarailho, mas não a água do tema animais marinhos, boa?! Ah, espera tem ali outra de sevilhana... sevilhana. Essa guapa aquática, olé!

"Ah, mas ó Rita não tinha dito aos pais que havia um tema? O tema não era animais marinhos? Então eu obriguei a minha filha a vir vestida de cavalo marinho, depois de uma birra do tamanho dos oceanos, de ter perdido mil horas a explicar-lhe que os cavalos marinhos não podem usar um postiço com a trança da Rapunzel que ela queria trazer como complemento, eu zanguei-me com ela logo de manhã porque O TEMA ERA A DIVERSIDADE e o camandro dos animais marinhos para nada?".

"Ah mãe, os pais não tiveram tempo/conseguiram preparar nada/não lhes apeteceu chatearem-se com a cena e pronto, assim com'assim eles vêm como se sentem bem, né, mãe?" E uma pessoa fica doente dos nervos e apetece-lhe ir a casa e voltar a trazer a miúda de saco de cama vestido e dizer-lhe que ela é feliz é deitadinha na cama a dormir, quentinha, em vez de acordar uma hora antes para emborcar a puta da máscara de cavalo marinho. De saco de cama e de postiço com a trança da Rapunzel, só por causa das coisas.

"Ah, mãe se calhar devíamos ter preparado as máscaras aqui com eles, não era?"
 Ah, em calhando era capaz de ter sido boa ideia que se há tempo e energia para presentes do dia da mãe feitos pelos meninos tipo colares de massas que eu tenho que envergar orgulhosa, também deveria haver para se fazer fantasias para os próprios usarem- mesmo que tivessemos que comer com porras recicladas que não têm ponta por onde se lhes pegue- e pouparmos os paizinhos ao desgosto de se transformarem em psicopatas frustrados por não conseguirem fazer DIY que não sejam tema para Freud explicar recalcamentos das crias no futuro nem gastarem 40 mocas em fatos de cavalos marinhos. "Sim, era capaz de ter sido uma boa ideia.."

Ou isso ou não inventarem temas e darem liberdade para- pelo menos no Carnaval- cada um ser o que quiser.

Digo eu que até gosto muito do Carnaval e fiquei bué ralada com a carraspana que nos apanhou aos três neste último e que justificou uma fada enchouriçada, uma Elsa de gola alta e uma Ladybug anafadinha. E nos poupou um saco de plástico preto do lixo e uma concha numa bandolete no cocuruto.

Que é que foi? Os mexilhões estão muito subvalorizados...

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