terça-feira, 14 de março de 2017

14 de Março de 2017: à minha avó Ana




Eu era feliz mas não sabia muito bem o que era isto de ser feliz. Talvez, quando somos pequenos, acreditemos tanto na sobredimensão das coisas que achamos que o que sentimos ainda não é aquilo, não é bem o auge, falta sempre um bocadinho. Talvez por sermos pequenos e, mesmo assim, já termos tudo o que é importante desconfiemos que a vida não pode ser só aquilo, que tem que haver mais para a frente, mais e melhor,
Talvez seja esta a magia da felicidade, quando a temos no expoente máximo: não a intectualizarmos, não a trazermos à razão e ao pensamento, vivermos naturalmente como se aquilo fosse a norma, como se viver, assim, feliz e tranquilo, fosse tão natural como respirar. 
Acordar espreguiçando-nos, comer papa com remelas nos olhos, ver desenhos animados na televisão, chegar à escola com alegria por reencontrar os amigos, aprender coisas novas que vão de encontro à nossa curiosidade, ter a sensação de que hoje se sabe mais que ontem, brincar e fingir que podemos ser o que quisermos, sendo-o, efectivamente, transformar um galho num cavalo, flores de amoreiras em pequeninas jóias, sentir alegria genuína quando o meu avô, montado na sua bicicleta, me ia apanhar à escola e me dava boleia na parte de trás, chegar a casa e comer o pão com manteiga aquecido no bico do fogão, o cheiro da minha avó, o beijo na sua pele enrugada e macia, esperar a minha mãe chegar do trabalho, fazermos juntas os trabalhos de casa, jantarmos todos- apertados- na mesa redonda que ocupava mais de metade da sala, adormecer sempre com alguém preocupado em dar-me um beijo de boas noites e garantir que estava tapada. 
Depois, talvez pela adolescência, estraga-se tudo numa partida inglória de hormonas, leitura de maus escritores e questões filosóficas que nos atormentam a moleirinha e pagamos a factura- bem cara- o resto das nossas vidas, à procura da felicidade que se teve sem fazer nada, de mão beijada, sem qualquer mérito próprio, só porque tivemos a sorte de nascer rodeados de afecto e termos por perto uma data de pessoas para quem somos prioridade, que se importam connosco, que nos amam incondicionalmente só porque fazemos parte delas, porque lhes pertencemos, porque somos todos primeira pessoa do mesmo plural. Nós. 
Passei grande parte da minha idade adulta a gerir hormonas, a preterir escritores e a seleccionar outros novos, a ler gente melhor e a domar todas os meus fantasmas kafkianos Acho que o resto da minha vida vai ser passado a recuperar o que já tive. Não são coisas complicadas, talvez seja isso que aprendemos o resto da vida e que desconfiamos por serem todo um cliché: a felicidade está mesmo nas pequenas coisas- o prazer de acordar com tempo para me espreguiçar, ver televisão sem preocupações na cabeça, só a curtir o programa, manter a curiosidade para aprender afastando a presunção de que já se sabe tudo, brincar sem receio do ridículo, experimentar ser o que quisermos e pudermos ser sem medo de mudar, de falhar, de tentar de novo, encontrar amigos com genuína alegria por estarmos juntos, olhar para a natureza como se cada ramo pudesse ser o que nos dita a nossa imaginação.
Talvez seja essa a tristeza de sermos adultos: a sensação de que não se podem recuperar pessoas. De que nunca mais estaremos completos. Que fomos, algures, felizes porque tínhamos junto de nós todas as pessoas que amávamos. Todas, sem excepção, sem lugares por preencher na mesa de Natal, sem datas no calendário por celebrar à força das pessoas que partiram, de não faltar, absolutamente, ninguém para termos o coração cheio desse afecto bom de quem nasceu connosco, de quem sempre lá esteve. Nós.
A angústia de sermos adultos é este entalamento de não conseguirmos que coexistam no tempo quem nos fez"nós" e quem criámos enquanto "nós", passado e futuro, felicidade completa do afecto de quem nos protege, de quem nos quer acima de todas as coisas, de quem nos ensinou o que é ser amado com o afecto de quem nos cabe a nós proteger, de quem queremos acima de todas as coisas, de quem nasceu para nos fazer aprender a arte de sermos nós a ensinar o amor. 

88 anos.
Hoje a minha avó celebraria 88 anos.

E a sua ausência nunca permitirá que eu volte a sentir uma felicidade completa, uma felicidade de fechar os olhos e sentir que alguém me beija a fronte e me tapa o corpo, aconchegando-me e fazendo-me acreditar que não me falta absolutamente nada.
A minha avó faz-me falta todos os dias. Até que a morte não nos separe. A nós. 

5 comentários:

MCP disse...

Ninguém melhor do que tu para escrever exactamente o que me vai na alma!

Ana Azevedo disse...

Também a minha. Fiquei com lágrimas nos olhos.

B disse...

Obrigada por este magnifico texto! A minha faria 88 anos em Dezembro passado, faleceu a um mês de os festejar. Todos os dias sinto a falta do sorriso dela, quando chegávamos a casa.

Solveig disse...

A minha teria 108 anos. E nao passa um dia desde ha 22 anos que nao sinte a falta da sua mao na minha. Obrigada por ter encontrado as palavras justas

Eli disse...

A minha avó tem 93 anos e está espetacular.
Eu faço anos a 14 de março! :-)

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