quarta-feira, 19 de abril de 2017

Bicheza on top

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Estamos na geração da sobreinformação.
Temos ao nosso dispor, à distancia de um click, artigos científicos, estudos clínicos, dados históricos precisos, noticias de media nacionais e internacionais, livros e matéria vária sobre exactamente... tudo.
De repente, passamos do paradigma da sensação de conhecimento limitado, da finitude do saber, da humildade para reconhecer que "cada macaco no seu galho" para a sensação de omnipoder, omniconhecimento, omnicompetência. De repente, lemos meia dúzia de livros online de auto-ajuda e trocamos powerpoints no webtransfer de pseudo-cursos de coaching ou PNL vendidos ao desbarato e passamos a acreditar que somos psicólogos, assistimos a tutoriais de como construir casas no youtube e somos engenheiros civis ou aprendemos a fazer pasteis de nata na bimby e estamos prontos a assumir o comando da cozinha da fabrica de pastéis de Belém.  O conhecimento está ali, acessível a quase todos e, na era do imediatismo e da velocidade da informação, de repente estamos preparados para lançar um foguetão depois de termos imprimido uns esquemas de um curso online para curiosos da SANA (é NASA ao contrário, portantosss, a bom ver é capaz de ser uma espécie de sucursal, né?!).
A informação disponível está ao dispor de todos para o bem e para o mal.
Se por um lado deixámos de endeusar e dizer amén a quem tem conhecimento, de ter sentido crítico e capacidade analítica para questionarmos e discutirmos recursos alternativos, opções, causas e consequências quando um médico nos explica porque sugere determinada intervenção ou passámos a ter capacidade de discutir com o mecânico sobre o orçamento que ele nos apresenta porque podemos pesquisar preços de peças, de googlar causas e efeitos de queixas que sentimos no carro e razões que o técnico nos aponta para aquilo estar a acontecer; por outro, recorremos a grupos de pais no FB para perguntar se vale a pena levar o nosso filho que está com 42 de febre ao hospital ou se estamos a sobrevalorizar ou se vale a pena consultar um advogado para nos resolver um problema legal ou se basta descarregar uns templates da net e assim poupamos nos seus honorários.
De repente, todos temos a sensação idiota de que podemos saber tudo, que o conhecimento sobre tudo está ao acesso de todos, que o empirismo vale tanto quanto a ciência, que os factos e as opiniões diversas sobre os factos podem coexistir na mesma dimensão.
É perigoso.
São perigosos os tempos que correm. Nunca foi tão fácil saber tanto e nunca se soube tão pouco e tão mal.
As pessoas, especialmente as pessoas da minha geração, não foram preparadas para gerirem tantos estímulos, tantas informações, processarem tantos factos, tomarem tantas decisões por minuto, analisarem e resolverem tantos problemas por dia, gerirem tantas relações no mesmo espaço físico e  virtual e de repente anda tudo a passar-se da pinha.
Desde teorias sobre o 11 de Setembro que foi encomendado ou ficcionado, anúncios do fim do Mundo, mês sim mês não, segundo profetas da república democrática do Congo ou os dilemas da Maria Helena, benefícios e malefícios do leite de vaca bastando fazer scroll down nos murais de facebook, passamos a vida a gerir informação e contra-informação, até enchermos o saco e nos apetecer mandar às urtigas todas as redes sociais e tornarmo-nos uma espécie de eremitas/Amish/Fernandos Pessoas naquela do "olhai, Lídia, as flautas dos pastores".
Andamos de cabeças cheias.
Eu defendo a liberdade. Ninguém imagina como é essa a minha causa todos os dias: a luta pela liberdade de cada um fazer as suas opções sem medos, cobranças ou julgamentos. Na maternidade, mais que tudo porque acredito que cabe às famílias decidirem o que é melhor para as suas dinâmicas familiares. Estou-me nas tintas para se as famílias decidem pelo co-sleeping até à puberdade, dar de mamar até aos 9 anos ou escolher não amamentar, ensinar uma religião logo que a criança nasça ou preferir não introduzir nenhuma crença religiosa até que os filhos tenham livre arbítrio,  preferirem deixar os filhos pequenos com os avós ou optarem por uma creche assim que termina a licença de maternidade. Estou-me nas tintas é como quem diz, folgo para que as famílias decidam o que é melhor para elas como um todo, para as suas crianças e os seus adultos, para os novos membros e a família alargada, que escolham o que mais se ajusta às suas dinâmicas familiares. O que é melhor para cada um, tendo por base a premissa de que isto do "melhor" assenta muito nas escolhas individuais e diverge de pessoa para pessoa, de família para família.
Há uma excepção que assenta num cliché " a minha liberdade acaba quando começa a do outro". Escolher ser new age e querer um parto em casa, na água, acompanhado por uma doula índia da amazónia pode correr mal para a grávida e para o pobre do recém-nascido mas não afecta o grupo, a comunidade onde esta família está inserida. O que não faz sentido é escolher-se não se vacinar os filhos e, com essa escolha, poder pôr em risco os filhos dos outros.
Pais não podem, segundo a lei, escolher andar de carro com  filhos pequenos sem cadeirinha de bebé. Pais não podem, segundo a lei, uma série de coisas tendo em conta os superiores interesses da criança. Mas podem decidir não as vacinar e, com isso, darem cabo da imunidade de grupo e contribuírem para que doenças erradicadas num país voltem em forma de surto. Pais podem decidir pôr em risco, de forma deliberada, os filhos dos outros.
Está certo.
Meus amigos, a Ciência não é uma crença, não é uma religião, não é um dogma. A Ciência não tem suspeitas, a Ciência não tem convicções, a ciência não pressupõe: a ciência sabe, provou, tem evidências. A Ciência são factos. A Ciência deve ser lei, entendem?
A Ciência diz que a vacinação é o caminho.
Sabem o que eu proponho?
Proponho fazermos uma colónia de férias só com estes pais sujeitos a muitos vírus. Só os pais e a bicheza, tiremos as criancinhas deste filme. Tipo experimentação. Tipo Big Brother Viral ou Casa dos Segredos dos Bichos. "Bicheza on top", sugeriram-me a Nélia e o Ricardo. Todos "uns comojoutos". Com provas tipo conta as pintinhas das costas e quem tiver mais ganha. Ou bora lá ver quem tem a papeira mais inchada. Ou quem tiver borbulhas com mais pus. Isto tudo num bunker que se é para ter comportamentos de idade média temos que ter o setting certo. Sem wifi, pois está claro que se os químicos fazem mal às criancinhas, as radiações dos telemóveis também fazem mal às cabecinhas dos adultos. Sem acesso a redes sociais que se isto há  "complô" das farmacêuticas e teorias da conspiração, então os satélites e o Mark Zucka também são conspiradores implacáveis. Back to basics, não é? Tudo a lavar roupinha à manita, tudo a comer com as mãos. Tudo a trocar cromos de vírus como quem troca cromos do LIDL: "já tens uma maláriazinha?", "Ah eu pego-te se me deres um dengue para a troca!".
Ganha o prémio final quem tiver o cérebro mais mirrado.
O prémio?
Uma viagem para o vírus que os pariu.

4 comentários:

м♥ disse...

Já tinha saudades disto!

Excelente post. Nada mais a acrescentar.

beijo de mulata disse...

Obrigada, Polo Norte! Pelo post e pelos sorrisos!

(um) beijo de mulata

Kuski disse...

Já ri à gargalhada! Embora o assunto seja bem sério

Tella disse...

Muito bom.

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