quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tudo o que aprendi- com quem sabe- sobre vacinação

Foto de Bruno Silva.
Photoshop pelo Dr. Centista Prezado


Começar por ler isto (para os pais que vivem num bunker: é um link. Carrega-se em cima com o rato e abre-se numa nova janela. Ler agora, ok?)

Agora, licencinha vá, ler este decreto-lei que não foi alterado até ver (novamente para os pais amish: repitam o procedimento).


As vacinas são obrigatórias?

Existem apenas duas vacinas obrigatórias: a da difteria e a do tétano. Todas as outras são apenas recomendadas pelo PNV, logo, não obrigatórias.
Afinal, diz que não. "Aquelas duas vacinas eram de facto obrigatórias, mas não para toda a gente. Eram apenas para gente que desempenhava determinadas profissões. E parece que já nem para esses, o decreto lei, que era de 1960 e qualquer coisa, consta que foi revogado. Por isso em Portugal há zero vacinas obrigatórias e nenhuma escola, pública ou privada, pode recusar legalmente matrícula com base em boletim de vacinas não actualizado. Infelizmente."- assegura-me a minha amiga Mariana (médica).

Mas- tratando-se de um caso de saúde pública- NÃO É MESMO OBRIGATÓRIO vacinar?

"Não é obrigatório vacinar, da mesma forma que alguém com tuberculose bacilífera (contagiosa pela via aérea) não é obrigado a tratar-se, ainda que seja um perigo para a Saúde Pública. O mesmo para o HIV (com potencial de infectar outras pessoas, por via sexual ou por partilha de agulhas...).
É a questão da liberdade individual. A única situação em que tal é quebrado é quando existe uma situação psiquiátrica, em que o doente não está capaz de decidir, podendo ser então desencadeado um internamento compulsivo (contra a vontade do doente), que tem de ser aprovado em última instância por um juiz. E como a estupidez ainda não é doença..."- aferiu-me a Daniela Marto, médica e ilustre pólete.

Mas quando matriculei os meus filhos pediram-me fotocópia do boletim de vacinas?

As escolas pedem-no para efeitos de verificação se as duas vacinas - que como eu, muitas escolas.- julgam ser as obrigatórias lá constam. No entanto, as escolas não podem excluir para efeitos de matrícula crianças que não tenham sido vacinadas nem esse factor pode constituir motivo de exclusão.

Mas existem pais que só permitem administrar estas duas vacinas aos filhos?

Sim, precisamente, porque julgam que assim  não ficam excluídos do ensino obrigatório. Outros há que não permitindo nenhumas optam pelo ensino doméstico ou contornam a questão com metodologias de ensino alternativas. Há ainda estabelecimentos de ensino que solicitam apenas fotocópias do boletim de vacinas e existem pessoas que não acreditam no poder da ciência mas acreditam no poder do Photoshop. (Googlar: artistas do bunker).

Mas as escolas privadas não podem vetar o acesso de crianças não vacinadas aquando das matrículas?

Não, constituindo discriminação. As escolas privadas podem ter regulamentos internos que estabelecem esta recomendação mas, em última instância, a lei está acima do regulamento da escola.

E os pais das crianças vacinadas têm acesso à informação de que os seus filhos têm na turma crianças não vacinadas?

Tendo em conta questões de confidencialidade e protecção dos dados, estes não podem ser fornecidos aos restantes pais. (Inserir balão de pensamento: podemos proteger os dados dos filhos cujos pais não querem proteger mas não podemos ter informação que proteja os nossos e permita o livre arbítrio de decidirmos se queremos manter os nossos filhos num ambiente desprotegido. Inserir segundo balão: PQP!)

Os tribunais não deveriam poder interceder para que as crianças fossem todas vacinadas tendo em conta o superior interesse destas?

"As crianças não pertencem a ninguém. As crianças são sujeitos de direitos, e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados e zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir. Exemplo: se por convicção religiosa ou outra os pais recusam tratamento médico necessário (seja uma transfusão, seja outro simples tratamento), o Estado, via tribunal de menores, pode determinar seja prestado o tratamento. Caso exista um risco iminente para a vida da criança, os médicos podem tomar a decisão de tratar, antes ainda de expressa determinação do tribunal.".- escreveu a minha amiga Isabel, que percebe de leis.
No entanto, no que diz respeito à vacinação não obrigatória os tribunais (ainda) não têm competência para actuar de forma generalizada.

"Mas as vacinas estão cheia de químicos e yada-yada. "

Tudo o que ingerimos/tocamos/manipulamos está cheio de químicos. O problema está na dose, ok?

"Isto é tudo campanha das farmacêuticas para ganharem mais dinheiro à custa dos pais histéricozinhos, hipocondríacos e incautos!"

"Quando me dizem que "as vacinas são um estratagema das farmacêuticas para ganhar dinheiro", quando ainda tenho paciência e julgo conseguir uma conversa de interesse pedagógico, costumo perguntar se, feitas as contas achamos que a farmacêutica ganha mais com uma vacina que nos vende duas vezes na vida e cujo preço as vezes é menor que o de uma pomada para o rabo do bebé, ou com uma caixa de medicamentos que tratasse os sintomas e que muitas das vezes tem que ser tomado meses sem fim. Mas, na cabeça de quem não compreende ou não quer compreender, eu estou sempre do lado dos maus da fita." - a Ana Pragana,-minha amiga farmacêutica- elucida.

"Mas se os vossos filhos estão vacinados, o que temem vocês?"

Googlar: "Imunidade de grupo".
Mas eu vou tentar resumir: quanto maior o número de pessoas vacinadas, aumenta-se a imunidade na maioria dos vacinados, reduz-se o risco de infecção nos vacinados e reduz-se drasticamente a hipótese de transmissão aos vacinados e aos não vacinados.
A imunidade de grupo é um efeito indirecto da vacinação por protecção dos vacinados e por protecção dos não vacinados por redução da circulação do agente e da transmissão da infecção. garantindo a protecção de toda a comunidade.
Existem crianças que não podem ser vacinadas ou porque são bebés e ainda não atingiram a idade em que é administrada a primeira dose da vacina (12 meses) ou porque tiveram, por exemplo, uma doença oncológica e tratamentos como quimioterapia reduzem a sua imunidade e impossibilitam o seu sistema imunitário de lutar contra as bactérias e vírus ´(mesmo que apenas aatenuados como os que compõem as vacinas) administrados na vacinação.

Que devo fazer se tenho dúvidas sobre vacinação?

Informar-me com médicos, enfermeiros. Ler artigos de fontes credíveis. Não ir na conversa do empirismo dos vizinhos. Não me contentar com a informação que meio nos blogs (inclusive neste) e procurar informar-me no meu Centro de Saúde, junto do pediatra do meu filho, do médico de família.


"Que posso fazer se sou pró-vacinação e tudo isto me faz muita espécie?"

Informar, informar, informar. Debater, explicar, elucidar. Trazer a discussão à luz. Assinar esta petição.

A culpa é da comunidade vegan?

Meus amigos, porque algumas pessoas que não vacinam sejam adeptas da alimentação vegetarina ou vegan, isso não significa que estamos perante um dogma de toda uma comunidade. Atenção às generalizações abusivas, tá?
A maioria das pessoas vegan escolhe um tipo de alimentação com que se identifica, não escolheram ser amish, tá?

"Mas se eu insistir que quero continuar a não vacinar os meus filhos e viver em comunhão com a mãe natureza?"

A mãe natureza explica também a selecção natural das espécies (googlar "Darwin"). As epidemias que dizimaram ciclicamente grande percentagem das populações foram interrompidas pela vacinação mas, pronto, podes dar o corpo às balas e decidires que a natureza é que é sábia e morreres porque sim. Só não metas os teus filhos ao barulho, tá? É que se a mãe natureza fosse assim tão sábia não te tinha dado a oportunidade de te reproduzires a ti e deixar tantas casais sensatos, com bom senso e atentos, a ter que lidar com problemas de fertilidade.
Volta para o bunker, tá?


(Obrigada pelos esclarecimentos à Daniela Marto, Marta Botelho, Raquel Lourenço, Ana Pragana, Mep, Mafalda Chambino, Isabel, Sara Cordeiro e Patrícia Nunes).

3 comentários:

Joao Joaes disse...

Isto hoje em dia escreve-se e fala-se sobre tudo - mesmo que nada se sabia! É bem! Fica bem! Mas informa-se mal!
Gostaria de ver a lei que fala sobre isso das escolas privadas! Pois no decreto lei não vejo nada sobre o assunto.
Desde que o regulamento interno (duma Escola Privada claro!) diga que as vacinas são obrigatórias.....podem sim recusar qualquer aluno que não as tenha. Como diz, e bem, é uma questão de liberdade! Se a pessoa tem a liberdade(ou antes, a infelicidade dos pais não o vacinarem) a escola também tem a liberdade de ter esse regulamento e rejeitar qualquer pessoa para o bem da saúde interna.
Assim, não confundir escolas públicas com privadas!

Por último, os pais que vacinem a crianças para não terem surpresas: ah morreu! Porque? Não tinha vacinas!

Joao Joaes disse...

Onde se baseia para dizer que as escolas privadas não podem rejeitar?
Hoje em dia tudo fala sobre tudo porque é bem e bonito mas dão informações erradas.
Já li o decreto lei que publica e não entendo a sua conclusão!
Desde que haja regulamento interno nesse sentido podem recusar. É uma questão de liberdade (como diz e bem, a nível pessoal de não ser vacinado)para o bem da saúde interna da escola privada.
Não faz qualquer sentido o que afirma! Além de informação errada!
Não confundir escola pública com privada!
Por fim, vacinem as criancinhas para não haver tristes surpresas: ah morreu! falta de vacinas!

beijo de mulata disse...

Tratando-se de um caso de saúde pública pode não ser obrigatório vacinar. Tal como um doente com VIH não é obrigado por lei a utilizar preservativo. Mas depois incorre no crime de propagação de doença contagiosa, atigo 270º do código penal, que transcrevo:

"1 - Quem propagar doença contagiosa, criando um perigo para a vida ou de grave lesão da saúde ou da integridade física de um número indeterminado de pessoas, será punido com prisão de 1 a 5 anos e multa de 100 a 150 dias.
2 - É aplicável ao crime previsto no número anterior o que fica disposto no artigo 267.º A mesma agravação terá lugar quando o agente actuou por baixeza de carácter ou quando causou a epidemia por meio da difusão de gérmens bacteriológicos ou vírus.
3 - Se a conduta descrita no n.º 1 deste artigo for imputável a título de negligência, a pena será a de prisão até 1 ano e multa até 60 dias. Tratando-se, todavia, da infracção, por médico, da obrigação de participar doença contagiosa, a pena será a de prisão de 6 meses a 2 anos."

Ou seja, depois, dependendo das consequências, pode ficar em maus lençóis...

(um) beijo de mulata

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