quarta-feira, 28 de junho de 2017

Carta à auxiliar da sala do Jardim de Infância da minha filha

Querida Ana, (que outro nome poderia ser?)

No fim do ano lectivo, o último em que acompanha a minha Ana queria agradecer-lhe. Sabe, é que muitas vezes as pessoas- os pais incluídos- se esquecem do papel das auxiliares. Eu- às vezes- também mas hoje não. 
Queria agradecer-lhe o papel que teve durante estes anos na vida da minha filha. Não foi um papel auxiliar nem secundário, foi um papel insubstituível e principal. 
Foi a Ana que acolheu. todas as manhãs, a minha Ana na sala. Que lhe deu bons dias risonhos. Colo nos dias em que estava mal disposta. Que a conduziu à reunião de tapete. Que lhe ajeitou ganchos a escorregar no cabelo liso e escorrido. Que lhe fez tranças. Que lhe deu beijinhos nos dói-dóis de cada vez que caiu no parque. Que a corrigiu de cada vez que dizia "já não sou mais tua amiga!" e a ajudou a negociar, a resolver conflitos, a ceder, a dar o braço a torcer, a insistir quando tinha razão, a perceber que não pode ganhar sempre e a saber estar na sala e no grupo de amigos. Que lhe deu a confiança de que tudo pode correr bem mesmo que os pais não estejam por perto e que há adultos cujos trabalho é cuidar e amar. Que a levou e a acordou das sestas, que a acompanhou quando decidiu que já não queria sestas e que a apoiou quando largou a chucha. Que a ajudou a acabar os presentes do dia da mãe, a aprender as orações certinhas, a decorar canções importantes e a ensaiar para os espectáculos de Natal e de fim de ano. Que lhe elogiou a atitude, o comportamento, a roupa, o brinquedo novo, a nova aprendizagem e o crescimento. Que lhe corrigiu a atitude, o comportamento, a falta de paciência e o desinvestimento nas tarefas mais minuciosas e lhe mostrou que mesmo no meio da multidão havia um tempo, um espaço e uma atitude de respeito para cada um dos seus amigos. Para ela também. Que lhe cortou o bife aos pedacinhos e lhe esmagou as batatas para a enganar. Que lhe limpou as lágrimas e lhe deu, todas as vezes sem nunca o negar, o colo que a minha ausência não me permitia dar.
Nem sempre foi fácil mas nunca a vi de má cara e às vezes a minha filha não é fácil de aturar. Oh como a admiro! Ensinou-a pelo exemplo de assertividade e afecto e deu continuidade ao trabalho que tentamos fazer em casa. É tão boa nesse papel, sabe?!
Foi uma excelente companheira de equipa juntamente com a educadora mas- principalmente- connosco. Aceitou o compromisso de fazer da minha Ana uma menina melhor, todos os dias, sem ter expectativas do que era ser melhor, apenas respeitando a direcção, os gostos, interesses e personalidade que ela foi demonstrando. 
A minha Ana é a nossa semente, minha e do pai. Todos os dias a regamos para que cresça saudável e feliz. Mas foram ambas- a Ana também- que todos os dias, na nossa ausência, lhe abriram a janela da infância e lhe mostraram o sol. Porque o vosso amor foi fotossíntese para esta Ana, a minha Ana, agora em flor. 

Obrigada por tudo. Por ser exactamente a pessoa em quem a minha filha procurou o colo que a minha ausência não permitia ser eu a dar. O seu colo não é auxiliar, foi educador e teve um papel principal. 
Um papel que nunca esqueceremos. 

Um beijinho nosso. Um beijinho com sabor a colo de mel. A um colo principal. 

1 comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...