segunda-feira, 12 de junho de 2017

Vamos lá falar de coisas sérias: #AccessibilityAct.


Há uns meses, a minha equipa propôs-se a fazer treino de AVDs (actividades da vida diária) com alguns dos associados da ASBIHP, no sentido de treinar o percurso entre casa e trabalho, tendo em conta que iriam integrar um novo desafio formativo e profissional.
O desafio era fazermos o percurso Oeiras-Expo, simulando um dia normal de trabalho. Demos o devido desconto de tempo, prevendo algumas dificuldades no trajecto e saímos de casa às 08h00 da manhã para chegarmos ao Parque das Nações às 10h. 
Quando saímos de um dos bairros de Oeiras começámos a deparar-nos com as pequenas dificuldades: 


Um degrau de acesso a um passeio rebaixado complementado por pinos que não são mais que empecilhos para quem se desloca de cadeira de rodas.


Passeios inclinados à laia de rampas de skate porque andar de cadeira de rodas pode mesmo ser um desporto radical

Mobiliário urbano muito bem centrado no passeio. Tão bem centrado que uma cadeira de rodas não passa bem nem na traseira nem na frente da paragem de autocarro porque há que ser coerente, né?

O autocarro da Vimeca demorou mas chegou. Correu bem e foi a única infraestrutura que se apresentou realmente inclusiva em toda esta história. O motorista saiu do lugar, tirou a rampa do alçapão e ajudou um dos nossos associados. Infelizmente o espaço disponível só dá para uma cadeira, pelo que, dois colegas de trabalho viajarem em conjunto não é uma realidade.


Rampas com inclinações regulamentadas? Há. Mas não se aplicam porque andar de cadeira de rodas pode ser uma experiência tão fixe quanto escalar o pico do Pico. 



Ou descer numa montanha russa, vá!


A CP tem uma linha inclusiva. Basta a pessoa com mobilidade reduzida avisar- com 24 horas de antecedência- que vai viajar e um empregado coloca uma rampa amovível de acesso às carruagens. Acontece que nós atrasamo-nos tanto no percurso até à estação que perdemos o comboio que tínhamos planeado ir. Tivemos que pedir o favor dos empregados da CP nos ajudarem extra viagem planeada (o processo consumiu-nos 20 minutos). Se uma pessoa com mobilidade reduzida viajar todos os dias da semana, tem que avisar todas as vésperas desses dias, com 24 horas de antecedência que o fará. Todos os dias, repito. Mesmo que sejam viagens regulares. Se a pessoa se atrasar e perder o comboio não tem garantias de que possa ter acesso ao meio de transporte. Faria sentido todas as carruagens terem um sistema de rampas tipo alçapão como têm alguns autocarros? Faria. Mas não. As pessoas com mobilidade reduzida têm que depender de chamadas telefónicas, rampas amovíveis e funcionários da CP para fazerem o percurso casa-trabalho, casa-lazer, casa-o que lhes apetecer. 

Como perdemos o comboio que tinha sido agendado não tínhamos nenhum funcionário da CP para nos ajudar no desembarque. Soubemos mais tarde que deveríamos ter entrado noutra carruagem (só há uma específica em que isso é possível) que daria acesso a uma rampa aqui no Cais Sodré. "Mind the gap" não chegou. O nosso associado tentou descer sozinho e caiu (atrasamo-nos trinta minutos com esta questão).

No Cais Sodré tudo correu bem, à excepção das pessoas de cadeira de rodas não conseguirem ler os monitores das máquinas de comprar bilhetes, do elevador de acesso à plataforma desemboca numa zona de difícil acesso (que não fotografámos porque estávamos com medo de que viesse de lá um metro e tínhamos mesmo que ajudar as pessoas a safar-se), à excepção dos"gaps" das carruagens do metro (que nem fotografámos porque depois do comboio era mais do mesmo) e do facto da carga de nervos que tínhamos em cima por causa da pressão do tempo contado para fechar portas e da rapidez que era necessária para colocar as pessoas dentro das carruagens.

No Marquês de Pombal uma simpática funcionária acompanhou-nos aos elevadores e correu bastante bem. E- finalmente- estavamos a caminho da Expo. O pior? Sair das catacumbas do metro pois o elevador de melhor acesso ao Centro Comercial Vasco da Gama estava avariado. Contornámos a situação e encontrámos um operacional.

Este. É uma belezura. Pena que não exista uma rampa ou um passeio rebaixado em todo o seu perímetro. Coisa mais linda. 

Passeios construídos recentemente. Rebaixá-los? Para quê?

Rebaixar por rebaixar, aproveita-se e coloca-se umas grelhas. Corrida de obstáculos é um desporto tão lindo, não é?

Chegámos ao Parque das Nações ao meio dia e meio. Quatro horas e meia depois de sairmos de casa. Meio dia de trabalho consumido. Talvez eles pudessem ter melhorado os tempos, ter mais energia nos braços, mais desenvoltura a manejar com as cadeiras, mais ritmo. Dissemos-lhe isso para eles sentirem que têm controlo sobre alguma coisa, sobre as próprias vidas, sobre a superação das dificuldades sentidas na pele.

Estiveram sempre bem-disposto (bem, à excepção de quando houve a queda a sair do comboio).

Só quem olha com olhos de ver percebe as dificuldades sentidas por quem tem mobilidade reduzida. Só quem parte uma perna e tem que andar de canadianas, só quem acaba de ser mãe e tem que aprender a conduzir um carrinho de bebé consegue confrontar-se, pela primeira vez, com estas dificuldades.
Mas as pernas partidas saram e os bebés crescem e deixam de andar nos carrinhos e as situações são transitórias para a maioria das pessoas. Para estas pessoas não são. São permanentes. E cansam, E desgastam.

Como queremos que haja igualdade, integração, inclusão se somos nós que não reclamamos nas juntas de freguesia que os passeios precisam de ser rebaixados? Que continuamos a atirar lixo para o chão e vidros que podem furar pneus de cadeiras? Que oferecemos ajuda para o cadeirante sair da carruagem mas não fazemos petições para que a CP adapte as suas carruagens? Que a Carris publicite que gatou milhões a adaptar autocarros com wifi e ar condicionado e depois não tenha em todas as carreiras rampas ou acessos rebaixados? Que não nos indignamos quando se coloca mobiliário urbano a empecilhar passeios e caixas multibanco que impedem todos os cidadãos de chegarem às teclas e levantarem dinheiro?

No regresso estávamos exaustos. Decidimos vir de taxi. Três motoristas recusaram-se a transportar-nos com o pretexto de que havia um colega que tinha uma carrinha adaptada. Argumentámos que as pessoas conseguiam fazer as transferências e que estávamos com pressa. Esperámos os três quartos de hora.




A Acessibilidade é um direito de todos. Por estes dias, será votada, no Parlamento Europeu, a lei que defende a acessibilidade igualitária face a produtos e serviços para todos os cidadãos por igual em todos os estados membros.

Nós sabemos (oh se sabemos!) que não basta fazer leis, há que aplicá-las, inspeccioná-las, avançar com coimas efectivas, levar a sério os direitos de todos os cidadãos.  Levantar dinheiro numa caixa multibanco, comprar um bilhete de comboio, ter acesso a uma cabine telefónica, poder circular em transportes públicos não é possível para milhares e milhares de cidadãos na Europa.

Tomemos consciência. E avancemos com acções. #AccessibilityAct.

4 comentários:

Ana Azevedo disse...

Fiquei chocada. Nunca tinha pensado nesta questão a sério. Os transportes públicos não estarem equipados é inadmissível. Diria mais, revoltante.

Mistura de sabores e saberes disse...

Ai que me deu vontade de chorar, e nem sempre tem uma ursa por perto para ajudar, logo autonomia, independência também lhes é negada... Porra de país de merda... Ainda que lhes fosse pago um subsídio compatível com a sentença de terem que viver enclausurados nas suas casas!!! Manda o link para assinar as petições... Juro que assino todas e os restantes cá em casa também.

Clementina disse...

Fiquei chocada. Parabéns pelo vosso trabalho no sentido de conseguir melhorar a qualidade vida, o dia-a-dia de tantas pessoas.

ME disse...

Queremos mais e mais reportagens destas para ver se a malta se toca!
A questão da mobilidade é um tema que me tira do sério e não vejo, quer no plano político, quer no plano individual, a necessária responsabilização, educação, sensibilidade e respeito pelo próximo!
Recentemente, no parque de estacionamento de uma grande superfície comercial, reparei num casal que estava a arrumar as compras no carro estacionado num lugar reservado para pessoas em cadeira de rodas. Supondo que não conheciam a sinalética (ahã) ou que não teriam reparado (o lugar está pintado a amarelo) alertei que estavam a ocupar um lugar reservado. Resultado: insultos, gritaria e ameaças que deficiente era como eu ia ficar se não me metesse na minha vida! E pronto é isto que temos!!!
Agora o que faço sempre que vejo carros estacionados nesses lugares é verificar se têm dístico e se não têm (e portanto não são legítimos utilizadores desses lugares) aviso a segurança.
Já com os lugares para grávidas e pessoas com bebés é outra odisseia!!!

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