"Talvez seja isto o que significa, de facto, ficar velho. Quando aqueles que são as nossas referências começam a desaparecer, e damos por nós, que sempre insistimos em nos manter modernos e facilmente adaptáveis, a sentirmo-nos como uns velhos do Restelo, cada vez mais sozinhos no mundo.
Isto a propósito das mortes de Belmiro de Azevedo e de Zé Pedro. Figuras tão distantes, mas igualmente tão presentes na minha, e provavelmente, na história de alguns de vocês. (...)
O Zé Pedro. O Zé Pedro foi a minha adolescência. E juventude. E um bocado idade adulta. Esteve em todas as minhas Queima das Fitas enquanto estudante académico. E foi por ele que continuei a ir à Queima das Fitas enquanto adulto, mesmo tendo de pagar o preço de putos bêbados a vomitar-me nos pés.
Mas o Zé Pedro “conheci” em 1988, com 12 anos de idade e acabado de chegar ao ensino secundário. Eu era o menino que nunca tinha tirado um Bom, apenas Muito Bons. Aterrei na Escola Secundária Rainha Santa Isabel, nunca percebi porquê. Uma escola que servia maioritariamente a zona de Campanhã, São Vítor e Fontainhas. Perdi todos os contactos anteriores e dei por mim numa turma com dois miúdos de… 18 anos. O Paulo e o Jonas (que é feito de vocês?). Cedo fui adotado mascote. Não vos contar o que aconteceu às minhas notas a partir daí. Lembro-me das tardes em casa do Paulo, algures em S. Vítor. O pai do Paulo era polícia, lembro-me da foto na sala. E lembro-me dos cigarros esquisitos com cheiro a resina que eles fumavam e nunca me davam. E lembro-me de eles desaparecerem para os quartos com as namoradas e eu ficar sozinho na sala, a fumar SG Ventil e a ouvir o “Circo de Feras”. O Zé Pedro era o rock. Era o punk. Era o farol e o SG Ventil de um puto que se precisava integrar. Eram as letras dos Xutos que serviam as cartas para as namoradas.
E agora? As figuras políticas são o que são, já não há (poupem-me as críticas) Álvaros Cunhais, Ramalhos Eanes (ok, ainda respira), Mários Soares ou Sás Carneiros. Agostinho da Silva já ninguém sabe quem é. Mário Cesariny, idem. Mais um Outono ou dois, e o Miguel Esteves Cardoso também vai com as folhas. O MEC, quem eu no final da década de 80 devorava a “Causa das Coisas”. Eu não sei se todos eles partem cedo. Sei que viveram a vida 10 vezes. No fim, talvez só isso importe.
Claro, mas e agora? Quem fica? Todas estas referências vão sendo substituídas por outras, a quem não conseguimos reconhecer estofo ou talento. Um millenial saído de um websummit, ou um guru da psicologia positiva que por muita atenção e benefício da dúvida que dermos à mensagem, sempre nos soa a produto para atrasados mentais e/ou desequilibrados emocionais. Isto, pela consciência do seu potencial significado, assusta-nos e questiona a nossa atualidade e validade.
Nesta tormenta, vamos ansiosa e desesperadamente buscando as exceções, como pão para a boca, e agradecendo os amigos antigos, que nos aliviam a sensação de estar perdidos num sítio onde não era suposto estar.
E damos por nós com a letra do Manel Cruz, em Pluto, a ecoar-nos na cabeça: «Estranho quando dou por mim num mundo bizarro. E mais ainda quando lá o mais bizarro do mundo sou eu.»"
Do meu amigo Raul Pereira na sua página de facebook retratando tudo o que sinto