quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

#metoo



Não vamos cá de modas:  eu também já estive do outro lado da barricada, defendendo e argumentando que não havia pachorra para a histeriazinha colectiva do politicamente correcto do feminismo.

Depois, deixei de comer gelados com a testa, que é como quem diz provi-me de algum bom senso, pesquisei, fui ler quem percebe da poda, pesquisei artigos sociológicos, assisti a tedTalks, li livros e colunas de opinião, perguntei,  contrapus e rodeei-me de pessoas mais informadas e esclarecidas que eu na matéria, quis conhecer de perto os seus argumentos e motivações e aprendi.

Aprendi que a minha filha não tem que viver numa cultura paternalista em que perguntam ao pai dela (nunca à mãe), assim que anunciámos o seu sexo, ainda na barriga, um "então, já compraste a caçadeira? " como se à Ana estivesse a aguardar um destino de fragilidade e indefesa, de dependência da figura paternal masculina para a defender; em que perpetuam essa ideia quando a "elogiam" com um "ui, com esses olhos e essa carinha vais dar muitas dores de cabeça ao teu pai" como se a beleza fosse uma sentença, como se a beleza fosse um karma de  "ai meus Deus, coitado do teu pai que vai ter que lidar com os impulsos descontrolados e não refreados dos homens que não vão resistir a mandar-te piropos, a tentarem apalpar-te no recreio da escola, a tentarem engatar-te, a mandar-te bocas parvas e piadas sofríveis, que triste sina a tua, a de seres objecto de desejo passivo e indefeso, ainda bem que tens pai, mas coitado, que triste sina a de ser pai de uma rapariga, o trabalho que vai ter contigo...".

Aprendi que a minha filha não tem que levar com os comentários do "esgrima? Mas tu és tão feminina e não praticas um desporto de meninas?";  que não tem que receber diariamente como principal elogio um "és tão bonita, Ana!" invés de "és tão esperta! és tão valente! és tão generosa! és tão corajosa! és tão divertida! és tão rápida a correr""; que "as meninas não se sentam de pernas abertas", que "as meninas não dizem asneiras", que "as meninas não", "as meninas não", repetidamente, "as meninas não" ( e "as meninas não" o caralhinho, tá?); que não tem que ouvir "mulher no volante, perigo constante" quando tirar a carta de condução e achar isso normal; que não tem que mamar com a puta de "a conversa já chegou à cozinha?" sempre que decidir opinar sobre um assunto no meios dos homens, mesmo que a brincar, mesmo que por piada histórica, "mesmo que" (metam estas brincadeiras no olho do cu a fazer caretas!); que não tem que crescer a aceitar que lhe ponham a mão à volta da cintura enquanto lhe abrem a porta tocando-lhe no corpo sem autorização sob o pretexto do cavalheirismo; que não tem que pensar no que deve vestir quando sair à rua sozinha: que não tem que se sentir lisonjeada quando desperta as "atenções masculinas" pelas formas do seu corpo; que não tem que ouvir piropos nojentos e ordinários e calar-se porque "mulher séria não tem ouvidos";  que não tem que ouvir "deve ter subido na horizontal" quando conseguir uma promoção no posto de trabalho; que não tem que ganhar um salário mais baixo que os homens que desempenham a sua categoria profissional só porque nasceu com um pipi; que não deveria ter acesso a cargos de liderança em empresas públicas "por favor" e via cotas ao invés de apenas por competência provada; que não tem que ler nas notícias que uma mulher foi violada porque saiu de mini-saia à noite e embebedou-se e que por isso "estava mesmo a  pedi-las"; que se lhe apetecer viver a sua sexualidade como bem lhe entender não tem que ser chamada de puta;  que não tem que abrir o jornal e todos os dias ler notícias de violência doméstica contra as mulheres; que não tem que se achar com "sorte" porque o homem que escolher para compartilhar a vida a "ajuda" nas tarefas domésticas, como se a agente principal das tarefas domésticas fosse ela por inerência e ele apenas "coadjuvante"; que se se insurgir face a qualquer coisa não tem que ser apelidada de "mal fodida".

Aprendi que a minha filha não tem que viver num Mundo onde "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher", que ela não tem que ficar atrás de ninguém, lado a lado é que se fazem as grandes lutas, muitas vezes sozinha, à frente, em frente, na dianteira; que não tem que ouvir "estás histérica ou quê? estás com o período?" quando estiver irritada/indignada/farta; que não tem que assistir a alguém a dirigir-se ao seu parceiro com um "eh lá, a tua mulher é brava, já estou a ver que é ela quem veste as calças lá em casa"; que não tem que ser refém da cultura do corpo perfeito ou do que quer que seja perfeito; que não tem que adiar a maternidade se quiser ter sucesso profissional ou apenas manter o emprego; que não tem que achar normal aquilo que mulheres ao longo de séculos (eu também) fomos ensinadas a normalizar. 

Aprendi que "mulher séria" tem ouvidos. E mãos. E coração. E cabeça para pensar. E voz. 

Agora é a minha vez de ensinar isto à minha filha. Todos os dias da minha vida.

Até que não seja preciso ninguém defender publicamente o seu direito a ter voz. 

10 comentários:

Gorduchita disse...

Melhor post de sempre! (pronto, exagero meu, mas adorei!)

м♥ disse...

É isto, tão isto! E é por isto que adoro este blog e que cá venho sempre, mesmo que não comente.

Custódia C. disse...

Disseste tudo! São pessoas como tu que fazem a diferença e que nos dão esperança para a mudança de mentalidades!

Mitó Cantante disse...

Bravo!!!! É isto mesmo.

Z disse...

A minha filha tem o meu apelido em último. Eu e o pai dela decidimos que seria assim. Adorava que essa cultura machista de apelido do macho lá de casa em último só porque sim acabasse. Já ouvi tanta coisa ridícula por ela ter o meu apelido em último. Coisas como: o seu apelido?? Mas porquê? Ah isso não tem jeito nenhum tem de ser o do pai. Ou então quando ele a foi registar: O quê? Vai ficar o da mãe em último?? Ou melhor ainda: O quê?? O seu marido deixou que ela ficasse com o seu apelido? Está cheia de sorte. De resposta de amigas minhas também levo muitas vezes: Alguma vez o meu marido/namorado admitia isso. Ela também não tem de lidar com isto! Já chega desta sociedade machista em tudo.

Filipe disse...

Totalmente de acordo contigo! Tudo isto são situações culturais que demoram gerações a diluir! Compete a cada um de nós... a todos, fazer e zelar pela tão afamada "igualdade". Homens, Mulheres, mães e pais... somos muitas vezes vitimas de nós próprios... Instintivamente temos reações que, racionalmente não fazem sentido! São essas atitudes que mostram o quão formatados/estigmatizados estão os nossos cérebros… são gerações de gerações de formatação que nos foram caindo em cima! Mas a mudança é possível… e acredito que esta nova geração (pelo menos parte dela) de pais irá contribuir para mudar muita coisa. Pouco a pouco as coisas vão mudando…mas é algo que vai demorar muito tempo. Mas há que começar… e começamos bem… começamos pela letra A… a de Ana!

Marta disse...

Bravo, bravo, bravo!!! Infinitas vezes, bravo!

3A disse...

Porra, é mesmo isto! Para mim sempre foi isto, mais ainda agora que vou ser mãe duma menina. Hear, hear!!

ines pessoa disse...

Texto muito bem escrito! Clap clap

rosa disse...

Encontrei-te aqui no meio sei lá do quê (não, desta vez não foi no meio das escadas rolantes...) e adorei! Tinha saudades tuas e nem sabia. Li vários posts seguidos em puro entusiasmo e parei neste. Fosgassse, é que é tanto isto. E sabes que mais? A tristeza de termos de sorrir e fingir que não entendemos a mãozinha na cintura. E a maior parte dos homens que conheço em posições de chefia, não valem um caralho, nem o que têm entre as pernas. Obrigada por nos relembrares quem somos e porque não devemos baixar a guarda. Por nós e pelas nossas filhas.

Beijo e abraço grande!
(a ver se desta vez não te perco)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...