Foi em Novembro e Vitor Espadinha podia começar a fazer-me sangrar dos ouvidinhoscom a sua voz boa para escrever à máquina que nada teria sido mais penoso que aquilo que vos venho contar.
Um dia (uma segunda-feira, quarailho, imagine-se, eu que não consigo começar uma dieta que nunca acerto numa puta de uma segunda-feira mas nisto foi tudo certinho...) tinha combinado com a minha colega enfermeira ir visitar um utente internado num hospital e acordei tipo Corcunda de Notre Dame. Relembremos... colega enfermeira + corcunda de Notre Dame e num instante estava a levar uma bela injecção de relmus+ voltaren para poder ir ganhar o pão nosso de cada dia.
Nessa semana tinha marcada viagem à Suécia, uma viagem de trabalho que paguei do meu próprio bolso e que era imperativo ir e pensei que entre transacts e voltarens em comprimidos a coisa compunha-se [inserir pedido de patrocínio às farmacêuticas que, parecendo que não, isto ainda é um blog de primeira liga].
Eu e mámen viajamos regularmente em trabalho juntos e aproveitamos para namorar. Ele - filho da mãe dele lalalalalalala- instruí-me para não falar desta viagem a ninguém porque mau olhado e invejas e mete um alho na carteira mas esqueçam lá isso que andei sempre de matraca fechada e fiquei com um mau costado e não havia cabeças de dentes de alho que me valessem.
A temperatura na Suécia estava "fresquinha" [surpreendente, han?!] mas tudo ok. Passava grande parte dos dias em salas de formação de hotéis climatizadas a ouvir palestras, apresentações de artigos científicos e partilhas de boas práticas e à noite- que na Suécia se refere ao horário após as 15h- andámos sem pressa pelas ruas de Estocolmo a turistar, a beber vinho quente e eu cada vez pior.
Ficámos hospedados no Scandic num quarto brutal cuja janela dava para um mega átrio interior, pelo que, as dores nas costas aliadas à sensação de "já-dei-para-esse-peditório-de-exibicionismo" tiraram todas as hipóteses de "romantismo" que a viagem prometia. Para além de que, convenhamos, o cheirinho a mentol do transact tem tudo menos potencial afrodisíaco e a principal recordação olfactiva de que tenho das ruas de Estocolmo é o meu próprio cheirinho a... rebuçados do Dr. Bayard.
Acabado o congresso e depois de experiências gastronómicas que variaram entre o alce e veado ("Baaaaaammmmmbbbbiiii, perdoa-me!") e entre o salmão e as almôndegas do IKEA everywhere, vinho quente que agora à distância eram capazes de não ser compatíveis com os comprimidinhos de Voltaren, o colchão desconfortável do quarto com janela tipo montra à laia de Red Light District, demasiado tempo sentada a ouvir palestras e apresentações, uma visita espirituosa e pertinente ao Ice Bar que já se sabe encostar o costado a paredes de gelo era capaz de ser uma ideia espectacular e ainda todo aquele calor estranho ali do Norte da Europa e eu praticamente estava no estado do Dr. Bruno de Carvalho naquela imagem em que ele se levanta do banco de suplentes a ganir.
Mas restava-nos ali ainda um tempinho maravilhoso para conhecer a cidade e digo-vos do coração, nunca mais quero outra coisa, qual calcorrear a cidade como fizemos em Budapeste qual quê...avé hop on, hop off! Até Abba ouvi nos phones do autocarro quentinho que me mostrou toda a cidade através de um vidro, como se tivesse a visitar a cidade através de uma simulador gigante em Alcabideche ou de um documentário daqueles dos canais de TV cabo de viagens com a diferença de que ... sorte macaca: o dinheiro que eu tinha empatado nesta viagem! Mais um pouco e visitava Estocolmo pelo Street View do Google Maps: não há direito!
Ah, mas isto há-de melhorar, eu sempre optimista. As dores a começarem a apertar, o cheirinho a rebuçado para a tosse, Estocolmo no coração, adeus, boa-noite. Estamos quase no Natal e allI want for Christmas é ser a gaja do Corcunda de Notre Dame, a cigana que dançava e curtia milhões e não o próprio do protagonista.
Por descargo de consciência botei o alho na carteira, liguei à minha sogra (she knows people) e apertei o cinto. O inter-rail hospitalardos úlltimos cinco meses estava a começar a descolar.
CONTINUA...
[*Eu sei que foi em Setembro, não me chateiem que para efeitos de veracidade do post fica Novembro,ok?!]






















