quarta-feira, 28 de março de 2018

Inter-rail hospitalar- Foi em Novembro* que te conheci


Foi em Novembro e Vitor Espadinha podia começar a fazer-me sangrar dos ouvidinhoscom a sua voz boa para escrever à máquina que nada teria sido mais penoso que aquilo que vos venho contar.

Um dia (uma segunda-feira, quarailho, imagine-se, eu que não consigo começar uma dieta que nunca acerto numa puta de uma segunda-feira  mas nisto foi tudo certinho...) tinha combinado com a minha colega enfermeira ir visitar um utente internado num hospital e acordei tipo Corcunda de Notre Dame. Relembremos... colega enfermeira + corcunda de Notre Dame e num instante estava a levar uma bela injecção de relmus+ voltaren para poder ir ganhar o pão nosso de cada dia. 

Nessa semana tinha marcada viagem à Suécia, uma viagem de trabalho que paguei do meu próprio bolso e que era imperativo ir e pensei que entre transacts e voltarens em comprimidos a coisa compunha-se [inserir pedido de patrocínio às farmacêuticas que, parecendo que não, isto ainda é um blog de primeira liga].

Eu e mámen viajamos regularmente em trabalho juntos e aproveitamos para namorar. Ele - filho da mãe dele lalalalalalala- instruí-me para não falar desta viagem a ninguém porque mau olhado e invejas e mete um alho na carteira mas esqueçam lá isso que andei sempre de matraca fechada e fiquei com um mau costado e não havia cabeças de dentes de alho que me valessem. 



A temperatura na Suécia estava "fresquinha" [surpreendente, han?!] mas tudo ok. Passava grande parte dos dias em salas de formação de hotéis climatizadas a ouvir palestras, apresentações de artigos científicos e partilhas de boas práticas e à noite- que na Suécia se refere ao horário após as 15h- andámos sem pressa pelas ruas de Estocolmo a turistar, a beber vinho quente e eu cada vez pior. 

Ficámos hospedados no Scandic num quarto brutal cuja janela dava para um mega átrio interior, pelo que, as dores nas costas aliadas à sensação de "já-dei-para-esse-peditório-de-exibicionismo" tiraram todas as hipóteses de "romantismo" que a viagem prometia. Para além de que, convenhamos, o cheirinho a mentol do transact tem tudo menos potencial afrodisíaco e a principal recordação olfactiva de que tenho das ruas de Estocolmo é o meu próprio cheirinho a... rebuçados do Dr. Bayard. 

Acabado o congresso e depois de experiências gastronómicas que variaram entre o alce e veado ("Baaaaaammmmmbbbbiiii, perdoa-me!") e entre o salmão e as almôndegas do IKEA everywhere, vinho quente que agora à distância eram capazes de não ser compatíveis com os comprimidinhos de Voltaren, o colchão desconfortável do quarto com janela tipo montra à laia de Red Light District, demasiado tempo sentada a ouvir palestras e apresentações, uma visita espirituosa e pertinente ao Ice Bar que já se sabe encostar o costado a paredes de gelo era capaz de ser uma ideia espectacular e ainda todo aquele calor estranho ali do Norte da Europa e eu praticamente estava no estado do Dr. Bruno de Carvalho naquela imagem em que ele se levanta do banco de suplentes a ganir. 

Mas restava-nos ali ainda um tempinho maravilhoso para conhecer a cidade e digo-vos do coração, nunca mais quero outra coisa, qual calcorrear a cidade como fizemos em Budapeste qual quê...avé hop on, hop off! Até Abba ouvi nos phones do autocarro quentinho que me mostrou toda a cidade através de um vidro, como se tivesse a visitar a cidade através de uma simulador gigante em Alcabideche ou de um documentário daqueles dos canais de TV cabo de viagens com a diferença de que ...  sorte macaca: o dinheiro que eu tinha empatado nesta viagem! Mais um pouco e visitava Estocolmo pelo Street View do Google Maps: não há direito!

Ah, mas isto há-de melhorar, eu sempre optimista. As dores a começarem a apertar, o cheirinho a rebuçado para a tosse, Estocolmo no coração, adeus, boa-noite. Estamos quase no Natal e allI want for Christmas é ser a gaja do Corcunda de Notre Dame, a cigana que dançava e curtia milhões e não o próprio do protagonista. 

Por descargo de consciência botei o alho na carteira, liguei à minha sogra (she knows people) e apertei o cinto. O inter-rail hospitalardos úlltimos cinco meses estava a começar a descolar. 


CONTINUA...

 [*Eu sei que foi em Setembro, não me chateiem que para efeitos de veracidade do post fica Novembro,ok?!]

segunda-feira, 19 de março de 2018

Tive medo de lhe perguntar se, por acaso, brincou de super-heroína no recreio da escola...




Chega a casa com a saia plissada e diz-me: "Hoje descobri que a minha saia è mágica!"

"Ah, sim? Como?"

E desaperta os botões da saia, fica em cuecas, aperta o cós da saia à volta do pescoço, aperta os botões, a saia vira "capa de super herói" e começa a "voar" pela casa.

Sem saia, de cuecas,  mas alegremente de capa.


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domingo, 18 de março de 2018

Comment ça va?




A minha filha era subdotada. Parecia uma osga e limitava-se a existir. Não berrava. Não fazia fitas. Uma sonsa. Sempre boa para comer. Sempre boa para dormir. Juro que é verdade. Claro que a subdotação estendeu-se a outras coisas: teve o primeiro dente aos 18 meses quando já andava a ver na Amazon se havia dentaduras postiças para bebés. E andou na altura certa. E falou na altura certa. Nunca deu chatices. Nem varicela teve, foi a única da sala da creche que não apanhou a doença da mão-bocas-pés e- escusado será dizer- é incrivelmente bonita, sempre foi, se a adolescência não lhe der cabo do nariz e a (minha) genética do peso, temos sucessora para a Sara Sampaio e eu posso tornar-me numa  espécie de Dona Dolores das passarinheles.
E tem 5 anos e ainda não sabe ler porque eu não lhe ensino. E é esperta que se farta. E feliz. E... parvalhona.
Aos 5 anos já não é subdotada, só um bocadinho pré-adolescente, do tipo das que gosta de piadas escatológicas, de dizer "a minha professora é que sabe!" e às vezes quando se passa vai para o quarto e fecha a porta com força. Eu abro os olhos, digo "vou contar até 3", reitero "não penses que estas a falar com a tua amiga Leonor" e, de repente, sou a minha mãe.
Ando sempre cansada do dia-a-dia: pequeno-almoço, "veste isto, não vestes isso, vestes o que eu estou a dizer e a-ca-bou", "nada de queixinhas" e depois à noite apanhá-la na avó, "tens que comer a sopa, não vale a pena fingires que estás a vomitar que comigo não pega", banho, verificar unhas, cortar, passar óleo no corpo, pijama, pentear o cabelo, secar o cabelo, vai para a cama, "não podes ficar mais connosco na sala, mas não quero saber nada disso nós somos adultos, vai já antes que me passe dos carretos, estou a ficar po-sse-ssa", a meio da noite aparece-me zombie e deita-se no meio de nós, muito fofo, espreguiça-se toda, destapa-se toda, ando com as costas afanadas, ah é dos terrores nocturnos, que se fodam copulem os terrores diriam as minhas costas se tivessem boca, e no outro dia piolhos, depois virose, quero dar-lhe uma vacina e ainda não a apanhei no intervalo saudável entre bichezas, mais a mensalidade da escola e agora o inglês e o pediatra e a vacina que tenho que comprar e não é comparticipada- já falei no IMI?-  e a roupa que lhe comprei há 3 meses e está toda encolhida e estou bué cansada- já falei das minhas costas? E dos glúteos?- e continuo cheia de materno-culpa de ter que trabalhar para a sustentar e não ter tempo para a ver crescer à velocidade de calças a ficarem boas para a apanha do mexilhão, mais o Trump e as armas químicas e a pegada ecológica, tudo me consome e que mundo lhe vou deixar, e se eu morrer, e, e e culpa, já falei da culpa?
Foi uma belíssima queca cópula- há que dizê-lo com frontalidade- mas tem dias em que penso que até era Dezembro e podia ter-me demorado um bocadinho mais nas compras de Natal a bem da minha sanidade mental.
Sou mãe. Ando cansada. E cheia de dores nas costas.
De resto tudo maravilhoso.Obrigada. 

sexta-feira, 9 de março de 2018

É desta que se vão todas as oportunidades deste blog fazer parcerias em troco de uma remessa de gelado de noz

Querido LIDL:

Não penses que é embirração. No teu caso não é. Antes pelo contrário: é com lágrimas de iogurte skyr que te dirijo este post. Sou cliente, quase diária, na vossa loja de Alcoitão. 

Sou mais que cliente, sou fã. Coleccionei peluches de fruta e miniaturas de produtos de supermercado de plástico, para perceberes o nível de fã que sou. Bati fundo a fazer trocas de mini-detergentes e de réplicas de pastéis de nata, para a miúda, em grupos de mães do facebook. 

Mámen não resiste aos teus queijos, ao chocolate com frutos secos, aos iogurtes e ao brilharete que faz quando compra os profiteroles congelados e os apresenta como criação própria nas sobremesas dos jantares com os nossos amigos. 

A Ana é basicamente fã de tudo o que meta massa: a tua lasanha e a massa fresca e não diz que não ao pão quentinho. 

Já eu... bem, eu sou mais gelados de noz. Ok, confesso se me dessem uma tenda e uma semana para viver no vosso corredor do meio e testar todos os gadgets, especialmente os culinários, não dizia que não. Desde que com gelado de noz como principal mantimento. 

Conheço mais ou menos e aplaudo a vossa política de responsabilidade social e a associação onde trabalho já beneficiou do vosso apoio ao abrigo do movimento "Mais para Todos". Cheguei a dar formação a duas equipas vossas. Uma querida leitora deste blog, que foi voluntária num projecto de solidariedade social gerido por mim, trabalha aí e só diz maravilhas (beijinhos, Bárbara!). 

Talvez seja por isto que não compreendo a estratégia do vosso departamento de marketing (se calhar com um cheirinho dos recursos humanos) relativas ao dia de ontem. Talvez seja por esse reconhecimento que tive que ir comentar na vossa página de facebook, mostrando o meu descontentamento e indignação. 




Epá, vocês não, LIDL! 

Não vocês que anunciaram há tempos que iriam aumentar o salário de todos os vossos colaboradores sem que para isso tenham sido obrigados pelo Estado. Não vocês que, pronto, gelado de noz. 

Basicamente, o que eu queria dizer é que as vossas colaboradoras não querem ser mostradas ao Mundo como as Lenkas do Preço Certo aí do sítio ou as raparigas da fórmula1 e da volta a Portugal em bicicleta aí do burgo: as vossas colaboradoras não são naperons nem elementos decorativos. As vossas colaboradoras não valorizam flores (ou talvez valorizem todos os dias, como gentiliza, não como prémios de consolação no Dia da Mulher). Entendem? 

A resposta veio um dia depois e veio mal. Diz a pessoa que gere as tuas redes sociais, qualquer coisa como: 

"Bom dia Liliana ;) somos a favor da igualdade e trabalhamos todos os dias para a garantir. A mensagem que trasmitimos às nossas colaboradoras foi a da imagem. Na nossa publicação queriamos destacar não só as nossas colaboradoras mas também desejar um feliz dia da mulher às nossas clientes, que efetivamente tornam as nossas lojas mais bonitas pela sua beleza e força. " 

Portanto, está certo, LIDL: talvez eu tivesse que ter escrito em alemão para me fazer entender. 

As mulheres que aí trabalham não têm que ser reduzidas a uma função de imagem, a um papel visual, decorativo. Utilizariam este mesmo argumento se se referissem aos vossos colaboradores masculinos? 

Que tal destacarem a polivalência, a flexibilidade, o rigor, a coragem, a valentia, a resiliência, a capacidade de trabalho, a capacidade de equilíbrio entre vida familiar e profissional e,vá lá, o desempenho efectivo das vossas colaboradoras no exercício das suas funções? 

Que tal apresentarem indicadores e dados concretos que evidenciem aquilo que começam por esclarecer no início da vossa resposta: as políticas internas que adoptam a favor da igualdade de género para a qual trabalham todos os dias? Que tal comunicarem o que fazem, todo o ano, a favor da equidade e da igualdade de género na gestão dos vossos recursos humanos e no desenvolvimento do vosso capital humano? Que tal uma campanha para comunicar isto num dia que serve para sensibilizar a comunidade civil para a equidade entre géneros ao invés de oferecerem rosas às "vossas senhoras"? 

É isto, LIDL, é isto que sinto que deverias ter comunicado e não a beleza que as vossas colaboradoras trazem para as lojas, como jarras em cima do meu aparador da sala ou um espelho com uma moldura bonita no meu quarto. É que isto é o mundo do trabalho, não é um concurso de misses e paz no Mundo e gelado de noz às marcas de boa vontade. 

No próximo ano guarda as rosas, LIDLE E comunica tudo o que dizes que fazes (e eu, genuinamente, acredito) no sentido da justiça social entre géneros. Pensa lá bem. Pensa lá melhor. Eu acredito que consegues fazer certo. 

Sempre tua, 

Pólo Norte 


P.S- Segue, novamente, o desenho. O meu alemão é, realmente, uma nódoa.



quinta-feira, 8 de março de 2018

Para fechar o Dia da Mulher... o pragmatismo alentejano


Ainda sobre equidade e vindo da Suécia

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"Swedish dads".
Créditos fotográficos: Johan Bävman.

Do Luxemburgo a minha melhor amiga diz de sua justiça


Ainda sobre o dia das mulheres: a reflexão vinda de Espanha

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Levantava-me e não havia Ana. Não havendo Ana, não daria pela falta da educadora e da auxiliar, peões essenciais no meu dia-a-dia.
A padaria fecharia por não ter nem um empregado homem. No café a Fátima não me serviria a bica em chávena escaldada. Ninguém me venderia o jornal da manhã porque a Luzia já não estaria na papelaria. Na farmácia a Isabel não saberia exactamente o meu avio mensal.
Na gasolineira do Jumbo não poderia passar as cancelas para fazer o pagamento, nem ninguém me receberia o valor das portagens na A5.
Haveria menos trânsito. E à minha volta um cenário muito mais homogéneo de homens a tirarem cocotas do nariz enquanto conduzem.
Trabalharia sozinha com o Filipe. Não haveria enfermeira, nem assistente social, nem terapeuta ocupacional nem a Susana, a pessoa que nos organiza o trabalho. Mais de metade das pessoas para quem trabalho desapareceria e isso seria a maior seca da minha vida.
Não haveria telefonemas da minha mãe, nem a minha mãe- caraças!- e como o meu pai zarpou, seria orfã. Não haveria a minha tia nem a minha prima que são só as pessoas mais importantes da minha família alargada.
No café do bairro a Dona Alda não me faria as melhores sandes de presunto cortado a canivete a 1,80€ nem ninguém para me fazer brushings à pressa no mítico salão "A princesa do Condado".
Não existiria a minha amiga Catarina (nem a Lara) nem a Xana (logo, nem a Catarininha e a Mariana), nem a Rosa nem a Cláudia, redes de suporte emocional do meu coração. A minha amiga-advogada MEP não me safaria de mil cambalachos e a ausência da minha amiga-TOC Vanda já me faria ter sido presa pelas Finanças há que séculos.
A minha amiga Ana Margarida não existiria nem a Laura e embora goste muito do Paulo, a minha vida seria muito mais secante. As histórias da Ana Luisa não existiriam para me entusiasmarem, a Ana de São João não me aguentaria em tardes de sangria à desgarrada e o que faria eu sem a Paula, a Marta Guerra e a Nonô?
Não seria a mesma pessoa sem conhecer a Eileen, minha alma gémea, soul sister que me abre, todos os dias, novas perspectivas para o Mundo.
Não teria lido todos os livros da Alice Vieira na infância, nem os da Isabel Allende na adolescência, nunca me teria emocionado perante quadros da Paula Rego e não teria como hino de vida o "Gracias a la Vida" da Violeta Parra.
Não ouviria Jacinta no youtube, não poderia ser fã da Merryl Streep e da Rita Blanco e o "This is Us" sem a Rebecca e a Kate não teria a menor graça. Não leria blogs, absolutamente, nenhuns.
Sem as minhas mulheres o meu, definitivamente, que sim. Sendo eu uma delas, nem haveria mundo para mim.
Gracias, El Pais.
[Ok, não haveria a minha sogra mas não havendo a minha sogra a minha vida seria muito mais sensaborona. E, não digam a ninguém, mas eu até gosto dela...]

Da Noruega: quando as crianças vêem mais longe que os adultos

"Quero ser claro: isto não é um favor às mulheres. A igualdade de género é uma questão de direitos humanos"*


Num dia em que se assinala o Dia da Mulher, ligo de manhã o rádio do carro a caminho de uma reunião e oiço que a Rádio Comercial convidou homens cantores para interpretar canções habitualmente interpretadas por mulheres. 

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher tentaram oferecer-me flores à saída do comboio, no Colombo, no stand de automóveis a que fui à hora de almoço (e onde o vendedor sugeriu que comprasse um carro mais "feminino" porque, enfim, pelos vistos os carros também têm género e tumbas, não te vou comprarcarro só por causa das tosses) e ainda são só duas da tarde.

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher um amigo manda-me uma mensagem de "parabéns" (wtf? parabéns por ter dois cromossomas x?), a Companhia dos Perfumes manda-me uma sms a oferecer-me desconto na compra de uma água de colónia e no meu facebook vejo movimentações de mulheres a combinarem jantares temáticos em que "menino não entra":

Sou só eu que acho que seria muito melhor para a sensibilização das questões do empoderamento feminino que a Rádio Comercial pedisse a mulheres que mostrassem que sabem interpretar igualmente músicas tradicionalmente cantadas por intérpretes masculinos?

Sou só eu que estou uma beca farta que desvirtuem o dia homenageando as mulheres, apelidando-as de "especiais", "maravilhosas", dignas de receberem flores e descontos e saldos (ah, as mulheres e os saldos: viva o cliché!), pedindo a homens que empatizem, a marcas que sejam simpáticas, a um tratamento diferencial com discriminação positiva uma vez por ano?

Eu não quero ouvir homens cantarem músicas de mulheres (na verdade, nem quero ouvir mulheres cantarem músicas de homens) porque a música não deve ter género, a música é universal, é para todas as vozes, não tem pipi nem pilinha e, Rádio Comercial, a sério, homenagens faz a FunAlcoitão, façam-nos é rir com New Yorks New Yorks da Bobadela, tá?

Eu não quero mensagens de parabéns no dia de hoje, quero discursos e relações de respeito e igualdade todos os dias.

Eu não quero descontos na Sephora, nem de depilação para ficar sexy para "o meu homem", nem "jantares só de meninas" no dia de hoje.

Quero que todos os dias o meu salário seja igual ao de um homem que desempenhe a mesma função, a mesma categoria e que possa ter um poder de compra igual ao dele sempre, todos os dias do meu ano para comprar sem descontos que têm como critério a posse de um pipi. Quero que a sociedade não me pressione a depilar-me para quem quer que seja, nem para mim mesma quanto mais "para o meu homem". Quero que não seja expectável que eu adapte o meu corpo, a minha roupa, os meus modos, a minha postura e o meu dia-a-dia aos padrões que se atribuem como tradicionalmente femininos. Quero jantar com as minhas amigas só mulheres quando me der na real gana, ou jantar como os amigos só homens sem ser olhada de ladex, ou jantar com casais ou com quem me apetecer sem que isso seja assunto.

Quero que não me perguntem porque não gosto de me maquilhar, que não me olhem de lado quando não uso saltos altos quando vou a festas, que não achem que podem dar palpites sobre o meu peso, que não achem que o meu corpo é assunto.

Quero que "feminista" não seja uma ofensa, que "feminista" não seja a nova "bruxa" para se caçar.

Quero que não digam à minha filha que "esgrima" não é um desporto para meninas (ela adora: ide-vos foder!), que não me critiquem por ser uma mãe demasiado flexível que não obriga a miúda a dar beijinhos aos crescidos porque educar é obrigar a que ela corresponda ao que a sociedade espera dela, do corpo dela e do espaço pessoal dela, quero que não lhe estejam sempre a dizer como ela é bonita em vez de lhe elogiarem a personalidade firme, a valentia e a capacidade de concentração, que não digam ao pai dela que "daqui a uns anos tens que andar de caçadeira" como se ela fosse objecto deste sistema patriarcal e que não se riam quando ela diz,convicta, que quando for grande quer ser cientista ou empregada de limpezas.

Quero que os brinquedos, os livros, as roupas, as brincadeiras, os desportos, as profissões, não sejam categorizados como "de menino e de menina".

Quero que, daqui a uns anos, ninguém se atreva a oferecer-lhe geribérias ranhosas por ela ter nascido menina. Quero que não lhe prestem- na verdade, nem a a ela nem a mim- dizia eu, quero que não nos prestem homenagens: queremos igualdade de oportunidades, igualdade de tratamento, igualdade.
Eu não quero que me comprem flores hoje. Quero que me deem respeito.

Todos os dias da minha vida.

[* Título da crónica de António Guterres: aqui].

Adivinha: "Qual a relação entre os impostos que pagamos e o Dia da Mulher?"

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Resposta: Não deveriam servir para financiar eventos destes.

Já o Canadá dá-nos uma lição de marketing sobre o dia da mulher mas em inteligente



Uma revista com dois preços diferentes de capa: um para homens, outro para mulheres. A diferença de preços reflecte os 26% de disparidade salarial que continua a verificar-se, tendo como único critério de base a diferença de género. O conteúdo da revista é exactamente o mesmo: tal como o mesmo trabalho desempenhado quer por homens ou mulheres. 

Bravo!

quarta-feira, 7 de março de 2018

LinkedOut? Eu explico

A luta contra as desigualdades será sempre a minha luta. 

Cerca de 10% da população, isto é, cerca de 650 milhões de pessoas, vivem com uma deficiência, constituindo a maior minoria do mundo. Na maioria dos países da OCDE a incidência da deficiência é mais elevada entre as mulheres do que entre os homens, constituindo uma dupla vulnerabilidade desta população, logo, alvo de múltipla discriminação.
Cerca de 386 milhões de pessoas em idade activa são deficientes, segundo a OIT, sendo que, o desemprego atinge, em média, 80% desta população, devido à crença dos empregadores de que uma deficiência implica uma incapacidade para o trabalho. Por esta razão, as pessoas com deficiência continuam a estar sub-representadas no mercado de trabalho.

A falta de recursos económicos é um dos problemas que mais afecta esta população, sendo que o ciclo de pobreza dificilmente é interrompido, devido à grande inexistência de rendimentos de trabalho, da dependência de subsídios estatais e da solidariedade das suas famílias. Aempregabilidade é o pilar base deste problema.

Trabalhei mais de 10 anos em gestão de recursos humanos, a maioria dos quais a gerir departamentos de grandes empresas e multinacionais. 

Quando regressei às origens e vim psicologizar para a ASBIHP tinha a certeza de que, um dia, este know how acumulado em desenvolvimento de pessoas e em gestão de carreiras iria servir para alguma coisa positiva no âmbito da associação. 


A ideia tem mais ou menos um ano. 

Surgiu de um brainstorming entre mim e a minha amiga Joana num almoço regado a sangria numa esplanada virada para o mar. Da ideia à concepção passou muito tempo: o preciso para fazermos o levantamento de pessoas que se enquadrassem, tirarmos os retratos, firmarmos protocolos, batermos à porta de empresas, conseguirmos financiamento para a construção do site e construirmo-lo, fazer o mapeamento de competências, de interesses e de motivações, carregar informação. 

O Linkedout é a primeira plataforma online que funciona como portfolio digital de candidatos com deficiência mas em que a abordagem está centrada na competência técnica e nos skills das pessoas enquanto pessoas e não na deficiência e na sempre associada "disability" que não retira um grama de mérito e de direito à igualdade de oportunidades no acesso ao emprego como um direito e,simultaneamente, um dever mas, sobretudo, enquanto uma forma de vivenciar uma cidadania plena. 

LinkedOut porque o que une o conjunto de participantes nesta plataforma é o facto de, à partida, o acesso a estarem LinkedIn estar condicionado pelo facto de terem uma deficiência. Foi por isso que os fotografámos sem cadeiras de rodas, canadianas, talas ou ajudas técnicas: não porque as queiramos esconder mas porque queremos que as pessoas sejam vistas como mais do que as suas deficiências. Como cidadãos plenos de direitos e deveres que são. 
Linkedout aqui: https://linkedout.pt/

[Se quiserem saber mais, participarem das mais diferentes formas, seja como candidatos, empresas a recrutar, voluntários de competências ou mecenas just call my name!]

[Um special thanks à Joana Freitas que esteve na concepção deste projecto e à Ana De São João que acompanhou toda gestação e parto.

À Mónica Lice que deu um twist fashion ao projecto: o sempre comovido obrigada.

À Patrícia Freixo do BNP Paribas e ao Miguel Ferreira da Fujitsu que chegaram até mim por serem leitores deste blog, o agradecimento quadripolar: sem sentir que vocês acreditam e sem o vosso incentivo nada disto teria sido possível: fico a dever-vos mil! ]


terça-feira, 6 de março de 2018

Quem diz a verdade, não merece castigo

Estação de serviço de Palmela, 07h50m da matina. 

Uma senhora de uns 50 e tal anos a pagar combustível olha para mim enquanto tiro café da máquina de vending.
Aproxima-se e pergunta-me: "A menina tem um blog, não tem?"

Sorrio (encaralhada encabulada como sempre) e digo que sim. 

"Ah, conheci logo. Olhe, não gosto nada!"


Silogismos aos 5 anos e 6 meses

No carro, vindos de apanhar a miúda da escola, comento com ele: "Olha: sabes que morreu a Tônia Carrera?"



Ele: "Oh, também já era uma carcaça, pá: velhinha, velhinha..."



Uma vozinha lá atrás: "Morreu a mãe do Toni Carreira, foi?"



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