A mudança sentia-a cá dentro,a instalar-se devagarinho e silenciosa como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos. Sempre fui crítica, sarcástica (no sentido verdadeiro da coisa e não no eufemismo hipócrita de quem é verdadeiramente mau e maldoso de génese e se quer esconder sob o manto do sarcasmo [mygas, isso não pega, nem que vocês fossem o Harry Potter sob o manto da Invisibilidade, tá?) ]) e irónica, sem medo de dizer o que sinto mesmo que o que sentisse pudesse ferir susceptibilidades, abrir feridas, magoar. A verdade: a minha fidelidade, lealdade e obediência cega à verdade acima de tudo. Tão mas tão errada que estava.
O momento de clivagem foi a minha maternidade. é um cliché- aguentem, também tenho a minha quota para gastar e vou usá-la até ao fim!- e perceber, há quase seis anos a que agora não era apenas eu: era a Ana, eu na Ana, o meu exemplo para a Ana, o reflexo de mim na Ana. Não mudei logo, tipo sacaram-me a miúda do bucho, coseram-me aqui a barriga com o mesmo jeito com que coso os botões da bata da escola dela, e desceu em mim a nossa senhora da sabedoria maternal, da sensibilidade absoluta e da consciência universal. Não, já disse. Veio devagarinho como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos e foi a Ana que me ensinou.
Não tenho a certeza se nasci para ser mãe nem se tenho um jeito espectacular para isto mas de uma coisa tenho absoluta certeza: a Ana nasceu para ser filha- a minha filha- e tem um talento único e genial para isto. Agradeço-lhe todos os dias o que muda, devagarinho, em mim.
Eu tinha tudo para ser uma pessoa insegura. Tudo. Nasci com uma deficiência, passei anos da minha infância internada, usei botas ortopédicas até à adolescência, talas para dormir até ser adulta e já namorar, o meu pai é o maior flop da história dos pais e deu à sola quando eu tinha oito anos e deixou-me a mim e à minha mãe em muito maus lençóis, na puberdade fui vítima de bullying por ter uma deficiência e ainda tinha o desplante de sempre ser boa aluna e até marrona do género que vai à escola para estudar e não para ser da malta (nunca tive necessidade de ser da malta nem gosto de papar grupos)- até um bocadinho "croma" do género que fica de rastos quando trazia um 98% num teste para casa e nunca fui para a rua nem tive uma falta disciplinar- à conta do divórcio dos meus pais tivemos que ir viver com os meus avós maternos que não tinham grandes posses económicas e nada- absolutamente nada na minha vida- foi fácil de conquistar. Foi tudo suado até à última gota, custoso e tirado a ferros.
Acontece esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor: a minha mãe e a minha família nuclear (avós, tios e prima) sempre me souberam amar e fazer sentir amada, protegida e cuidada da melhor forma imaginável e isso fez de mim, provavelmente, a pessoa mais auto-consciente, resiliente e segura que possam imaginar.
"Ah se és tão segura porque tens essa necessidade de o apregoar?" Não tenho. Mas também não tenho que o esconder sob o manto da falsa modéstia que nunca terei. Sei exactamente quem sou, o caminho que já percorri e as merdas que já fiz (oh, e se já fiz muitas, tantas, imensas!) e as probabilidades infinitas de voltar a cometer argoladas na minha vida. Mas também sei todas as conquistas que consegui, todas as improbabilidades e impossibilidades que contornei e alcancei e quais os meus pontos fortes. Sei, exactamente, quem sou e sinto-me amada. É apenas essa a chave para se ser segura: sentir-se bem amada como me sinto. Como sempre me senti. Pelas pessoas certas, pelas pessoas que me importam e as que me fazem falta e a diferença na vida, da forma de amor que reconheço como o que me faz falta e o que chega para me fazer uma pessoa feliz.
Por não ser consensual e politicamente correcta (o que é isso de se ser politicamente correcta? É ser-se sensato e pensar no que se diz e escreve antes de vomitar palavras pela boca e pelos teclados sem medir o efeito que isso pode causar nos outros? É reler o que se escreve e reflectir se estamos a criticar ações e atitudes ou direccionadamente pessoas específicas, no matter what, só por serem elas? Se sim, pronto, anseio ser essa pessoa sensata e sensível ao efeito que causo nos outros, quero ser uma pessoa politicamente correcta, então!) sempre suscitei reacções nas pessoas: ou adoravam-me ou odiavam-me, sendo que as que me odiavam era mesmo a sério, nunca me esquecendo da hater de estimação que era stalker, enviava emails para a minha família, colocava as minhas fotografias na net numa altura em que eu escolhi ser anónima na blogosfera, criava blogs "sarcásticos" para os quais convidada amigas minhas pessoais para colaborar porque lá está, era sarcasmo, e não podiam haver "vacas sagradas", criou o maior sururu dentro do bicho que ela própria criara e acabou terrivelmente sozinha e triste no twitter, até que mudou de estratégia e espero eu que tenha sido feliz para sempre (gente feliz, não chateia!).
Havia (há) um padrão nas haters deste blog (ou "nas minhas haters", como queiram, não me dou essa importância): pessoas que se tentaram aproximar de mim, criar relação comigo, ser próximas à força, quererem privar, entrar na minha rotina, partilhar momentos de intimidade, implorarem que lhes aprovasse comentários de escárrnio com o pretexto de que partilhávamos do mesmo estilo "sarcástico", frequentarem (algumas até de forma muito activa) eventos blogosféricos dinamizados por mim, estarem lá, quererem ver de perto, perguntarem se podiam pegar na minha filha ao colo, comprarem produtos de uma loja online que cheguei a criar, combinarem sítios públicos para os apanhar em mãos mas, perante o meu recuo de não querer dar logo a confiança desejada, partilhar a cumplicidade unidireccional sentida, alinhar em merdas que não lembram ao menino Jesus, desiludi-las por não corresponder às expectativas que tinham criado acerca de mim (que vem a ser uma coisa diferente do que eu sou e difere de pessoa para pessoa) ou, simplesmente, não aprovar comentários de novos blogs com nick names a colarem-se aos das bloggers famosas e não permitir que através da minha plataforma servissem de isco para as pequeninas piranhas que por aí gravitam na blogosfera, pequeninas para serem tubarões e comer mas suficientemente rápidas, ágeis e com tempo para farejar sangue e rabearem nas caixas de comentários Esse é o perfil das pessoas a quem eu irrito na blogosfera e estes são 99% dos motivos que servem de motor para me passaram a dedicar um tempo de desamor extraordinário. Sempre o mesmo perfil: o perfil de quem se sente rejeitada, não importada, ignorada ou simplesmente não notada, como se ser notado por uma pessoa que escreve um blog fosse um caso de vida ou morte, um boost na auto-estima, um propósito de vida. Ou talvez apenas a única forma viável para estas pessoas se fazerem também notar, parasitas ou alpinistas de um montanha tão insiginificante e efémera. Talvez um dia perceberão.
A história das haters lembra-me sempre a da terceira fada da Bela Adormecida que, percebendo que era a única não convidada para a festa (por esquecimento, lembram-se?) terá pensado: "Se não me querem, também não vos vou deixarem esquecer-me..." e vai de largar a porra do feitiço-karma na vida da pobre da Bela Adormecida. Como se quisessem afirmar: "Pela confusão que crio, pelo diz que disse que semeio, pelas meias palavras e metáforas direccionadas e farpas que espeto, pela porcaria que sou e que faço é que eu existo e é esta a única forma que conheço para repararem em mim e não ser esquecida!"
Claro que na atitude dos outros acabamos por rever as nossas e quantas vezes, no passado, poderemos ter caído nessa mesma tentação de criticar só por criticar, atingir as pessoas só por serem as pessoas e não aquelas ações específicas? Faz-se rewind na cabeça e vem-nos à memória aquele post em que se criticou o workshop tolo criado por um blogger, se reagiu de cabeça quente à hater que nos pespegou as fotografias nossas e da nossa família inteira na net ou que nos difamava diariamente, com a sonsice que conseguiu enganar amigos pessoais pelo caminho, num blog "satírico" que visava ser uma "passadeira vermelha" da blogosfera mas que eia apenas um monólogo da Cláudia Ramos da blogosfera direccionado a mim e do post inflamado com que a desmascarei e gerou uma onda de solidariedade única ou daquela vez em que achámos que, enough era enough, e tínhamos que dizer publicamente que a Presidente do nosso clube de anti-fãs era uma pessoa sem quaisquer escrúpulos, que nos comentários públicos do nosso blog oferecia-se para emprestar uma máquina de aerossóis à nossa filha aflita com uma infecção respiratória, cheia de boa fé e sentimentos de solidariedade, a quem tínhamos permitido constar nos nossos contactos de facebook privado porque nos parecia essa pessoa cheia de boas intenções e que, em paralelo, alimentava um hate-blog em que a special guest era eu.
Não sou uma santa, não pensem. Mas nunca prejudiquei a vida pessoal de ninguém. Nuca meti famílias ou trabalhos ao barulho nas tricas da blogosfera e sempre agi reactivamente e em defesa. Claro que ao longo destes anos, fiz muita porcaria e escrevi, no passado, muitas coisas de que me arrependo neste blog. O manto do anonimato, tal como o mando de invisibilidade do Harry Potter, é confortável e dá muito jeito, isenta-nos de uma certa responsabilidade e de uma necessidade de se pensar duas vezes antes de se carregar no botão "publicar". É confortável porque podemos falar das nossa batalhas com a nossa sogra porque a nossa sogra é uma personagem abstracta e ninguém sabe que é a Dona X. ou podemos contar destrambelhices da nossa mãe sem que ninguém saiba que é a pessoa Y. mas pensando apenas que é a mãe abstracta de uma personagem blogosférica abstracta.
Nunca gastei energias a ser gratuitamente má para ninguém e sempre que me prejudicaram não me deixei toldar pela raiva. Escolho bem as minhas batalhas e só dedico energia nas que valem realmente a pena. E depois da Ana nascer- lá está- decidi que só gasto energia em batalhas positivas, em situações de justiça ou a melhorar a vida de alguém. Não roubo tempo de qualidade que posso dedicar à minha filha em cusquices ou tricas que não têm qualquer interesse. Uso o meu tempo e a minha energia onde sinto que a minha voz faça uma diferença para o bem. Tudo o resto não me interessa. Não me importa, verdadeiramente.
Fui eu que decidi, racionalmente, prescindir do anonimato deste blog, mesmo que por causa disso tenha sido prejudicada em várias áreas, inclusive, na profissional, com os nomes das empresas onde trabalhei a serem expostas maldosamente em caixas de comentarios, com posts meus enviados para CEOs, posts sobre a minha sogra enviados para as caixas de mensagens do facebook da senhora e coisas que não lembram ao menino Jesus e olhem que eu sou muito criativa.
Prescindi do anonimato no dia em que percebi que esse acto poderia salvar a vida de uma criança e fá-lo-ia novamente de olhos fechados mil e uma vezes again (mesmo que não tenha sido atingido o propósito e o
Rodrigo tenha morrido primeiro, e depois a Bia ). Ter-me-ia sido, especialmente naquela fase, muito mais confortável ter assobiado para o lado e mantido o anonimato, continuar a escrever chalaças da minha vida pessoal e profissional, não ter que colocar filtro no conteúdo dos posts e este blog continuar o propósito que me fez criá-lo: ser uma catarse divertida da vida de uma miúda que gosta de escrever, altamente crítica e com um humor auto-depreciativo, observadora e mordaz, impulsiva e que escreve o que pensa sem meias medidas e que
"what you see is what you get!".
Nunca balizei ou condicionei o que eu escrevo neste blog por causa das pessoas que não gostam de mim, do que escrevo ou de ambas as coisas. É real. Não tenho a mínima curiosidade em visitar blogs (não visito mesmo, até por uma questão de amor-próprio: não dou visualizações a gente idiota!) que se dedicam à dissertação sobre os blogs alheios (também não vejo esse tipo de programas na televisão para não lhes dar audiência nem compro revistas de fofocas para não contribuir para a tiragem ou clico em links de revistas inúteis digitais para aumentar o número de visualizações), não tenho a mínima curiosidade em saber o que pensam de mim as haters deste estaminé, nunca fui consensual nem tive intenções de o ser, vivo bem com o facto de haver quem não goste de mim ou do que escrevo (às vezes também não gosto do que já escrevi, é assim a vida, crescer em treze anos de blog implica mudar muito e nem sou daquelas que diz que não se arrepende de nada do que fez e que antes fazer e arrepender-se do que não ter feito e ficar a pensar "e se"...) e esta é a mais real das verdades, que pode ser confirmada pelas pessoas que me conhecem e que sabem da minha relação com isto dos blogs.
Mas a perda do anonimato trouxe uma responsabilidade para além da de eu assumir o que escrevo enquanto Liliana e já não enquanto Pólo Norte ou ursa. É que a Liliana é filha da Ana, nora da mãe do Rui, mulher do Rui, prima da Daniela, trabalhadora na ASBIHP e mãe da Ana. E aí tudo muda de figura. Eu não posso continuar a escrever trivialidades que para mim não têm importância quando corro o risco de com isso magoar a minha mãe, fragilizar a minha filha ou fazer com que as pessoas confundam o meu lado profissional (que não conhecem) e fazer juízos de valor sobre o meu trabalho quando isso pode ter repercussões na vida da associação. Não posso continuar a fazer chalaças sobre o guru da auto-ajuda quando descubro que ele é irmão do marido de uma colega que adoro e com isso posso magoá-los ou que posso mandar uma boca com farpa para a figura política que esteve mal numa declaração numa rede social quando é pai de uma pessoa de quem gosto e que é inexcedível na ajuda que me dá em todos os projectos sociais onde me meto, portanto,que foi criada por esse mesmo pai com valores que não só admiro como confirmo de perto. Não posso partilhar desabafos humorísticos sobre reuniões de pais quando os pais dos colegas da Ana sabem que a Ana é a colega dos filhos deles nem colocar conteúdos e matérias hilariantes do meu dia-a-dia que envolvem outras pessoas e que, sem qualquer hesitação, colocaria no passado quando até a senhora do café e a minha gestora de conta do banco sabem ambas que eu sou a autora deste blog.
Portanto, ao longo dos últimos tempos este blog passou por essa crise de identidade: de eu gostar dele como ele sempre foi, de ter um efeito catártico que me faz tanta falta mas de haver uma necessidade imperativa de mudar, não por via das críticas de quem não gosta dele ou de mim mas para poder preservar e não magoar as pessoas da minha vida real de quem gosto e que gostam de mim.
E porque eu cresci, o blog cresceu, o advento das redes sociais deu-lhe uma visibilidade que ainda continuo a ter dificuldade em imaginar e porque este blog já não é o da ursa, o da Pólo Norte: é o da Liliana.
Acredito que tenha perdido muita da sua espontaneidade e, com ela, muita da sua graça natural, destrambelhice e falta de filtro. É um preço que não me importo de pagar se isso não magoar ou melindrar as pessoas de quem gosto. As melhores histórias (ou as mais hilariantes) são, agora, contadas em privado, em jantares com amigos (muitos que foram trazidos por este blog) à volta da mesa, com gargalhadas reais em vez de lols.
O blog, necessariamente, mudou.
Durante anos escrevi religiosamente todos os dias sem excepção até a uma altura em que mudei de trabalho (que distava a 170 km) de minha casa e fiquei sem tempo nem energia. Quando alguns meses depois constatei a minha incapacidade de fazer 340 km por dia e estar menos de uma hora por dia com a minha filha e aceitei um projeto em Lisboa estava sem ritmo de escrita e com tanta coisa para recuperar e viver que ficar sentada em frente a um pc me parecia um desperdício de tempo. Desde então- porque vivo muito mais no tempo que não uso para me sentar a escrever- tenho tido mil assuntos dignos de serem escritos e tenho tido saudades de me sentar e escrever como forma de arrumar muitas das ideias que nunca deixaram de me fervilhar e de partilhar tantas coisas giras que tenho descoberto. Mas, por outro lado, não me revejo no novo paradigma da blogosfera dos famosos que decidiram todos querer ser bloggers com equipas de ghost writters a escrever por eles e eles apenas a darem os nomes às plataformas. Também não me revejo no novo paradigma da blogosfera de escrutínio da vida de quem escreve ao invés do que é, efectivamente, escrito e que deveria ser o tema das salutares discussões de ideias. Também já é sobejamente conhecido que não me revejo no poder que publicidade ganhou na blogosfera e não me apetece ser carne para canhão de departamentos de marketing a troco de feijões .
No entanto, continuo a gostar muito de escrever, de conhecer gente fixe por causa do blog (e que dificilmente conheceria doutra forma) e de usar a minha escrita para fazer coisas fixes e ter um alcance que de outra forma nunca poderia almejar. Feito o balanço este blog já virou mundos e fundos, já mudou para melhor a vida de muitas pessoas, tem uma voz de grande alcance e sendo um misto entre destrambelhice e coisas sérias, fait divers e indignações, divagações trágico-cómicas, partilha de momentos kafkianos que não lembram ao Bruno de Carvalho e capacidade de mobilização de massas em torno de causas sociais que, sem o mínimo de modéstia, não reconheço em nenhum outro blog; feito o balanço este blog tem trazido mais ganhos que perdas.
Orgulho-me dele e do que com ele já foi possível alcançar. Dos feitos que ele proporcionou. Das pessoas a quem ele mudou perspectivas de vida, obrigou a pensar diferente, mudou a vida. E do efeito que teve em mim, mais do que em todos os outros, tornando-me numa pessoa melhor.
Durante muitos meses, nesta indefinição, tive saudades do meu blog e não me coibi de o dizer em voz alta que e que ele era único e não há outro igual. Prometi a mim mesma que em Setembro do ano passado voltaria a pegar nisto a sério, até porque Setembro é forte em new seasons e até começava também o This is us e o GOT,a miúda retomaria a escola após as férias grandes e o trabalho acalma sempre depois dos campos de treino no Verão. Era em Setembro.
Mas acontece que fiquei doente. Gravemente doente E as palavras secaram-me. Literalmente, Com dores de agonia não há paciência para sentar e escrever. Sentia-me muito mal e, em muitos momentos, com verdadeira auto-comiseração. Frágil,doente e vulnerável. E-vocês sabem- eu nem tenho medo de mostrar a minha fragilidade ou a minha vulnerabilidade. Mas para além de não ter força anímica achei que era a altura de me proteger e não me expor. Tinha que gerir as dores, a Ana a deprimir por me ver sempre a piorar e acamada, o meu marido a velar-me todas as noites sem dormir oito horas seguidas durante meses. A minha mãe desorientada. Não me queria expor e permitir que as filhas das putas das aves agoirentas que por aí andam, sem qualquer empatia ou sentido de oportunidade e humanidade, aproveitassem este momento para me atacarem. Não por mim, que já disse, não leio mesmo. Nem pelo Rui que quase nem o meu blog lê, quanto mais os de abutres. Mas pela minha mãe que, nas suas navegações pela internet, não merecia ver nesta altura específica comentários maldosos ou só "satíricos" sobre a filha para quem ela tinha lutado toda a vida para ter mobilidade ser falada nesses antros e em caixas de comentários numa altura em que a filha tinha deixado de andar. Nenhuma mãe merece ter que se cruzar com comentários maldosos e gratuitos sobre os seus filhos, especialmente numa altura em que os seus filhos não têm energia nem força anímica para as serenar e explicar que não importa, que não é para legitimar, que não é para dar credibilidade porque ambas sabemos que eu sou.
Mas depois escrevi o post.
E voltou a acontecer esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor e aparecem, em número avassalador, as "lovers" em antagonia às "haters".
A primeira- e a mais importante e decisiva em todo este processo- foi a Daniela. Leitora antiga do blog a quem eu nunca tinha posto os olhos em cima e... médica. Foi ela que se importou comigo. Que quis saber. Que me deu a medicação certa para serenar a agonia (já não eram dores, era agonia) e que me reencaminhou para a equipa clínica certa, a que não desiste de mim, a que me ajudou a estar hoje aqui a escrever, sem dores nem incómodo, como se um milagre tivesse acontecido. A Daniela, a quem devo a qualidade de vida que recuperei, a minha filha a voltar a ir feliz para a escola e a não continuar na escalada de uma depressão aos cinco anos por me ver sempre com dores, a chorar e acamada e o meu marido a conseguir descansar uma noite seguida sem me estar a velar. A Daniela a quem devo a recuperação da minha vida de volta.
Depois a Patrícia, também ela blogger e médica, que soube falar com a pessoa certa para se tentar encontrar o diagnóstico certo. Que pediu favores em meu nome, que se incomodou, que quis sempre saber. E a Cláudia, leitora antiga, que coagiu o cunhado neurocirurgião a dar-me uma segunda opinião de borla. E a Sofia, enfermeira, que não conseguiu ficar indiferente à minha descrição da dor e marcou consulta em tempo record pedindo favor ao médico com quem trabalha, para eu poder ter um plano b.
A seguir vieram os pobres dos meus amigos, desesperados por eu já não atender telefonemas nem responder a mensagens a perceber pelo blog o estado da nação e a finalmente conseguirem agir à revelia da pior doente de sempre: a Xana a exigir que eu lhe passassse o meu NIB para me depositar o valor da ressonância magnética que o SNS só me garantia para finais de 2019, a Ana Margarida e o Paulo sempre presentes, a Rita a fazer grandes pesquisas e revisões de literatura, a sacar-me artigos e abstracts que nos pudessem apontar um diagnostico, a Ana Luisa a dizer sempre "presente", a contactar sempre com mámen, a reiterar sempre a presença e o apoio e a reencaminhar-me para a melhor osteopata cumulativamente fisioterapeuta do Mundo. E a Eileen que fez escala em Portugal numa viagem intercontinental só para sair do aeroporto a correr e me deixar um abraço e um beijo.
E depois os amigos que apoiaram sempre e transversalmente:a Rosália e o Andrea a emprestarem-nos durante meses o carro depois do nosso ter avariado para sempre para garantir que a Ana era todos os dias levada confortavelmente à escola sem ter que andar a pé dois quilómetros com o pai a segurar-lhe no guarda-chuva e que eu pudesse comparecer a todas as consultas sem ter que ir de ambulância ou transportes públicos, a MEP a tratar-me de processos legais para os quais eu não tinha qualquer força anímica e que eram de extrema relevância e não podiam ser negligenciados, a Patrícia do BNP Paribas e o Miguel da Fujitsu a garantirem-me a continuidade de projectos de trabalho para o qual eu tinha lançado sementes mas que agora não tinha saúde para colher e acompanhar (e a com isso garantirem que as pessoas para quem trabalho não fossem prejudicadas pelas minha baixa médica); a trupe inteira que se juntou em Janeiro a fazer a minha vez a acarretar móveis e a mobilar um anexo de raiz para garantir que uma mãe e um bebé com Spina Bífida vindos dos PALOPs pudessem sair do abrigo temporário para o qual tinham prazo de saída e pudessem ter um tecto digno para dormir (nunca vos conseguirei agradecer, foi uma verdadeira linha de montagem quando eu já nem conseguia segurar num banco com as dores a serem disfarçadas, minha Paula, comadre Rosa, Leonor, Marta Guerra, Rosa Santos, Susana e Andreia, e um beijo especial à minha tia Custódia!); a Andreia e a tia Maria Francisco a agilizarem-nos contactos privilegiados para a compra do novo carro em tempo record e a Marta a fazer magia junto do nosso banco para que nos aprovassem o crédito e nos libertassem o valor necessário em tempo record para o podermos adquirir.
Nunca me esquecerei de um momento particular em que estava a agoniar de dores em casa e apareceu-me aqui uma amiga de infância que está emigrada e me vinha pedir apoio porque era vítima de violência doméstica, ao mesmo tempo que uma mãe e um bebé com Spina Bífida me ligam do Hospital Dona Estefânia às onze da noite porque tiveram alta mas não tinham dinheiro para regressar a casa (e o bebé não comia há horas porque a mãe só fala crioulo e não sabia pedir comida nem tinha dinheiro com ela para resgatar um pacote de bolachas da máquina de vending) e eu com a minha amiga a chorar no sofá, com dores de pura agonia a tentar disfarçar e, de repente, salva por um grupo de póletes que agarrou num carro velho que nem pode circular no Centro de Lisboa e foi resgatar mãe e bebé e os levou, em segurança a casa. A fazer a minha vez.
Tanta gente boa a segurar-me as pontas. A garantir que os meus projectos profissionais não caiam por eu estar de baixa, que o facto de estar acamada e incapacitada para pedir subsídios e apoios para sustentarem estes projectos não era impedimentos deles verem a luz do dia, gente que contribuiu monetariamente, com trabalho, com tempo,com energia. Tanta gente a fazer a minha vez quando eu não podia fazer a minha vez. Tanta gente que esteve silenciosa durante anos de blog a sair da toca, a mandar mensagens de apoio, sugestões de médicos, partilha de casos, emails de força e energia positiva. Amor. Tanto mas tanto amor.
Talvez este blog tivesse mesmo que mudar.