sexta-feira, 22 de junho de 2018

Carta à auxiliar da sala do Jardim de Infância da minha filha



Querida Fernanda,

No fim do ano lectivo, o último da Ana antes de ingressar no primeiro ciclo e, por isso, o último em que acompanha a minha Ana queria agradecer-lhe.

Sabe, é que muitas vezes as pessoas- os pais incluídos- se esquecem do papel das auxiliares. Eu- às vezes- também mas hoje não.


Queria agradecer-lhe o papel que teve durante este ano na vida da minha filha. Não foi um papel auxiliar nem secundário, foi um papel insubstituível e principal.


Foi a Fernanda que acolheu. todas as manhãs, a minha Ana na sala. Que lhe deu bons dias risonhos. Colo nos dias em que estava mal disposta. Que a conduziu à reunião de tapete. Que lhe ajeitou ganchos a escorregar no cabelo liso e escorrido.

Foi a Fernanda a primeira a alertar-nos para o impacto que a minha doença estava a ter no comportamento da Ana. A dizer-nos que a sentia triste, preocupada, meia deprimida.  Foi a Fernanda que resolveu muitas birras da Ana não querer ficar na escola de manhã, sabendo-me doente e de cama em casa e querendo ficar comigo, a tomar conta de mim, numa parentalizacao precoce que nunca lhe permitimos. Foi a Fernanda que lhe deu colos, que a abraçou, que limpou uma diarreia somática, que lhe fez companhia quando a tristeza da Ana não lhe apetecia brincar com os outros meninos, que nos atendeu todos os telefonemas - sem se mostrar enfadada ou aborrecida - depois do pai a deixar na escola para nos certificarmos que tinha, enfim, serenado. Foi a Fernanda que introduziu a Ana nas brincadeiras das colegas sem a forçar, que a juntou e foi facilitadora na sua relação com as meninas com um perfil comportamental semelhante ao dela, que a incentivou a escalar e a saltar à corda, que lhe desinfectou esfoladelas nos joelhos, arranjou penteados porque o pai não tem lá muito jeito e foi a Fernanda que se mostrou sempre de coração partido face à reação da Ana à minha incapacidade de ter uma vida normal, de regressar à nossa vida normal, de termos a vida virada do avesso.

No tempo lectivo foi a Fernanda que a virava sempre do lado certo, que conversou com a Ana na hora do recreio, que a escutou e ouviu, que a serenou e lhe prometeu que isto tudo ia passar. A Ana contava-nos isso e garantia-nos o quanto acredita em si.

E a Fernanda nem sabia que ia passar (nem nós ) mas passou. 
Também graças a si.


À Fernanda que anteontem, depois de dois períodos lectivos difíceis, de um 2018 particularmente duro para toda a nossa família e perante a falta de talento desportivo da Ana, crashou a prova de corta-mato a meio para a resgatar do último lugar.

Obrigada por tudo e por tanto, Fernanda. Nenhuma palavra consegue transmitir a gratidão que o meu coração de mãe lhe dedicará para sempre. Obrigada por amparar a Ana num ano em que lhe doeu tanto na alma crescer.


Cresceu mais forte e segura, muito graças a si. Não é o seu trabalho que aqui enalteço: foi a sua capacidade e generosidade de cuidar e amar a Ana quando e onde ela tanto precisou. Obrigada por lhe ter limpado as lágrimas, feito sorrir e lhe ter dado, todas as vezes sem nunca o negar, o colo que a minha ausência não me permitia e nem em casa, muitas vezes, tinha força anímica para compensar. 

Nem sempre foi fácil mas nunca a vi de má cara e sabemos que a Ana não é uma miúda simples e fácil de compreender. Oh como a admiro! Ensinou-a pelo exemplo de amor, generosidade, humanidade e afecto e deu continuidade ao trabalho que tentamos fazer em casa. É tão boa nesse papel, sabe?!



Foi uma excelente companheira de equipa juntamente com a educadora mas- principalmente- connosco. Aceitou o compromisso de fazer da minha Ana uma menina melhor, todos os dias, sem ter expectativas do que era ser melhor, apenas respeitando a direcção, os gostos, interesses e personalidade que ela foi demonstrando. Respeitando e apoiando a Ana na sua essência, sem a querer mudar. 



A Ana é a nossa semente, minha e do pai. Todos os dias a regamos para que cresça saudável e feliz. Mas foram ambas- a Fernanda e a Helena também- que todos os dias úteis, das nove às quatro da tarde, na nossa ausência, lhe abriram a janela da infância e lhe mostraram o sol. Porque o vosso amor foi fotossíntese para esta Ana, a minha Ana, agora mais forte e em flor.


Obrigada por tudo. Por ser exactamente a pessoa em quem a minha filha procurou o colo que a minha ausência não permitia ser eu a dar. Que a minha doença não estava a ser capaz de providenciar nas doses necessárias. O seu colo não é auxiliar, foi educador, de amor e afecto e teve um papel principal.

Um papel que nunca esqueceremos.

Um beijinho nosso. Um beijinho com sabor a colo de mel. A um colo principal.
Liliana- mãe da Ana“

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A importância de me chamar Liliana



A mudança sentia-a cá dentro,a  instalar-se devagarinho e silenciosa como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos.  Sempre fui crítica, sarcástica (no sentido verdadeiro da coisa e não no eufemismo hipócrita de quem é verdadeiramente mau e maldoso de génese e se quer esconder sob o manto do sarcasmo [mygas, isso não pega, nem que vocês fossem o Harry Potter sob o manto da Invisibilidade, tá?) ]) e irónica, sem medo de dizer o que sinto mesmo que o que sentisse pudesse ferir susceptibilidades, abrir feridas, magoar. A verdade: a minha fidelidade, lealdade e obediência cega à verdade acima de tudo. Tão mas tão errada que estava. 

O momento de clivagem foi a  minha  maternidade. é um cliché- aguentem, também tenho a minha quota para gastar e vou usá-la até ao fim!- e perceber, há quase seis anos a que agora não era apenas eu: era a Ana, eu na Ana, o meu exemplo para a Ana, o reflexo de mim na Ana. Não mudei logo, tipo sacaram-me a miúda do bucho, coseram-me aqui a barriga com o mesmo jeito com que coso os botões da bata da escola dela, e desceu em mim a nossa senhora da sabedoria maternal, da sensibilidade absoluta e da consciência universal. Não, já disse. Veio devagarinho como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos e foi a Ana que me ensinou. 

Não tenho a certeza se nasci para ser mãe nem se tenho um jeito espectacular para isto mas de uma coisa tenho absoluta certeza: a Ana nasceu para ser filha- a minha filha- e tem um talento único e genial para isto. Agradeço-lhe todos os dias o que muda, devagarinho, em mim.

Eu tinha tudo para ser uma pessoa insegura. Tudo. Nasci com uma deficiência, passei anos da minha infância internada, usei botas ortopédicas até à adolescência, talas para dormir até ser adulta e já namorar, o meu pai é o maior flop da história dos pais e deu à sola quando eu tinha oito anos e deixou-me a mim e à minha mãe em muito maus lençóis, na puberdade fui vítima de bullying por ter uma deficiência e ainda tinha o desplante de sempre ser boa aluna e até marrona do género que vai à escola para estudar e não para ser da malta (nunca tive necessidade de ser da malta nem gosto de papar grupos)- até um bocadinho "croma" do género que fica de rastos quando trazia um 98% num teste para casa e nunca fui para a rua nem tive uma falta disciplinar- à conta do divórcio dos meus pais tivemos que ir viver com os meus avós maternos que não tinham grandes posses económicas e nada- absolutamente nada na minha vida- foi fácil de conquistar. Foi tudo suado até à última gota, custoso e tirado a ferros. 

Acontece esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor: a minha mãe e a minha família nuclear (avós, tios e prima) sempre me souberam amar e fazer sentir amada, protegida e cuidada da melhor forma imaginável e isso fez de mim, provavelmente, a pessoa mais auto-consciente, resiliente e segura que possam imaginar.

"Ah se és tão segura porque tens essa necessidade de o apregoar?" Não tenho. Mas também não tenho que o esconder sob o manto da falsa modéstia que nunca terei. Sei exactamente quem sou, o caminho que já percorri e as merdas que já fiz (oh, e se já fiz muitas, tantas, imensas!) e as probabilidades infinitas de voltar a cometer argoladas na minha vida. Mas também sei todas as conquistas que consegui, todas as improbabilidades e impossibilidades que contornei e alcancei e quais os meus pontos fortes. Sei, exactamente, quem sou e sinto-me amada. É apenas essa a chave para se ser segura: sentir-se bem amada como me sinto. Como sempre me senti. Pelas pessoas certas, pelas pessoas que me importam e as que me fazem falta e a diferença na vida, da forma de amor que reconheço como o que me faz falta e o que chega para me fazer uma pessoa feliz. 

Por não ser consensual e politicamente correcta (o que é isso de se ser politicamente correcta? É ser-se sensato e pensar no que se diz e escreve antes de vomitar palavras pela boca e pelos teclados sem medir o efeito que isso pode causar nos outros? É reler o que se escreve e reflectir se estamos a criticar ações e atitudes ou direccionadamente pessoas específicas, no matter what, só por serem elas? Se sim, pronto, anseio ser essa pessoa sensata e sensível ao efeito que causo nos outros, quero ser uma pessoa politicamente correcta, então!) sempre suscitei reacções nas pessoas: ou adoravam-me ou odiavam-me, sendo que as que me odiavam era mesmo a sério, nunca me esquecendo da hater de estimação que era stalker, enviava emails para a minha família, colocava as minhas fotografias na net numa altura em que eu escolhi ser anónima na blogosfera, criava blogs "sarcásticos" para os quais convidada amigas minhas pessoais para colaborar porque lá está, era sarcasmo, e não podiam haver "vacas sagradas", criou o maior sururu dentro do bicho que ela própria criara e acabou terrivelmente sozinha e triste no twitter, até que mudou de estratégia e espero eu que tenha sido feliz para sempre (gente feliz, não chateia!).

Havia (há) um padrão nas haters deste blog (ou "nas minhas haters", como queiram, não me dou essa importância): pessoas que se tentaram aproximar de mim, criar relação comigo, ser próximas à força, quererem privar, entrar na minha rotina, partilhar momentos de intimidade, implorarem que lhes aprovasse comentários de escárrnio com o pretexto de que partilhávamos do mesmo estilo "sarcástico", frequentarem (algumas até de forma muito activa) eventos blogosféricos dinamizados por mim, estarem lá, quererem ver de perto, perguntarem se podiam pegar na minha filha ao colo, comprarem produtos de uma loja online que cheguei a criar, combinarem sítios públicos para os apanhar em mãos mas, perante o meu recuo de não querer dar logo a confiança desejada, partilhar a cumplicidade unidireccional sentida, alinhar em merdas que não lembram ao menino Jesus, desiludi-las por não corresponder às expectativas que tinham criado acerca de mim (que vem a ser uma coisa diferente do que eu sou e difere de pessoa para pessoa) ou, simplesmente, não aprovar comentários de novos blogs com nick names a colarem-se aos das bloggers famosas e não permitir que através da minha plataforma servissem de isco para as pequeninas piranhas que por aí gravitam na blogosfera, pequeninas para serem tubarões e comer mas suficientemente rápidas, ágeis e com tempo para farejar sangue e rabearem nas caixas de comentários Esse é o perfil das pessoas a quem eu irrito na blogosfera e estes são 99% dos motivos que servem de motor para me passaram a dedicar um tempo de  desamor extraordinário. Sempre o mesmo perfil: o perfil de quem se sente rejeitada, não importada, ignorada ou simplesmente não notada, como se ser notado por uma pessoa que escreve um blog fosse um caso de vida ou morte, um boost na auto-estima, um propósito de vida. Ou talvez apenas a única forma viável para estas pessoas se fazerem também notar, parasitas ou alpinistas de um montanha tão insiginificante e efémera. Talvez um dia perceberão. 

A história das haters lembra-me sempre a da terceira fada da Bela Adormecida que, percebendo que era a única não convidada para a festa (por esquecimento, lembram-se?) terá pensado: "Se não me querem, também não vos vou deixarem esquecer-me..." e vai de largar a porra do feitiço-karma na vida da pobre da Bela Adormecida. Como se quisessem afirmar: "Pela confusão que crio, pelo diz que disse que semeio, pelas meias palavras e metáforas direccionadas e farpas que espeto, pela porcaria que sou e que faço é que eu existo e é esta a única forma que conheço para repararem em mim e não ser esquecida!"

Claro que na atitude dos outros acabamos por rever as nossas e quantas vezes, no passado, poderemos ter caído nessa mesma tentação de criticar só por criticar, atingir as pessoas só por serem as pessoas e não aquelas ações específicas? Faz-se rewind na cabeça e vem-nos à memória aquele post em que se criticou o workshop tolo criado por um blogger, se reagiu de cabeça quente à hater que nos pespegou as fotografias nossas e da nossa família inteira na net  ou que nos difamava diariamente, com a sonsice que conseguiu enganar amigos pessoais pelo caminho, num blog "satírico" que visava ser uma "passadeira vermelha" da blogosfera mas que eia apenas um monólogo da Cláudia Ramos da blogosfera direccionado a mim e do post inflamado com que a desmascarei e gerou uma onda de solidariedade única ou daquela vez em que achámos que, enough era enough, e tínhamos que dizer publicamente que a Presidente do nosso clube de anti-fãs era uma pessoa sem quaisquer escrúpulos, que nos comentários públicos do nosso blog oferecia-se para emprestar uma máquina de aerossóis à nossa filha aflita com uma infecção respiratória, cheia de boa fé e sentimentos de solidariedade, a quem tínhamos permitido constar nos nossos contactos de facebook privado porque nos parecia essa pessoa cheia de boas intenções e que, em paralelo, alimentava um hate-blog em que a special guest era eu.  

Não sou uma santa, não pensem. Mas nunca prejudiquei a vida pessoal de ninguém. Nuca meti famílias ou trabalhos ao barulho nas tricas da blogosfera e sempre agi reactivamente e em defesa. Claro que ao longo destes anos, fiz muita porcaria e  escrevi, no passado, muitas coisas de que me arrependo neste blog. O manto do anonimato, tal como o mando de invisibilidade do Harry Potter, é confortável e dá muito jeito, isenta-nos de uma certa responsabilidade e de uma necessidade de se pensar duas vezes antes de se carregar no botão "publicar".  É confortável porque podemos falar das nossa batalhas com a nossa sogra porque a nossa sogra é uma personagem abstracta e ninguém sabe que é a Dona X. ou podemos contar destrambelhices da nossa mãe sem que ninguém saiba que é a pessoa Y. mas pensando apenas que é a mãe abstracta de uma personagem blogosférica abstracta. 

Nunca gastei energias a ser gratuitamente má para ninguém e sempre que me prejudicaram não me deixei toldar pela raiva. Escolho bem as minhas batalhas e só dedico energia nas que valem realmente a pena. E depois da Ana nascer- lá está- decidi que só gasto energia em batalhas positivas, em situações de justiça ou a melhorar a vida de alguém. Não roubo tempo de qualidade que posso dedicar à minha filha em cusquices ou tricas que não têm qualquer interesse. Uso o meu tempo e a minha energia onde sinto que a minha voz faça uma diferença para o bem. Tudo o resto não me interessa. Não me importa, verdadeiramente.  

Fui eu que decidi, racionalmente, prescindir do anonimato deste blog, mesmo que por causa disso tenha sido prejudicada em várias áreas, inclusive, na profissional, com os nomes das empresas onde trabalhei a serem expostas maldosamente em caixas de comentarios, com posts meus enviados para CEOs, posts sobre a minha sogra enviados para as caixas de mensagens do facebook da senhora e coisas que não lembram ao menino Jesus e olhem que eu sou muito criativa.

Prescindi do anonimato no dia em que percebi que esse acto poderia salvar a vida de uma criança e fá-lo-ia novamente de olhos fechados mil e uma vezes again  (mesmo que não tenha sido atingido o propósito e o Rodrigo tenha morrido primeiro, e depois a Bia ). Ter-me-ia sido, especialmente naquela fase, muito mais confortável ter assobiado para o lado e mantido o anonimato, continuar a escrever chalaças da minha vida pessoal e profissional, não ter que colocar filtro no conteúdo dos posts e este blog continuar o  propósito que me fez criá-lo: ser uma catarse divertida da vida de uma miúda que gosta de escrever, altamente crítica e com um humor auto-depreciativo, observadora e mordaz, impulsiva e que escreve o que pensa sem meias medidas e que "what you see is what you get!".

Nunca balizei ou condicionei o que eu escrevo neste blog por causa das pessoas que não gostam de mim, do que escrevo ou de ambas as coisas. É real. Não tenho a mínima curiosidade em visitar blogs (não visito mesmo, até por uma questão de amor-próprio: não dou visualizações a gente idiota!) que se dedicam à dissertação sobre os blogs alheios (também não vejo esse tipo de programas na televisão para não lhes dar audiência nem compro revistas de fofocas para não contribuir para a tiragem ou clico em links de revistas inúteis digitais para aumentar o número de visualizações), não tenho a mínima curiosidade em saber o que pensam de mim as haters deste estaminé, nunca fui consensual nem tive intenções de o ser, vivo bem com o facto de haver quem não goste de mim ou do que escrevo (às vezes também não gosto do que já escrevi, é assim a vida, crescer em treze anos de blog implica mudar muito e nem sou daquelas que diz que não se arrepende de nada do que fez e que antes fazer e arrepender-se do que não ter feito e ficar a pensar "e se"...) e esta é a mais real das verdades, que pode ser confirmada pelas pessoas que me conhecem e que sabem da minha relação com isto dos blogs.

Mas a perda do anonimato trouxe uma responsabilidade para além da de eu assumir o que escrevo enquanto Liliana e já não enquanto Pólo Norte ou ursa. É que a Liliana é filha da Ana, nora da mãe do Rui, mulher do Rui, prima da Daniela, trabalhadora na ASBIHP e mãe da Ana. E aí tudo muda de figura. Eu não posso continuar a escrever trivialidades que para mim não têm importância quando corro o risco de com isso magoar a minha mãe, fragilizar a minha filha ou fazer com que as pessoas confundam o meu lado profissional (que não conhecem) e fazer juízos de valor sobre o meu trabalho quando isso pode ter repercussões na vida da associação. Não posso continuar a fazer chalaças sobre o guru da auto-ajuda quando descubro que ele é irmão do marido de uma colega que adoro e com isso posso magoá-los ou que posso mandar uma boca com farpa para a figura política que esteve mal numa declaração numa rede social quando é pai de uma pessoa de quem gosto e que é inexcedível na ajuda que me dá em todos os projectos sociais onde me meto, portanto,que foi criada por esse mesmo pai com valores que não só admiro como confirmo de perto. Não posso partilhar desabafos humorísticos sobre reuniões de pais quando os pais dos colegas da Ana sabem que a Ana é a colega dos filhos deles nem colocar conteúdos e matérias hilariantes do meu dia-a-dia que envolvem outras pessoas e que, sem qualquer hesitação, colocaria no passado quando até a senhora do café e a minha gestora de conta do banco sabem ambas que eu sou a autora deste blog. 

Portanto, ao longo dos últimos tempos este blog passou por essa crise de identidade: de eu gostar dele como ele sempre foi, de ter um efeito catártico que me faz tanta falta mas de haver uma necessidade imperativa de mudar, não por via das críticas de quem não gosta dele ou de mim mas para poder preservar e não magoar as pessoas da minha vida real de quem gosto e que gostam de mim.
E porque eu cresci, o blog cresceu, o advento das redes sociais deu-lhe uma visibilidade que ainda continuo a ter dificuldade em imaginar e porque este blog já não é o da ursa, o da Pólo Norte: é o da Liliana.

Acredito que tenha perdido muita da sua espontaneidade e, com ela, muita da sua graça natural, destrambelhice e falta de filtro. É um preço que não me importo de pagar se isso não magoar ou melindrar as pessoas de quem gosto. As melhores histórias (ou as mais hilariantes) são, agora, contadas em privado, em jantares com amigos (muitos que foram trazidos por este blog) à volta da mesa, com gargalhadas reais em vez de lols. 

O blog, necessariamente, mudou.

Durante anos escrevi religiosamente todos os dias sem excepção até a uma altura em que mudei de trabalho (que distava a 170 km) de minha casa e fiquei sem tempo nem energia. Quando alguns meses depois constatei a minha incapacidade de fazer 340 km por dia e estar menos de uma hora por dia com a minha filha e aceitei um projeto em Lisboa estava sem ritmo de escrita e com tanta coisa para recuperar e viver que ficar sentada em frente a um pc me parecia um desperdício de tempo. Desde então- porque vivo muito mais no tempo que não uso para me sentar a escrever- tenho tido mil assuntos dignos de serem escritos e tenho tido saudades de me sentar e escrever como forma de arrumar muitas das ideias que nunca deixaram de me fervilhar e de partilhar tantas coisas giras que tenho descoberto. Mas, por outro lado, não me revejo no novo paradigma da blogosfera dos famosos que decidiram todos querer ser bloggers com equipas de ghost writters a escrever por eles e eles apenas a darem os nomes às plataformas. Também não me revejo no novo paradigma da blogosfera de escrutínio da vida de quem escreve ao invés do que é, efectivamente, escrito e que deveria ser o tema das salutares discussões de ideias. Também já é sobejamente conhecido que não me revejo no poder que publicidade ganhou na blogosfera e não me apetece ser carne para canhão de departamentos de marketing a troco de feijões .

No entanto, continuo a gostar muito de escrever, de conhecer gente fixe por causa do blog (e que dificilmente conheceria doutra forma) e de usar a minha escrita para fazer coisas fixes e ter um alcance que de outra forma nunca poderia almejar. Feito o balanço este blog já virou mundos e fundos, já mudou para melhor a vida de muitas pessoas, tem uma voz de grande alcance e sendo um misto entre destrambelhice e coisas sérias, fait divers e indignações, divagações trágico-cómicas, partilha de momentos kafkianos que não lembram ao Bruno de Carvalho e capacidade de mobilização de massas em torno de causas sociais que, sem o mínimo de modéstia, não reconheço em nenhum outro blog; feito o balanço este blog tem trazido mais ganhos que perdas.

Orgulho-me dele e do que com ele já foi possível alcançar. Dos feitos que ele proporcionou. Das pessoas a quem ele mudou perspectivas de vida, obrigou a pensar diferente, mudou a vida. E do efeito que teve em mim, mais do que em todos os outros, tornando-me numa pessoa melhor. 

Durante muitos meses, nesta indefinição, tive saudades do meu blog e não me coibi de o dizer em voz alta que e que ele era único e não há outro igual. Prometi a mim mesma que em Setembro do ano passado voltaria a pegar nisto a sério, até porque Setembro é forte em new seasons e até começava também o This is us e o GOT,a miúda retomaria a escola após as férias grandes e o trabalho acalma sempre depois dos campos de treino no Verão. Era em Setembro.

Mas acontece que fiquei doente. Gravemente doente E as palavras secaram-me. Literalmente, Com dores de agonia não há paciência para sentar e escrever. Sentia-me muito mal e, em muitos momentos, com verdadeira auto-comiseração. Frágil,doente e vulnerável. E-vocês sabem- eu nem tenho medo de mostrar a minha fragilidade ou a minha vulnerabilidade. Mas para além de não ter força anímica achei que era a altura de me proteger e não me expor. Tinha que gerir as dores, a Ana a deprimir por me ver sempre a piorar e acamada, o meu marido a velar-me todas as noites sem dormir oito horas seguidas durante meses. A minha mãe desorientada. Não me queria expor e permitir que as filhas das putas das aves agoirentas que por aí andam, sem qualquer empatia ou sentido de oportunidade e humanidade, aproveitassem este momento para me atacarem. Não por mim, que já disse, não leio mesmo. Nem pelo Rui que quase nem o meu blog lê, quanto mais os de abutres. Mas pela minha mãe que, nas suas navegações pela internet, não merecia ver nesta altura específica comentários maldosos ou só "satíricos" sobre a filha para quem ela tinha lutado toda a vida para ter mobilidade ser falada nesses antros e em caixas de comentários numa altura em que a filha tinha deixado de andar. Nenhuma mãe merece ter que se cruzar com comentários maldosos e gratuitos sobre os seus filhos, especialmente numa altura em que os seus filhos não têm energia nem força anímica para as serenar e explicar que não importa, que não é para legitimar, que não é para dar credibilidade porque ambas sabemos que eu sou.


Mas depois escrevi o post.

E voltou a acontecer esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor e aparecem, em número avassalador, as "lovers" em antagonia às "haters".

A primeira- e a mais importante e decisiva em todo este processo- foi a Daniela. Leitora antiga do blog a quem eu nunca tinha posto os olhos em cima e... médica. Foi ela que se importou comigo. Que quis saber. Que me deu a medicação certa para serenar a agonia (já não eram dores, era agonia) e que me reencaminhou para a  equipa clínica certa, a que não desiste de mim, a que me ajudou a estar hoje aqui a escrever, sem dores nem incómodo, como se um milagre tivesse acontecido. A Daniela, a quem devo a qualidade de vida que recuperei, a minha filha a voltar a ir feliz para a escola e a não continuar na escalada de uma depressão aos cinco anos por me ver sempre com dores, a chorar e acamada e o meu marido a conseguir descansar uma noite seguida sem me estar a velar. A Daniela a quem devo a recuperação da minha vida de volta. 

Depois a Patrícia, também ela blogger e médica, que soube falar com a pessoa certa para se tentar encontrar o diagnóstico certo. Que pediu favores em meu nome, que se incomodou, que quis sempre saber. E a Cláudia, leitora antiga, que coagiu o cunhado neurocirurgião a dar-me uma segunda opinião de borla. E a Sofia, enfermeira, que não conseguiu ficar indiferente à minha descrição da dor e marcou consulta em tempo record pedindo favor ao médico com quem trabalha, para eu poder ter um plano b.

A seguir vieram os pobres dos meus amigos, desesperados por eu já não atender telefonemas nem responder a mensagens a perceber pelo blog o estado da nação e a finalmente conseguirem agir à revelia da pior doente de sempre: a Xana a exigir que eu lhe passassse o meu NIB para me depositar o valor da ressonância magnética que o SNS só me garantia para finais de 2019, a Ana Margarida e o Paulo sempre presentes, a Rita a fazer grandes pesquisas e revisões de literatura, a sacar-me artigos e abstracts que nos pudessem apontar um diagnostico, a Ana Luisa a dizer sempre "presente", a contactar sempre com mámen, a reiterar sempre a presença e o apoio e a reencaminhar-me para a melhor osteopata cumulativamente fisioterapeuta do Mundo. E a Eileen que fez escala em Portugal numa viagem intercontinental só para sair do aeroporto a correr e me deixar um abraço e um beijo. 

E depois os amigos que apoiaram sempre e transversalmente:a Rosália e o Andrea a emprestarem-nos durante meses o carro depois do nosso ter avariado para sempre para garantir que a Ana era todos os dias levada confortavelmente à escola sem ter que andar a pé dois quilómetros com o pai a segurar-lhe no guarda-chuva e que eu pudesse comparecer a todas as consultas sem ter que ir de ambulância ou transportes públicos, a MEP a tratar-me de processos legais para os quais eu não tinha qualquer força anímica e que eram de extrema relevância e não podiam ser negligenciados, a Patrícia do BNP Paribas e o Miguel da Fujitsu a garantirem-me a continuidade de projectos de trabalho para o qual eu tinha lançado sementes mas que agora não tinha saúde para colher e acompanhar (e a com isso garantirem que as pessoas para quem trabalho não fossem prejudicadas pelas minha baixa médica); a trupe inteira que se juntou em Janeiro a fazer a minha vez a acarretar móveis e a mobilar um anexo de raiz para garantir que uma mãe e um bebé com Spina Bífida vindos dos PALOPs pudessem sair do abrigo temporário para o qual tinham prazo de saída e pudessem ter um tecto digno para dormir (nunca vos conseguirei agradecer, foi uma verdadeira linha de montagem quando eu já nem conseguia segurar num banco com as dores a serem disfarçadas, minha Paula, comadre Rosa, Leonor, Marta Guerra, Rosa Santos,  Susana e Andreia, e um beijo especial à minha tia Custódia!); a Andreia e a tia Maria Francisco a agilizarem-nos contactos privilegiados para a compra do novo carro em tempo record e a Marta a fazer magia junto do nosso banco para que nos aprovassem o crédito e nos libertassem o valor necessário em tempo record para o podermos adquirir.

Nunca me esquecerei de um momento particular em que estava a agoniar de dores em casa e apareceu-me aqui uma amiga de infância que está emigrada e me vinha pedir apoio porque era vítima de violência doméstica, ao mesmo tempo que uma mãe e um bebé com Spina Bífida me ligam do Hospital Dona Estefânia às onze da noite porque tiveram alta mas não tinham dinheiro para regressar a casa (e o  bebé não comia há horas porque a mãe só fala crioulo e não sabia pedir comida nem tinha dinheiro com ela para resgatar um pacote de bolachas da máquina de vending) e eu com a minha amiga a chorar no sofá, com dores de pura agonia a tentar disfarçar e, de repente, salva por um grupo de póletes que agarrou num carro velho que nem pode circular no Centro de Lisboa e foi resgatar mãe e bebé e os levou, em segurança a casa. A fazer a minha vez.

Tanta gente boa a segurar-me as pontas. A garantir que os meus projectos profissionais não caiam por eu estar de baixa, que o facto de estar acamada e incapacitada para pedir subsídios e apoios para sustentarem estes projectos não era impedimentos deles verem a luz do dia, gente que contribuiu monetariamente, com trabalho, com tempo,com energia. Tanta gente a fazer a minha vez quando eu não podia fazer a minha vez.  Tanta gente que esteve silenciosa durante anos de blog a sair da toca, a mandar mensagens de apoio, sugestões de médicos, partilha de casos, emails de força e energia positiva. Amor. Tanto mas tanto amor. 

Talvez este blog tivesse mesmo que mudar.



terça-feira, 19 de junho de 2018

O "quorta"-mato da Ana

É hoje. Acordou chorosa e insegura. A corrida não é o seu forte (aguenta-te filha o ADN deu-te esses olhos, também não lhe exijas milagres...) e dizia-me que ia chegar em último. 

Toda a conversa motivacional: o que importa é participar, não podes é desistir, foste escolhida para correr, és super esforçada. 

Acalmou-se um bocado e pediu-me se podia levar uma peça minha, em jeito de amuleto (yeah, sou essa mãe...). Foi à minha gaveta da bijuteria, ainda lhe sugeri que trouxesse o fio com o pendente do trevo de quatro folhas, mas veio alegremente com outro colar nas mãos...



(Nem abri o pio. Tenho esperança que não mostre a ninguém porque a T-shirt da escola o tapa. E assim com’assim ainda não sabe ler o “q” de nove...)

Chocados com as crianças mexicanas separadas dos pais na fronteira dos USA? Leiam este post!



Tenho a sorte de estar rodeada de pessoas inteligentes e informadas e, por isso, ter acesso privilegiado a informação fidedigna e credível sobre os mais variados temas. Assim, com a devida autorização, partilho tudo o que há para saber sobre este caso transcrevendo. textualmente, as palavras da minha amiga Inês Sampaio Melo Antunes, distinta advogada no Tribunal de Justiça Europeu e que percebe da poda, num texto único, conciso e absolutamente esclarecedor:

"Tribunal de Justiça Europeu explica: "KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO"
Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta.
O que concluí é absolutamente kafkiano. Ora atentem:
- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.
- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.
- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos final deste texto).
- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados.
Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.
Obrigada por me lerem até aqui!"

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domingo, 17 de junho de 2018

O retiro que foi tudo menos um retiro



O Retiro para mim não era mais que o parque urbano principal de Madrid. Sou uma pessoa estranha: entusiasmo-me com coisas novas mas tenho uma alma velha e não me consigo desprender do passado, como se quando o fizesse o estivesse a atraiçoar não só a ele, enquanto passado, mas também à pessoa que fui e que não quero que lá fique mas que continue. É difícil esta gestão de querer uma certa constância, duma lealdade ao percurso sem cair no erro de me tornar rígida face à mudança. Tenho um sentido de justiça old fashioned e sou de uma lealdade canina. 

O que mais ambiciono na vida é a liberdade de viver sem preconceitos, de ser verdadeiramente flexível e open minded. Não fazer juízos de valor nem generalizações abusivas, de não criar rótulos nas pessoas e de respeitar as diferenças de todas elas. 
Participar no retiro estava na minha lista de dez grandes preconceitos (a par das cenas zen das meditações, do poder  curativo das maratonas, da Hello Kitty e dos livros da Margarida Rebelo Pinto mas já não digo que desta água não beberei...) até porque Gustavo Santos, life coaches e uma série de gente oportunista a tentar fazer dinheiro com as emoções e fragilidades das pessoas depois de tirar cursos de 2 meses sobre PNL e Eneagramas sem qualquer background de estudo de ciências do comportamento ou sociais, não ajudam muito a dar credibilidade às coisas. 

A última década foi difícil e dura, talvez crescer implique esta dureza, esta dor, esta confusão e tentativa de conciliação entre quem fomos e em quem, todos os dias, nos vamos tornando. Foi a década mais importante da minha vida com dois momentos verdadeiramente transformadores: a estreia da morte na minha vida (e a luta incessável em gerir o luto) e a estreia da vida na minha vida, com a Ana a mudar tudo para melhor. A perda e o ganho, na mesma linha temporal. O meu marido partilhou, recentemente, um texto que encontrou por acaso e que, de repente, resumiu aquilo que eu precisava tanto de incorporar: "“Tudo que tu amas, tu eventualmente perderás, mas, no fim, o amor voltará numa forma diferente”. Foi esse o mote.

Tenho mil esferas na minha vida e sou muito desorganizada, quer com o tempo, quer com o espaço, quer com a energia que dispendo em todo este processo. Organização só no meu pensamento e nas minhas emoções: sinto que sou boa nisto do sentir e do pensar, mas extremamente caótica na parte do concretizar. 


Passei os últimos sete meses doente- organicamente doente- e tive tempo para uma auto-análise profunda, para tentar discernir o que é um desafio a superar, no que quero investir, no que quero largar e deixar ir porque cria entropia, nas minhas oportunidades de melhoria e nos pontos fortes que tenho que potencializar. Tem estado aqui tudo, na minha cabeça mas era preciso dizer alto para o tornar real, ter testemunhos para me obrigar ao compromisso, ter apoio de quem confio em que me ajuda a questionar-me ainda mais, a percorrer becos que não arrisco a visitar por negação ou evitação, a encarar falhas, fendas e vulnerabilidades. 

Começámos por ser um grupo informal de sete psicólogos que se juntou por via da internet. Todos a querermos trabalhar melhor e de forma mais eficaz e preparada as emoções das pessoas com quem trabalhamos, a querermos trocar estratégias e ferramentas, a investir na troca e partilha de boas práticas. Eu sabia que queria trabalhar nesta área da dinamização de grupos de auto-ajuda com os pais e as famílias de crianças com deficiência, com pessoas com dores crónicas, orgânicas ou emocionais e com pessoas com dificuldades em conciliar alguma das esferas das suas vidas. Eram estes os três grupos de pessoas com quem eu queria trabalhar, são estas as pessoas para quem acho que posso constituir uma mais-valia e fazer a diferença. Outros dos meus colegas queriam trabalhar com outros grupos vulneráveis: mulheres vítimas de violência doméstica, adolescentes, crianças em risco, pessoas com adições, casais e famílias...

Durante três meses criámos um grupo secreto de partilha no facebook: cada um de nós propôs uma atividade, reflexão, ação para o grupo inteiro preparar, de forma a termos um portfolio de sete exercícios de reflexão para poderem servir de base de trabalho no encontro presencial que, entretanto, se configurava como óbvio. O público-alvo: nós mesmos, trabalharmos os nossos issues, pormos a nú as nossas fragilidades, dar o flanco publicamente perante estranhos (é sempre mais fácil perante estranhos), passarmos por todo o processo porque só desta forma poderíamos criar empatia com quem pudéssemos vir a trabalhar no futuro numa metodologia semelhante, mas apropriada e moldada ao perfil de cada um de nós.

Foi duro. Houve muitos dados de anamnese trabalhados e rimo-nos muito sempre que alguém, com um discurso vencido e conformista, lá dizia que, sim senhor, Freud explica (e explica mesmo muitas coisas). 

"Organização só no meu pensamento e nas minhas emoções: sinto que sou boa nisto do sentir e do pensar, mas extremamente caótica na parte do concretizar." Pois que sim. Mas venho muito mais arrumada por dentro, destralhei issues, deitei irremediavelmente fora tantas coisas que estavam cheia de pó e bolor na minha vida, que eu já nunca mais iria usar, que só estavam a ocupar espaço e a estorvar a circulação. Pessoas também, as tóxicas, as que não acrescentam, as que não ajudam e só atrapalham. Trago planos escritos, em papel, tornados concretos e com prazos escritos também para agir, tratar de coisas, concretizar planos, sonhos, desejos, tentar mudar sem medo, tentar não ter medo de mudar por respeito ao passado que passou, deitar abaixo paredes velhas e pedir ajuda para remover os escombros, construir de novo, arriscar em novos planos e pedir ajuda, aquilo em que eu sou melhor quando se trata para os outros e pior no que a mim própria diz respeito.

Em Outubro porei em prática tantas coisas que aprendi, vivi e acredito que poderão ajudar outras pessoas no primeiro retiro "Sentir, pensar, agir" com pais e cuidadores de pessoas com deficiência. Estou entusiasmada e expectante que venham esses dias.
Entretanto vou por um x na extensa lista de "to do" que trago para mim mesma. Com espírito de compromisso e responsabilidade. E com o suporte de seis pessoas que se juntaram ao acaso e que partilharam cinco dias de vida intensos e inesquecíveis. O grupo continuará no facebook e talvez para o próximo ano faremos uma segunda edição, como aqueles grupos de ex-combatentes do Ultramar que se juntam uma vez por ano para lembrarem tempos difíceis de guerra em tempos de paz. Nós também mas cá dentro. Houve revolução em cada um de nós.  

Antes de voltar a casa passei por uma florista e trouxe um ramo de malmequeres. Desta vez, apesar de brancos, cravos encarnados em mim.

[Em Setembro uma colega do grupo dinamizará seu primeiro projecto de grupo de auto-ajuda em contexto residencial (concordámos todos que a palavra retiro tem uma carga que não queremos dar a isto). Será destinado a pessoas que se sentem assoberbadas e em processo de quase burn-out. Interessados podem enviar um email para quadripolaridades@hotmail.com que reencaminho. Eu, para já, tenho em vista o feriado grande de Outubro para preparar o melhor fim-de-semana possível para um grupo de cuidadores que precisa de ser cuidado.]

[De resto, nada temais. Não venho zen-parva nem com clichés e a achar que descobri a luz. E continua a acreditar no poder curativo de um bom palavrão].

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Todos nós podemos ter Bourdain na voz



As pessoas acham que conhecem as pessoas. Cruzam-se com elas, tomam café, às vezes ouvem-nas com ouvidos de escutar, seguem a sua vida, correm e cumprem horários, picam pontos, suspiram nas filas de trânsito mas as pessoas conhecem muito pouco as outras pessoas, embora jurem que as conhecem. 

As pessoas fazem associações diretas, usam mecanismos de poupança cognitiva: é popular é feliz, tem energia é ativo, comunica bem é extrovertido, gosta de comer e beber é um bon vivant.

Se há um ano, casa nova acabada de comprar, trabalho que me realizava milhões, marido espetacular e filha feliz e saudável me dissessem que passado um ano, sem quase nada mudar para além de um mísero músculo, eu estaria a bater no fundo, rir-me-ia alto e a bom som.

Eu sou a pessoa que faz rir, a bem disposta, a que faz o quebra-gelo num grupo de estranhos, a extrovertida, a cheia de lata, a optimista, a de bem com a vida. Não é fabricado nem ensaiado: esta sou eu sempre. Ou na maioria das vezes.  Sempre fui, faz parte da minha essência. 

Um dia, em Novembro, sei agora precisamente o dia e o momento, o meu músculo piramidal saiu do sítio. Foi num sábado. Na segunda não conseguia andar e pedi à minha amiga enfermeira que me desse uma injecção de Relmus com Voltaren. Fui trabalhar cheia de dores mas a tentar ignorá-las: eu não sou a pessoa que cede a dores de corpo. Nessa mesma semana, viajei em trabalho até Estocolmo e as dificuldades de locomoção eram cada vez mais e maiores. Culpei o cabrão do frio, lá está, e os suecos e as almôndegas do IKEA, que se é para culpar, culpa-se com dignidade. 

Dezembro foi todo com dores, o Natal cá em casa com prendas compradas à pressão porque andar mais de cinquenta metros no shopping era uma tortura e quando a passagem de ano chegou, decidi ficar em casa, sentadinha sem sair do lugar a jogar jogos de tabuleiro. Era a perna, eram as costas, era tudo, as dores não melhoravam. 

"O que vale é que nunca te falta a boa disposição!"- diziam-me as pessoas, como se a minha essência fosse automaticamente prevalecer sobre a minha energia, o meu estado anímico, as dores reais no corpo, na matéria, nos ossos da anca, na lombar onde eu carregava o peso das costas vergadas, nos glúteos que doíam de forma agoniante, na perna que não cumpria a sua função. 

"Ah, já passaste por bem pior e passou, tens é que ter paciência e ânimo que isso se vai resolver"! Vais ver!" - Não via. Não se estava a resolver. Não se descobria a causa da dor. O neurocirurgião descobriu uma hérnia mas a descrição das dores não se podia dever a isso. A cirurgia não iria resolver o problema, que ele não sabia de onde vinha, só sabia de onde não vinha e não era da poda dele. Deu-me alta, com as mesmas dores, as dores a piorarem, as insónias a sucederem-se, a privação de sono porque virar-me na cama era espetar facas no glúteo, mexer-me era queimarem-me a coxa. 

Mudei de especialidade. O ortopedista que me dizia que percebia era de joelhos, encaminhou-me para o outro que era especialista em pés e já, se sabe, aquilo não era dos pés nem dos joelhos e o terceiro, numa consulta épica, olhou para um raio-x e gabou-me os ossos da anca: alinhadíssimos e perfeitos. Deu-me alta. Deram-me todos. Um a um, como quem decompõe o meu corpo em bocados e analisa pequeno orgão a orgão, função a função, esquecendo-se que o todo é mais que a soma das partes. A esta altura eu vivia em agonia. Não dormia com dores, não falava com dores, não tinha paciência para interagir com dores, não fazia nada em casa com dores. Acordava com um único objectivo: encontrar uma posição minimamente não-invasiva que me permitisse sobreviver mais um dia, sem me apetecer bater com a cabeça nas paredes e querer desaparecer. 

A esta altura as pessoas não me viam, por isso, não diziam aquelas coisas parvas que dizem as pessoas que acham que conhecem as pessoas, que eu tenho boa disposição, e que vai passar, e que já lidei com pior e sobrevivi e o caralhinho com toda a gente: eu estava a agonizar de dores. O meu marido não dormia porque eu tinha dois estados nocturnos: ou chorava com dores ou pedia mais um medicamente para S.O.S., um copo de água, uma massagem para aliviar a dor ou um abraço para poder chorar no colo dele sem vergonhas.Sempre baixinho, para não acordar a Ana. 


Não queria preocupar a minha mãe, que me dizia aquelas coisas que as mães dizem quando estão cheias de miaúfa mas não podem mostrar o flanco aos filhos: "Vá, endireita-te!", "Procura outro médico!", "Não te podes entregar a essa dor: tenta andar, tenta contrariar, vai ao fisioterapeuta, ao osteopata, à acupuntura, ao fisiatra!". E eu não dizia nada, que às mães não podemos dizer que não nos conhecem bem, a minha conhece e sabe que eu costumo reagir a esses "Call to action" mas agora era diferente.

Agora eu voltava, um dia, da neurologista que me respondeu que, na ausência de uma resposta conclusiva, eu teria dor neuropática e que teria que me acostumar à ideia, que iria ser sempre assim, uns comprimidos até ao resto da vida e a assimilação de que ficaria com menos mobilidade de forma progressiva. Agora eu chegava a casa a chorar e a minha mãe não sabia o que mais me dizer (disse mal da médica, o que ajuda sempre, a minha mãe é muito boa nas soluções de alívio paradoxais!), agora eu estava apática, agora eu estava parada, agora ela não sabia quem era aquela parte de mim. Nem eu. 

A minha filha começou a somatizar. Saía para a escola de manhã e eu estava a dormir, só conseguia encontrar uma posição e adormecer já de madrugada, o meu marido não me acordava para o ajudar nas manhãs, levava-a sempre a dar-me um beijo de leve, para não me acordar e eu sentia-o e sorria sem abrir os olhos. Voltava da escola e eu estava deitada no sofá, olhos inchados de chorar, olhar perdido de quem não sabe para onde vai, desconsolo de quem não encontra alternativas, se quem não se reconhece naquela carcaça dorida e apática, desanimada e em agonia física. Tentava mostrar-me igual mas ninguém nos conhece melhor que os nossos filhos, que nos conhecem de dentro, do tintino e da intuição. A meio do período a educadora enviou-me um email: a Ana andava triste e cabisbaixa, passara a desenhar-me sempre de cama e num período em que o tema das emoções fora o escolhido, lá vinha à baila o que os fazia tristes, felizes, zangados. As respostas da Ana giravam sempre à volta do mesmo: o que a fazia triste era a mãe estar doente, o que fazia feliz era a mãe não ter dores, o que preocupava era a mãe não poder voltar a andar, o que a frustrava era a mãe não lhe poder dar a mão por causa das canadianas e o que a zangava era os médicos não curarem a perna da mãe. Nós já suspeitávamos, conhecemos bem a nossa filha, mas, por outro lado, ninguém com dor crónica e sem encontrar medicação adequada consegue manter uma fachada para proteger os filhos. Nem eu, que sempre fui a pessoa que faz rir, a bem disposta, a que faz o quebra-gelo num grupo de estranhos, a extrovertida, a cheia de lata, a optimista, a de bem com a vida. Nem eu, que sempre fui a mãe optimista e energética, hiperactiva e feliz só por ela existir. 

Era tudo duro demais e agora ainda mais, com a Ana a sentir-se assim, a querer parentificar-se, aos 5 anos, a perguntar se quero que o pai traga o comprimido y ou a cápsula z enquanto ela traz o copo de água, a fazer-me cafuné e a beijar-me: “já vai passar, mamã!”

Veio a culpa de estar doente e a frustração de não ser a mãe ágil, saudável e enérgica que os 5 anos da Ana precisam. O meu marido estava exausto. A minha mãe estava perdida e confusa, sem saber o que fazer. A minha filha profundamente preocupada e triste Não atendia as chamadas dos meus amigos. Não abria janelas de chat no facebook. Não me apeteciam visitas nem socializar. Sair à rua era um suplício dantesco. Um dia, dei por mim a pensar que se eu morresse seria um alívio para mim, que viver assim sempre com dores e agonia era uma merda, que viver assim sem ser uma mais valia para a minha família, a dar trabalho, a provocar preocupação e angústia, a não corresponder aos requisitos de mãe que a minha filha merece. 

Procurei ajuda. Para as dores de corpo e de alma. 

Ainda não estou boa mas estou sem dores. Pelo menos de corpo (as de alma estão a acompanhar, devagarinho, as pequenas conquistas: largar as canadianas de vez e poder voltar a andar de mãos dadas com o meu marido, conseguir estar sentada e suportar o peso da minha filha num abraço no meu colo, dormir uma noite inteira sem dores). 

Valeu-me uma médica de Medicina interna, aquela especialidade que não goza de nenhum status quo, sem o ego boost dos neurocirurgiões que me foram dando alta e nunca me mandaram despir para ver onde era a dor, chegava a ressonância magnética e a TAC, não carece de se deitar na marquesa; sem a especialidade da especialidade dos ortopedistas que só percebem de ossos, ou joelhos ou ancas e que nunca me mandaram despir para ver onde era a dor, chega o raio x e a ecografia, apalpar a zona para quê, perguntou-me um deles,meio ofendido. Uma médica de Medicina interna que me ouviu, perguntou, deixou eu explicar, tratou das dores para eu poder sossegar e tratar do diagnóstico, reencaminhou-me para uma médica de medicina física e reabilitação que me viu de lágrimas nos olhos quando a primeira coisa que me sugeriu foi que me deitasse na marquesa para ela poder olhar o meu corpo, tocar nos músculos, nos ossos, na pele e na carne, procurar- finalmente- a dor!

Ainda não estou boa mas estou no processo de encontrar e resolver a causa, com um exame e um procedimento clínico específico, assim o SNS me encurte o tempo de espera. Ainda ando a medicação cavalar, os sonos ainda se trocam, às vezes fico desmemoriada e com menos rapidez de raciocínio. As curas têm efeitos colaterais. 
No caminho, um rasto de destruição: a dor continuada (ou crónica, como a queiram chamar) mata por dentro, dá cabo da cabeça, da energia. do estado anímico, da boa disposição e do optimismo, corrói a essência como traças na roupa, deixa-nos com buracos por dentro, vazios e ocos. E eu também. E a mim também. 

Agora estou a tratar de mim por dentro da matéria. Porque, no meu caso, a dor orgânica contagiou a dor na alma, na cabeça, nas emoções. Deixou-me de rastos e uma sombra da pessoa que, há um ano, se riria se lhe dissessem que estaria com sintomas depressivos. Eu não era uma pessoa com esse perfil. A mim nunca me faltava a boa disposição. Já tinha passado por pior, e tinha sempre sobrevivido. 

Na maioria das vezes somos os piores inquilinos das nossas próprias casas: somos exímios em tratar da fachada, pintamo-la para que a casa fique bonita para quem passe: abrimos as janelas, sacudimos os tapetes, a seguir tratamos de estender a roupa no estendal, pôr as peças brancas a corar, deixar o sol entrar por todo o lado. Lá dentro limpamos o pó, varremos e passamos uma esfregona. Se alguma coisa se estraga mandamo-la consertar na medida da importância da funcionalidade ou do incomodo que o estrago nos causa. O mesmo connosco: tratamos mais depressa uma dor de dentes aguda ou uma gripe que até é viral e sabemos que passados x dias passa que uma tristeza e uma melancolia que se pode arrastar anos, como uma pequena cárie emocional que devagarinho vai apodrecendo ou tornando oco o sentir.

Não queremos saber, evitamos pensar nisso, não priorizamos, não é urgente, deixamos para depois, quase sempre para quando um abcesso feio não nos deixa dormir e já não há nada a fazer ao dente senão arrancá-lo. O problema é que a alma, as emoções não se podem arrancar e colocar implantes ou próteses nos seus lugares. Tal como numa casa em que deixamos tudo num brinco mas nunca conseguimos dedicar tempo ao que está dentro dos armários, a arrumar as gavetas, a imprimir as fotografias em vez de as deixar reféns nos pcs, a organizar o que está “escondido” dentro de portas ou debaixo do tapete.

Achamos que uma dor de estômago é mais importante que uma dor de alma,
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