Todas as crianças crescem e desenvolvem-se através dos sentidos. Há muitas coisas que ainda hoje me são difíceis de concretizar porque tive uma infância praticamente imobilizada, entre camas de hospital, macas de reabilitação, cadeiras de rodas e standing frames.
Não tenho qualquer auto-comiseração até porque desenvolvi muitas outras competências e uma resiliência que me é muito útil no meu dia-a-dia mas, por exemplo, nunca gatinhei. Gatinhar, para quem não sabe, é essencial enquanto experiência primária das crianças explorarem a noção de espaço, o esquema corporal, noções de lateralidade, orientação espacial, pensamento abstracto. Não aconteceu comigo como não acontece com nenhuma criança com problemas de mobilidade.
Também nunca andei de skate, trotinete ou patins. Aprendi à força da casmurrice da minha mãe a andar de bicicleta, contra todas as expectativas, e à força da minha casmurrice a fazer o pino de cabeça. Isso alterou muita da minha cognição, essa questão da mobilidade condicionada.
Percebo-o hoje enquanto vejo a Ana fazer tantas coisas com as suas pernas e com o seu corpo, de forma instintiva, apoiada e incentivada na maioria das vezes pela minha mãe,que vive agora também pela primeira vez uma “maternidade projectada” dita “normal”. É uma emoção e uma novidade para ambas: para mim e para a minha mãe. Para o pai não, é um dado adquirido, uma normalidade confortante.
O sistema vestibular é o conjunto de órgãos do ouvido interno dos vertebrados responsáveis pela detecção de movimentos do corpo, que contribui para a manutenção do equilíbrio.
Embora crianças com Spina Bífida tenham estes órgãos intactos a sua lesao vertebro medular não lhes dá resposta. Crianças cadeirantes não giram sobre o próprio corpo, não sobem as árvores, nao saltam nem sentem o vento enquanto correm, não fazem o pino, andam de patins ou trotineta nem sentem esta maravilhosa experiência que é o movimento e a velocidade.
Quando pedi de prenda de aniversário um montante relativamente alto para custear a diária do aluguer de um autocarro adaptado que levasse as crianças do campo de treino ao único parque infantil do país, o Parque Raró era apenas com o desejo de ver neles o brilho nos olhos que todos os dias vejo na minha filha.
A três dias do meu aniversário... obrigada a todos!
Conseguiram agora pintar esse brilho nos meus!
Muito, muito obrigada


Sem comentários:
Enviar um comentário