As fajãs são línguas de terra que beijam, à francesa, o mar. São pornograficas de lindas e todas incomparáveis.
Em São Jorge- a ilha escarparda e difícil- nenhuma compete em beleza com as outras.
Cada pessoa tem a sua preferida mas essa é uma questão muito intimista.
As mais conhecidas são a fajã de Santo Cristo (Caldeira) e a dos Cubres mas eu sou do contra e a minha preferida é a das almas. O caminho para lá chegar é de difícil acesso e enquanto descemos a rocha sentimos uma sensação de montanha russa. Mas vale a pena. Oh, se vale!
Na fajã das Almas apanhamos bananas directamente das árvores e ele colheu araçais para nos fazer com leite, de manhã ao acordar. Miúdos e graúdos vão ao banho sem discriminação e enquanto crianças apanham búzios para fazer colares, os adultos jogam à marralhinha. O rezingão dono do bar odeia-nos a todos mas enquanto atirar peixe fresco para o carvão e fizer alcatra de polvo, tudo lhe é perdoado.
Na fajá das Almas podemos ser sereias, piratas ou dolentes lagartixas ao sol, corpo aquecido pelo basalto quente como um cafuné açoriano.
Na fajã das Almas os olhos perdem-se na infinitude do mar, o som dos cagarros embala-nos a memória, o cheiro a maresia conforta-nos os sentidos e o calor do sol beija-nos a pele, salgada, à espera de beijos reais.
Todos os sentidos em sentido nesta fajã.
Não é das Almas por acaso. Não é mesmo. Digo em voz alta para lhe sentir a poesia: fajã das Almas.

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