Trabalho em intervenção social. Nunca pensei que a maioria dos meus clientes fossem emigrantes mas aconteceu.
Chegam na maioria dos PALOPs com vistos de turista, sempre a mãe com o filho doente, às costas em panos, e sem esperança de vida no país de origem, olhos assustados, língua que não dominam e o único desejo de que alguém dê importância às suas crianças.
Assistimos a tudo: redes ilegais que trazem estas mães desesperadas e bebés para Portugal e depois as enfiam em t2 de subúrbios com outras 15 semelhantes, sem água nem luz, a dormirem em esteiras em chãos frios em invernos que lhes são apresentados pela primeira vez, dificuldades no acesso a práticas clínicas imprescindíveis, discriminação e xenofobia por parte de pessoal clínico, tratamento desumano e resistência passiva na prestação de cuidados de saúde inadiáveis.
A estas mães, que deixam marido e outros filhos nos países de origem, não interessa Portugal sobremaneira: interessa que os filhos sobrevivam.
Crianças como a minha e as vossas mas que tiveram a pouca sorte de nascerem com uma deficiência no país errado. Outro dia uma mãe disse-me que teve que se agachar e parir na rua em Bissau porque na única maternidade cada cama já era partilhada por 2 parturientes e não havia vaga para ela parir com o mínimo de segurança o seu bebê que nasceu com uma deficiência. Veio para Portugal e tem sido tratada sempre com desconfiança e resistência.
Ela não quer muito deste país, ela só quer pedir ajuda para não lhe morrer o filho da mesma forma como nasceu: à beira da sarjeta.
Não é um desejo humano? Óbvio é legítimo?
É imperativo estudar-se e trazer-se à luz do dia estas temáticas da emigração e no preconceito subtil e flagrante a que estas mães e estes filhos são vetados, todos os dias, em Portugal. Mães que “pecam” por defenderem as suas crias para além das fronteiras e longe das sarjetas.
Por isso, não me venham com merdas!
A Le Pen terá direito à sua liberdade de expressão e nós temos o direito de nos expressar também e exigir que Portugal não dê palco a discursos de ódio e intolerância.
É que infelizmente- comprovo-o na minha prática profissional- já cá temos disso que chegue.
Sem comentários:
Enviar um comentário