Eu digo meio a brincar meio a sério que os açorianos podiam ser auto-suficientes.
Esta terra é abençoada e entre rocha vulcânica e mar salgado aqui cresce, milagrosamente, tudo o que se planta: goiabas, bananas, ananás, maracujás, ervas várias, planta do tabaco, chá e café...
A fajã dos vimes já é famosa à custa deste milagre da natureza. Nas traseiras de um café not trendy meio tasca meio taberna, meio café de aldeia com paredes de mosaicos e rodapés forrados a notas de dólares deixadas por emigrantes da Califórnia há 700 pés de café. Sim, 700. Fazendo desta fajã o único local da Europa onde cresce café. E é adocicado e perfumado como são as coisas inusitadas da vida.
Bebemos um sem pressas acompanhados de uma queijada de café. A mulher do dono convida a Ana a ver o cafezal e pega-a ao colo para ela poder colher um grão da árvore. Está deslumbrada. Nos Açores tem aprendido muito sobre a natureza e a fertilidade dos chãos, os animais e as nuvens que anunciam a meteorologia conforme se encavalitam no pico do Pico. A senhora ri-se da perspinetice da miúda que, nestas férias, tem andado solta, desbocada, irrequieta e feliz. Livre. Promete-nos um saco de figos assim que ficarem mais maduros que chegarão mais tarde pelas mãos do meu sogro. Convida-me a visitar o seu atelier onde aos fins de tarde tece toda a geração de mulheres mais velhas da sua família. Deslumbramo-nos com as cores das colchas e dos tapetes e eu prometo a mim mesma que um dia aqui virei comprar um.
Despedimo-nos e vamos a pé até à igreja da fajã, aberta para quem quiser visitar onde, em família, contemplamos a beleza do altar. No adro a Ana encontra um terço lindo, feito de osso de baleia, no chão. Sente-se especial numa superstição só dela e guarda-o no bolso junto com os grãos de café que, sem ninguém ver e enquanto contemplávamos os teares, voltou atrás para surripilhar do chão. Doce pecado este, de roubar grãos de café abençoados por terços antigos encontrados ao acaso feitos de ossos de baleia.
Quem disse que a fé e o leve pecado não podem cheirar em uníssono a café é porque nunca conheceu a Ana de olhos cor de oceano Atlantico nem nunca foi feliz na fajã dos Vimes, em São Jorge. Açores.

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