quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Odeio o Halloween e outras subtilezas que tal com o hashatg #teampãopordeus



Odeio o Halloween. Pronto, já disse. E odeio não pelo que ele representa isoladamente mas pelo facto dele, a pouco e pouco, ter vindo tomar o lugar do pão por Deus. 

Deixem-me explicar: no ano passado estava em Paris, na Eurodisney, por esta altura. Maravilhoso o Halloween no estrangeiro como experiência de uma comemoração pagã diferente cheia de rituais engraçados e que leva os miúdos à euforia. Gostei. A sério, que gostei. Como gostaria de viver um Thanksgiven nos States, a dar a mão a amigos à volta da mesa e a mostrar-me grata pelas coisas fixes da minha vida.

E vá, até gostava de viver ambas em Portugal em festas temáticas, de forma isolada, pelo que representam nos países de origem, junto de comunidades desses países radicadas em Portugal e tudo e tudo (hey, Tehur: esta dica é para ti! Quero thanksgivar na tua casa este ano, tá?). 

O que me encuca é começarmos a permitir que estas comemorações importadas comecem a substituir outras que já existem, estão enraizadas e estão contextualizada na história e na cultura do meu país. 

Ora, eu fui ao Pão por Deus até já usar soutien e ter maminhas e já ser um bocado ridículo andar ao Pão por Deus. Onde sempre vivi, uma pequena aldeia saloia de Cascais, o Pão por Deus é tão enraizado quanto o Natal: no dia 1 de Novembro levantamo-nos cedinho, juntamo-nos a um ou dois amigos (não mais porque senão calha menos a cada um), agarramos num saco e num porta moedas e cá vai disto. Começamos pelas portas das vizinhas "Pão por Deus! Pão por Deeeus!" e ensacamos os primeiros doces, seguimos pela estrada até ao largo, no caminho se nos cruzarmos com adultos transeuntes gritamos "Pão por Deuuuus!" aos seus ouvidos até que, desprevenidos, nos saquem de uma moeda que enfiamos no porta-moedas, no largo entramos em todos os estabelecimentos comerciais (já se sabe quais são os cafés ranhosos que não dão e boicotamo-los o ano inteiro só por causa desta forretice diabética neste dia!) e adivinhamos de cor que no Cantinho do Morais nos dão pastilhas, no Safari é sempre chupas, na mercearia João Aires é sempre um sortido e que, mais à frente, na Ferradura são frutos secos. E continuamos, com ritmo e energia porque assim que tocar a sirene dos bombeiros ao meio-dia é altura de recolher a casa e contar os dividendos do dia.
E há de tudo no saco peganhento ao fim da manhã: rebuçados, chupas, castanhas, figos passados, beijinhos, maçãs, rebuçados, gomas, nozes e marshmallows: é a loucura! E depois contamos as moedas para as guardarmos no mealheiro à espera da oportunidade de se transformarem num brinquedo. É mágico e peganhento: uma espécie de treino para o Natal mas com mais socialização à mistura e doces fixes que nenhuma criança que se preze curte sobremaneira bolo-rei. 

Acontece que agora não sou a filha, sou a mãe. E desde que a Ana nasceu que vou com ela ao Pão por Deus, coisa boa. Os mesmos estabelecimentos comerciais a quererem preservar a tradição (dica para quem é de cá da terra: até a loja de animais dá amostras de ração para os vossos animais de estimação de pão por Deus, pá!)  mas as pessoas singulares a encolherem-se. Muitas não abrem a porta, outras transeuntes que passam e que não são da terra mas que vieram para cá viver recentemente que não sabem do que se trata (nem querem saber) e que respondem infâmias como "o Halloween foi ontem à noite!", e só não há meia dúzia de doces no saco da pequena porque eu tenho um roteiro fixado e vou com ela pedir às amigas da minha mãe, às senhoras antigas cá da terra e por aí fora. Mas já ninguém oferece os figos passados que eram o elemento principal para o saco ficar melado, o que me deixa um pouco nostálgica. 

Entretanto o Ana sempre frequentou uma escola católica e safámo-nos nos primeiros anos ao Halloween. Mas desde o ano passado que tivemos que entregar o corpo às balas, com muitos palavrões mentais à mistura. Imaginem que este ano até tivemos que fazer uma abóbora em família (claro que ficou assustadora como ficam, aliás, todas as manualidades em que participo para além destas do Halloween, ora espreitem aqui neste link do instagram deste blog).  São facadas para mim, senhores: facadas!

Mas as coisas não têm que ser mutuamente exclusivas, vocês por Deus, não me desgostem mais. Comprem gomas em forma de abóbora mas não se esqueçam dos figos passados!

Portanto hoje à noite faremos uma festa na garagem para as amigas Halloween-fãs (alguém me passa um x-acto?) mas amanhã de manhã, a miúda levanta-se da cama cedinho, agarra no novo taleigo que todos os anos recebe da avó dos Açores via correio e lá vai ela pela aldeia: "Pão por Deeeeus!", "Pão por Deeeus!". 

Fiquem a saber que rogo pragas a quem não lhe der uma moeda ou um doce. E não é uma praga católica à Pão por Deus, é uma demoníaca imbuída no espírito de Halloween contrariado da véspera. 

Agradecida. 

domingo, 21 de outubro de 2018

Perna de pau



Foi assim durante 4 anos. O Rui Monteiro inventou o mimo: "perna de pau". Apontava para as minhas botas ortopédicas, aparelhos de ferro até aos joelhos, presilha de velcro a prender as talas e gritava "perna de pau! perna de pau!".
Havia dias em que me custava ir para a escola, logo a mim, que sempre adorei estudar. Havia dias em que não me apetecia sair para o recreio, logo a mim, que sempre fui sociável e popular, brincalhona e gaiteira. Havia dias em que tinha saudades da escola do hospital, com a educadora Fernanda e outros meninos a terem aulas deitados em macas, todos em reabilitação naquele Alcoitão.
Sempre que, em convalescença de uma das inúmeras cirurgias o absentismo me tocava à porta meses seguidos, suspirava por voltar para junto da professora Emília e das minhas melhores amigas Joana e Sofia. Tinha também saudades do Hugo, minha paixoneta e do Bruno que batia em toda a gente que se metesse comigo. E voltava feliz com as conquistas físicas que a minha ausência me recompensava e com a possibilidade de voltar ao lugar onde pertencia. Mas, dias depois, a vontade morria com o eco das palavras gritadas no recreio "perna de pau! perna de pau!"
Nunca me importei com a minha diferença. Nascer e crescer com uma deficiência física nunca me perturbou. A minha realidade, desde sempre, era aquela, o meu conceito de "normalidade" era aquele, estava bem, tranquila, em paz com quem era, como era e como me sentia acerca disso. Aparentemente, só o Rui Monteiro se importava com a minha diferença, gritando alto aquele "perna de pau" todos os intervalos, todos os dias, todos os anos lectivos. Eu fingia não me importar, nunca verbalizei o quanto acreditava que aquela maldade intencional é que me fazia diferente, aquelas palavras a ecoarem no intervalo, a entrarem nos ouvidos dos outros meninos em jeito de um: "reparem, reparem, ela tem botas ortopédicas e anda de forma diferente!". 
Não era eu que me sentia diferente, era o Rui Monteiro que fazia questão que eu me sentisse. Não eram as minhas pernas encarceradas naquelas botas, magoadas pelos vincos dos aparelhos de ferro que me lembravam da minha diferença, era a voz cantada em jeito trocista daquele rapazinho, franzino e inseguro, que me usava como bode expiatório para desviar as atenções da sua gaguez, da sua dislexia, das suas dificuldades de aprendizagem, da sua própria diferença. 
Passei os quatro primeiros anos de escola sem tocar num gelado "perna de pau". 
Eu não tinha qualquer problema com a minha diferença, eu acreditava no poder da diversidade, eu era bem sucedida nas aulas, uma das melhores alunas da professora Emília, tinha a Joana e a Sofia para brincar nos recreios e o Bruno a dar sovas a todos os que não me queriam incluir a jogar "ao mata", Rui Monteiro incluído. Mas, ainda assim, havia dias em que me apetecia ficar em casa, aninhada no colo do meu avô, a comer o pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão da minha avó. 
O problema nunca foi meu: era dele, do Rui Monteiro. Um dia percebi isso. Era Verão e estávamos nas férias grandes e na colónia de férias a Guida pediu-me que segurasse no seu gelado enquanto apertava os ténis. O Perna de Pau derretia e ela gritou-me que o impedisse: provei o gelado! Oh céus, o que andava a perder nos últimos 4 anos, eu, que era uma boa menina, que merecia coisas boas, era eu que perdia a alegria de ir para a escola, a deleite de comer perna de paus, a felicidade de crescer sem fantasmas. Era eu, que não tinha qualquer problema com a minha diferença, que estava a perder. 
O Rui Monteiro lá continuava, cheio de problemas acerca das minhas pernas, a verbalizar isso com ofensas, a correr feliz no recreio, a jogar futebol, a assobiar no caminho para a escola, a comer perna de paus. Não era justo. Nesse dia, percebi isso. 
Desejei regressar à escola rápido, mostrar que não fazia mal, que as minhas pernas não eram bonitas mas que andavam e me levavam para tantos sítios, que as minhas botas eram bastante mais feias que os sapatos de verniz da Cátia mas que, ainda assim, me permitiam dançar, que se a minha diferença não me afectava, não me condicionava, não era mais forte que eu, logo, nenhuma voz maldosa o poderia ser. 
O Rui Monteiro avistou-me, naquele primeiro dia de aulas da quarta classe, "Perna de Pau! Perna de Pau!" Sorri, vitoriosa, olhando-o bem fundo nos olhos! Já não me sentia envergonhada, já não temia ouvir em voz alta o mimo, já não lhe dava qualquer poder sobre mim. Tinha 9 anos e foi, esse dia comum de escola, um dos mais importantes da minha vida.
Eu tinha provado o gelado. E nunca mais abriria mão de me deliciar em dias quentes de Verão com aquele sabor de nata e morango com aquela pequena folha de chocolate por cima só para desenjoar. Eu sabia quem era, assumia a minha diferença e escolhia viver bem com ela. Quando me chamou de perna de pau, nesse dia, senti-o como um elogio, de frescura e sabor: era a minha mente que mandava em mim,  no que sentia, não a voz maldosa do Rui Monteiro. 
Hoje, 25 anos depois, coordeno um projecto de combate ao bullying em crianças com deficiência e hoje, dia internacional da pessoa com deficiência, coordenei uma actividade com 100 crianças da mesma idade que eu e o Rui Monteiro tinhamos naquela altura, falei sobre diferenças mas, acima de tudo, sobre semelhanças, celebrei a diversidade e preconizei aquilo em que mais acredito: todos diferentes e não todos iguais: todos diferentes e ainda bem! Porque ser diferente é ser único e isso é o que torna, cada um de nós, especial. 
Assumir quem somos sem medo de ser único e diferente e fazer disso uma bandeira, a bandeira da diversidade. A minha desenho-a de cor branca, encarnada e um bocadinho de castanho. Da cor dos pernas de paus que deixei por comer naqueles quase quatro anos da minha infância, da cor do perna de pau que a Guida me passou para a mão para eu lhe segurar enquanto apertava os atacadores, da cor das meias que calçava debaixo das botas, nos vincos que os aparelhos me causavam e do couro das botas ortopédicas que me ajudaram a que hoje corra o Mundo pelos meus próprios pés. A que viva, segura, condicionando a MINHA acção e a MINHA vida pela MINHA realidade, não pela opinião dos outros.
Obrigada, Rui Monteiro: não imaginas o quanto fizeste por mim!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Artur (37)




Conheci-o no dia da festa pública do primeiro aniversário da Ana: a ele e a toda a família- e não são poucos- loucos o suficiente para se enfiarem os seis num dia de calor extremo e virem dar-me um beijo a Lisboa directamente vindos de Tavira.

Nunca mais me esqueci.

A mãe- a Fátima- é uma mulher ímpar: mãe de (agora) cinco filhos, educa-os com o mesmo rigor, exigência, cuidado, disciplina e amor desde o mais velho- este Artur- ao mais pequeno Valentim, com um ano acabado de completar. E é um exemplo de educadora, o que se reflecte em todos eles mas hoje o post é para o Artur, o meu "sobrinho" chef, afoito e corajoso, destemido e criativo, bravo e rigoroso.

O Artur começou a interessar-se por cozinha no secundário, tendo concluído o Curso de Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, ao qual se seguiu um primeiro estágio curricular em grande, no The Oitavos na Quinta da Marinha como parte da equipa do então Chef  Pasteleiro Joaquim Sousa (o Chef que criou aquela sobremesa da flor negra que abria no prato e correu todos os facebooks, instagrams e masterchefs deste Mundo). 

Em 2014 acabou  o Curso e entrou no Belcanto do José Avillez onde estagiou  durante 3 meses, seguindo-se de um estágio no El Celler de Can Roca em Girona, que tem 3 estrelas Michelin e era naquele ano o “Melhor Restaurante do Mundo” pela 50 Best Restaurant. 

Foi aqui que começou a entrar mais na parte "salgada" da cozinha e trabalhou em quase todas as secções do restaurante incluindo o Laboratório. Regressou a Portugal e em 2015 foi pela primeira vez até Copenhaga para experimentar uma semana intensiva no Relae, e onde, mesmo em tão curto espaço de tempo,  despertou para a importância da origem do produto, a sua caminhada até chegar ao restaurante, à sustentabilidade e ao “foraging” (consiste em recolher plantas, ervas, frutas, cogumelos selvagens).



Claro que nem tudo são rosas, ou não fosse isto a vida, e foi também neste ano que teve uma experiência péssima que quase o fez desistir desta área e onde o chefe queria servir lavagante com 3 dias de cozido e onde não havia qualquer sentido de hospitalidade, respeito pelos ingredientes e sobretudo, respeito pelos clientes. Este episódio afectou bastante o Artur, um tipo franzino e sério, sem tempo a perder e em 2016 pensou como alternativa o ensino, tendo começado a dar aulas na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro. No entanto, Artur é "hands on", não é galinha de capoeira, é de campo e das bravas e logo, logo, começou a trabalhar no Restaurante Vistas no Monte Rei Golf & Country Club, tendo na sequência desta colaboração sido seleccionado para a final ibérica do San Pellegrino Young Chef of the Year 2018, que reuniu os 10 melhores jovens cozinheiros de Portugal e Espanha (com a participação de apenas dois portugueses). 

Rumou novamente à capital, o Artur intrépido, tendo ajudado a abrir a Confraria do Polvo, que aqui recomendei e cuja colaboração ter-se-ia mantido se não tivesse sido chamado pelo Noma, o melhor restaurante do Mundo, onde se encontra a estagiar há quatro meses. 

Durante os 2 primeiros meses esteve na produção e em algumas das estações a ajudar no serviço e preparações para serviço, que a vida de cozinheiro não é só glamour.  No entanto, o Artur brilha por onde passa, e no final do segundo mês foi convidado por um dos Sub-Chefs a fazer parte do Laboratório de Fermentação, Investigação e Desenvolvimento e ainda por lá anda, feliz e contente. Neste momento está a desenvolver produtos novos para o Menu de Peixe e Marisco que será servido a partir de 9 de Janeiro de 2019.
Se por um lado assisti orgulhosa e embevecida, como uma tia a sério, ao pulsar do Artur pelas cozinhas deste Mundo, por outro, não vejo a hora dele voltar a Portugal e marcar um jantarinho parolo e saloio à tuga e cozinhar só para mim!

Artur. Nome de Rei. Anotem que ainda vão ouvir falar muito dele.

Julio Isidro é o maior!

Ontem à noite no canal "My cuisine" foi regalar-me a vê-lo a oferecer a uma apresentadora de televisão francesa uma "sandes de coirato"!


Haja hospitalidade!

O segundo dia de missa da Ana# terceiro acto*

Na hora da saudação de paz na missa, as pessoas começam-se a saudar e a cumprimentar e ouço a Ana para os colegas da catequese que se sentaram ao lado:

"A minha mãe diz que não sou obrigada a dar beijinhos!"


[*Ia escrever um post sobre o assunto do dia mas a Ana explica tudo melhor que eu.]

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O segundo dia de missa da Ana# segundo acto

Meto uma moeda no porta-moedas da Ana para ela a poder dar na altura do ofertório.

Aproxima-se o rapazinho com o saco, vejo a Ana abrir o porta-moedas, olha com surpresa para a moeda de um euro, deposita-a pouco convicta no saco,olha para o rapazinho e pergunta:

"Podes dar-me o troco?"

...

...

...

O segundo dia de missa da Ana# primeiro acto



O senhor padre começa a falar para os meninos da catequese em tom pedagógico A dada altura pergunta: - "Quem é o vosso melhor amigo?"


Todos os meninos em coro: "Jesuuuuuuuus. "


Ana numa vozinha esganiçada: "A Biiiiiiiaaaaa!"

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Sexta-feira da terceira semana # 4 e último acto

Ambiente tenso dentro do carro a caminho da escola.

Mámen "tenta desanuviar" e começa a cantarolar:

"É sexta-feira
Yeahhh
Menti à minha mãe a semana inteira
Yeahhhh
Bola amarela não é bom
bom, bom, bom 
Não, não, não, não"




Estou entregue aos bichos.

Sexta-feira da terceira semana #3

A Ana esboça um sorriso entre o nervoso e o desafiante, olho para o mámen com ar de "tu diz qualquer coisa, se faz favor" e ele dirige-se à filha com um:


"Estás-te a rir? Tem cá uma graça! Vê lá se te cai um dentinho..."


Pois

Sexta-feira da terceira semana #2

Eu: "Mas porquê é que te portaste mal na segunda-feira e só me contas hoje? Estás-me a mentir. "

Ana (ofendida)- "Eu não! Só não te contei..."

Eu (a tentar manter o tom pedagógico mas já coiso)- "Oh, Ana: estás a brincar comigo? Não me contaste porquê?"

Ana - "Para teu bem..."

Eu (em choque)- "Para meeeeu bem?"

Ana- "Sim, para teu bem! Ias ficar triste com o meu comportamento cinco dias...

Eu: "E?.."

Ana (mega sorriso): "E? E assim só ficas um..."

Sexta-feira da terceira semana #1

Ana de manhã: "Mãe, que dia é hoje?"

Eu: "Sexta. Porquê?"

Ana (a enrolar): "Ah, esqueci-me de dizer que houve um dia desta semana em que me portei pouco bem."

Eu: "Pouco bem? Pouco bem como?"

Ana: "Assim um bocadinho para o mal..."

Eu: "Ana, não acredito! Em que dia da semana? Ontem?"

Ana: "Ahhhn, não: na segunda-feira."

Eu:" E só me dizes hoje?!"

Ana: Então, hoje é que é  o dia que a professora pinta as bolinhas e as manda para casa...

Querida fada dos dentes




... a miúda fez um ano e nada de dentes. Um ano. Doze meses. Nicles batatóides. De repente, à nossa volta, tooooodas as crianças ostentavam garbosas cremalheiras e a nossa ali estava, de sorriso de velhinha, sem um feijãozinho de dente sequer à espreita. Nós suspirávamos e relevávamos porque a miúda era tão fácil de criar e"a cavalo dado não se olha o dente" e tudo e tudo. 

Catorze meses, na altura em que nós ainda contávamos os meses. Zero dentes. Zerinho. Nem um para salvar a honra da nossa genética. Às escondidas via-o a procurar no google anomalias de dentes em crianças, seres humanos que nasciam sem dentes e outras atrocidades dentárias que tal. 

Dezasseis meses e guess what? Nada. Na-di-nha. As pessoas achavam graça à cara fofa e desdentada da miúda, que já andava e balbuciava algumas palavras, parecendo que tinha um desenvolvimento precoce. Só que não. Não era sobredotada: era subdentada! Isso mesmo: tinha era uns dentes retardados, atrasados, hibernados. Ou melhor, não tinha dentes. Nós ríamos mas eu, na verdade, verdadinha, andava também à sucapa a cirandar pelo Etsy e pela Amazon a tentar descobrir como mandar vir aquelas dentaduras postiças brancas e alvas que usam as meninas do Toddlers and Tiaras que isto há que encarar os problemas de frente e eu estava determinada a encontrar uma solução dentária para a menina, benzáDeus tão perfeitinha, loirinha e de olhos azuis e com este dentó-problema, misericórdia da Nossa Senhora das Cremalheiras. 

Dezoito meses (em linguagem de gente normal: um ano e meio) e ... uma pontinha branca, alva, uma pérola rara na boca da miúda! E no espaço de um mês começaram a romper-lhe dentes na gengiva como cogumelos. Em dois meses tinha um sorriso Colgate maravilhoso e nós suspirámos aliviados pelo milagre bucal. 

Desde então, querida fada dos dentes. temos sido colaborantes contigo. A miúda não come doces (porque não gosta, na verdade, aqui o mérito não é nosso!). Comprámos as pastas de dentes apropriadas para cada idade, as escovas certas e agora a escova eléctrica, ensinámo-la a usar fio dentário e compramos as fisguinhas de cores para a incentivar, até a porra da ampulheta dos dentes com ventosa para se colar no espelho e determinar o tempo que a miúda deve gastar na escovagem dos dentes, até a porra da ampulheta comprámos! 

Vamos à dentista regularmente (beijinhos Dra, Filipa Cordeiro!) e estávamos convictos que, uns dentes pequeninos, bem tratados e fofos que vieram com um ano de atraso tivessem maior tempo de validade, esperando que lá para os dez anos de vida da miúda- a avaliar pelo ritmo dentário- nos deparássemos com a queda do primeiro dente e o nascimento da primeira favola. 

A modos que não, ó senhora dona fada dos dentes! Na semana passada, na cadeira do dentista, apanhou-nos desprevenidos e incautos a Dra. Filipa anunciando que o dente da Ana estava a abanar. Troçámos e rimos, que não, que não, estava a ver mal, os dentes ainda estavam no prazo de validade, não podia ser.  Na-na-ni-na-na-não!

Viemos para casa incrédulos e em negação, excelentíssima senhora dona fada dos dentes, a acreditar que a médica dentista estava a delirar até que ontem, a trincar uma fatia do primeiro bolo de alfarroba que consegui fazer sem saber a papel de música, ali estava ele: o cabrão do dente a vacilar!

E a miúda em euforia porque já deve estar com saudades de ter uma varanda corrida nas gengivas e corrente de ar na boca, afinal já passaram quatro anos anos e meio. Só que não! SÓ passaram quatro anos e meio, tá?

Estúpida fada dos dentes, baza! Está bem que a miúda tem seis anos, está bem que esta é a idade que caem os dentes (devias ter-te lembrado da correlação entre idades e dentes lá pelos sete, oito meses de vida da cria mas está bem, cá te esperamos...), está bem que tooodos os colegas da sala já estão desdentados mas... caraças: ESSES DENTES AINDA SÃO SEMI-NOVOS, ok? SEMI-NOVOS!

Fada dos dentes, por aqui continuamos em negação. Ele diz que o dente abanou porque o bolo de alfarroba estava rijo que nem cornos. Eu digo que ando a ver se descubro onde a minha mãe escondeu os meus dentes metidos naqueles berloquinhos de ouro para ver se to espeto, requentado e desdatado, debaixo da almofada da miúda para veres se nos deixas em paz, tá? Enquanto isso, a miúda anda com os dedos a abanar violentemente aquele dente bebézinho e ingénuo, tadinho. Não se faz! Não há direito!

Vai morrer longe, ó fada dos dentes! Morrer lon-ge. 

Uma mãe em negação

Os leitores deste blog são melhores que os dos vossos #24


Quando um post resulta em comentários ainda melhores...

Eu quando percebo que é sexta-feira e que acabou aquele calor sufocante e que até promete chuva, uhhh!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Os leitores deste blog são melhores que os dos vossos #23



[Em resposta a este post]

Ljubomir Stanisic aprende lá como se faz


A hora de almoço era curta 
E o Arigatô não ficava perto
Encontrar um bom sushi em Chelas
É pior que encontrar água no deserto

Uber eats não entra na zona J
Não há entrega ao domicílio
Tivemos que entregar o corpo às balas
E usar o Google como auxílio

Então o colega despachado grita
"Nas Olaias diz que há um"
Torcemos o nariz mas lá fomos
A alternativa era comermos leite com Nestum

A tabuleta à porta prometia
Cozinha portuguesa, chinesa e japonesa
Não tinha jamaicana nem indonésia
Devia ter-nos causado estranheza

Começámos por comer arroz com arroz
Delicias do mar em vez de salmão
Sentimos todo um império de gueixas e samurais
Aos trambolhões no caixão

Tinha croquetes e noodles
Numa cozinha verdadeiramente de fusão
Inovaram com um arroz doce
Que era um doce empadão

Teve também uns toques de detox
No fundo era um restaurante japa-finório
O Fei He das Olaias garante
Um final sem calorias a ir ao gregório




AGENDA QUADRIPOLAR | Concerto solidário do IAC



Um concerto pelos Direitos da Criança! Reverte totalmente a favor do IAC!
Bilhetes à venda aqui

Encontramo-nos por lá?

Sou um poço de informação inútil

O meu primeiro número de telefone era o 2691789. "Frio? Eu não tenho frio: eu uso thermoteb!"  Uma girafa aguenta mais tempo sem beber água que um camelo. Toda a letra do "Linda só você mi fasssscina, miu desejos muito além do prazêêê!" O quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos. "Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo? Ai Deus, e u é? Ai flores, ai flores do verde ramo,  se sabedes novas do meu amado? Ai Deus, e u é?" 99% da massa do sistema solar está concentrada no sol. A data de aniversário de TODAS as minhas melhores amigas de infância que não vejo há mais de vinte anos. Os humanos não se lembram de 90% dos seus sonhos. Todo o poema "A Cidade e a Aldeia" do Abílio Mesquita. Os morcegos viram sempre à esquerda quando saem de uma gruta. O nome completo do meu primeiro namorado. Toda a coreografia da Macarena.  Nenhum bocado de papel de tamanho normal consegue ser dobrado mais de sete vezes. "Olá!Olá! Outra vez nas compras? Vim comprar uma saia!Ah é para esconder essas mãos? Sabe? É de lavar a loiça!" Todos os relógios do "Pulp Fiction" estão parados nas 4:20. O sabor dos hamburguers da Abracadabra. As baleias são mamíferos pertencentes à ordem dos cetáceos que, por sua vez, se subdivide em duas subordens: Myscticeti e Odontoceti . "Mortos nã bebem!" Todas as expressões do Herman José (I mean tooodas!). O pi é 3,1415926535. Um gato tem 33 músculos em cada orelha. 



A modos que é oficial: 2/3 do meu arquivo mental é spam. 

Começar o dia a (Eslo)vacalhar

"Boa noite :)

Aqui vai a Quadripolarização da Eslováquia. Tenho de confessar que já vivi lá uns meses... Mas foi passando, passando e vim embora sem a Quadripolarizar! Espero estar perdoada x)
As duas primeiras fotos são do Lago Kuchadja, a paisagem não é a melhor mas dado que o lago estava todo congelado eu achei apropriado. Na terceira foto era eu que já estava congelada, mas o "ovni" é daqueles pontos imperdíveis e merecia ficar registado.




Não sei se precisavas, mas Quadripolarizei também Viena, no Palácio da Princesa Sissi (sim, e com mais um lago congelado!) :)



Espero que gostes das fotos e peço desculpa pelo papel tão pequeno, mas foi o que consegui arranjar.

Beijinhos
Raquel"


Xinapá, Raquel! Já me enviaste isto há tanto tempo que se calhar já tens filhos a entrar na universidade e já usas o cogumelo do tempo! Tu desculpas.me? Tu desculpas-me?

Eslováquia e Áustria quadripolarizadas! Yeahhhh!





[O planisfério está actualizado aqui
Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!]

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Viva o prof de Educação Moral Religiosa e Católica (EMRC) da minha filha!

"É éme érre cê,  É éme érre cê
Glorioso jota cê
Glorioso jora cê*!"

A Ana vem a entoar cânticos religioso-futebolísticos da escola!


[* sendo que "JC" é Jesus Cristo, sim?]

Por falar em parecenças...



     


Am I alone?

Depois percebo que a minha mente só faz associações parvas

A Beatriz Batarda é parecida com a Luísa Sobral.


A actriz que faz de Niki parece a Aurea.


E o Bruno Nogueira agora só me parece o namorado da minha prima...

Mas ninguém fala disto?

A série "SARA" a passar na RTP2 aos domingos é das melhores coisas que se tem feito por aí, pá!

Depois não digam que ninguém vos avisou...

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Suspeito que não serei seleccionada #2


Depois disto (e com ar confuso) pergunta-me:


- "Qual foi o momento mais inusitado da sua vida?"

- "Matei um morcego com uma torradeira..."






[Uma pessoa, às páginas tantas, sente a sua inteligência a ser insultada e começa a curtir a cena...]

Um dia ascenderei ao grau master de maternidade e conseguirei escrever recados bonitinhos na lancheira da miúda

Por enquanto, de manhã ainda mal consigo soletrar o nome da miúda mas esforço-me muito para não ser a pior mãe do Mundo quando ela sacar da lancheira à hora do lanche...






Por falar em choque, no fim-de-semana também soube da existência de um artista chamado Wesley Safadão

Uma pessoa ouve música clássica durante a gravidez e faz aquelas figurinhas tristes de encostar os phones à barriga e tudo. 

Uma pessoa passa todo o primeiro ano de vida a fazê-la ouvir Mozart para bebés e a levá-la aos concertos do Paulo Lameira no Olga Cadaval. 

Uma pessoa ouve a Smooth no rádio do carro. 

Uma pessoa tem um micro AVC porque nunca ouviu tal coisa e se depara com a cria a cantar alegremente:

"Quando ela toca com a bunda no chão!"

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Suspeito que não serei seleccionada #1



Fui a uma entrevista de trabalho, daquelas new age, com psicólogas recém-licenciadas, com um tom informal de somos-todas-supé-porreiras-podemos-tratar-nos-por-tu-e-põe-te-lá-à-vontade-para-te-tirar-nabos-da-púcara e antes de perguntas sobre o meu percurso profissional e a minha experiência, começou logo com perguntas pessoais e eu a vê-la, e eu a vê-la e a pensar ok-não-quero-trabalhar-num-sítio-que-contrata-este-serviço-externo-de-recrutamento quando:

- "Qual foi a maior lição de humildade da sua vida?"

- "Olhe no outro dia lembrei-me que tinha troçado da Carolina Patrocínio contar que a empregada lhe tirava os caroços das cerejas enquanto, alegremente, comprava uvas sem graínha muito inflaccionadas para os lanches da minha filha..."


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Anita na escola-#suspironúmero1

Na primeira semana trouxe uma bolinha amarela (looongo suspiro pela estratégia das bolinhas mas já dei a minha opinião à professora, por isso, siga) e contei a história no instagram do blog (se ainda não o seguem são umas bananas podres!)

Na segunda trouxe dois verdes e quando a senhora do café lhe perguntou como ia tudo pela escola respondeu:

"- Trouxe dois verdes..."

- "Ah, grande Aninha!"

- "Sabes o que aconteceu depois?"

- "Não, querida. Que foi?"

- "Veio uma cabra e comeu-os..."

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domingo, 7 de outubro de 2018

Para que conste era “louvar”

Oiço-a a cantarolar:

”Vamos LAVAR o Senhor
Vamos LAVAR o Senhor

Aleluia, aleluia, aleluuuuuia”




A Ana teve hoje o seu primeiro dia de catequese.

sábado, 6 de outubro de 2018

Vamos falar de chá






Tinha onze ou doze anos, lia o Clube das Chaves e as Gémeas no Colégio de Santa Clara e ainda estava a aprender a lidar com as maminhas que me tinham aparecido e ainda a porra da menarca preconce e todas aquelas hormonas parvas que apareceram sem avisar. 

Os rapazes gostavam de jogar futebol mas era inverno, no início dos anos 90 não havia cá pavilhões gimnodesportivos nem campos cobertos e os rapazes-maçados!- tinham encontrado como alternativa à diversão via futebol:apalpar os rabos às meninas que, no intervalo,passavam nos corredores em direcção à sala. 

Eu tinha onze ou doze anos, via o "Agora Escolha" e às vezes o "Já Tocou" mas sentia-me uma miúdinha por dentro e quando, nesse Inverno, olhei para a fila de rapazes perfilados e encostados às paredes de ambas as laterais do corredor da C+S não queria acreditar que me iriam apalpar a mim, nem sequer era uma boazona, meia geek e segui segura. Fui apalpada no rabo, nas mamas e onde mais calhou naquele caminho que me pareceu infinito, enquanto gritava de horror, o coração a palpitar depânico, humilhada e reduzida a distração de rapazes que não podiam jogar futebol porque estava a chover enquanto se riam do pânico em mim gerado. Atrás de mim outras iguais a mim, a serem tratadas de igual forma. 

Abeirei-me de uma  "contínua" que minimizou o episódio, com condescendência para os rapazes "oh filha, já se sabe como são parvos os rapazes desta idade: vocês não liguem!" e me fez sentir ridícula e mariquinhas. Na sala de aula falei à professora que em tom de gozo me sugeriu que "olha, responde-lhes com a mesma moeda: apanhem-nos quando estiverem sozinhos e apalpem-nos todos" e fiquei incrédula: eu não queria apalpar ninguém, tinha onze ou doze anos, ouvia New Kids on the Block, não me interessava o corpo dos rapazes parvos da minha escola, nem castigá-los tocando-lhes arbitrariamente. Em casa falei à minha mãe que- como sempre com a assertividade que a caracteriza- me instruiu para no dia seguinte ir, com algumas das minhas outras colegas que tinham sido apalpadas, ao Conselho Directivo fazer queixa de cada um dos rapazes que conseguira identificar. Na sala do Conselho Directivo as duas professoras que receberam o nosso grupinho ouviram-nos atentamente para nos sugerirem o mesmo "vocês já sabem que os rapazes são mesmo parvo: não lhes liguem! As portas estão abertas para o exterior no inicio e no fim do corredor, vocês saiam e façam o caminho por fora e assim não se sujeitam a que eles vos apalpem". Uma de nós, penso que a Susaninha ainda terá retorquido que estava a chover, contornar o corredor por fora implicaria que nos molhássemos sem termos culpa nenhuma dos apalpões e fomos abafadas por um "mas vocês querem ser apalpadas ou não? Estamos a dar-vos uma alternativa...". 

Nesse dia, em que percebemos que ninguém iria chamar os rapazes ao conselho directivo,que ninguém os ia repreender ao corredor, que só dependia de nós fugir e não deles serem obrigados a conter-se e castigados pela acção; nesse dia fomos reduzidas à insignificância por outras mulheres, contínua, professoras, presidente do concelho directivo.

Tinha onze ou doze anos mas, nesse dia, percebi que as mulheres são as maiores inimigas delas mesmas. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Food for thought...







Da (minha amiga mais inspiradora) Susana Esteves Pinto no seu blog homónimo

O mundo divide-se entre...

... as pessoas que dizem "i-quê-á" e as que dizem "i-ka-ia".

Embrace yourself: memes are coming




[Obrigada, João Campos, sim?]

'Bora lá capitalizar a porca miséria*



Encomendas para quadripolaridades@hotmail.com :P




[*lirealmente]

As reacções de élan ao meu regresso blogosférico

"Ralmente, menina Liliana, tinhamos saudades suas! Azoutras, ele é tudo vidas perfeitas e bonitas.Você é a única blogger famosa* que não tem vergonha nenhuma de contar que se esteve quase a borrar toda como já aconteceu com todas nós na vida real"

A sra. da papelaria da minha rua lê o meu blog






[* As almas sensíveis que não se apoquentem que sou só famosa na minha rua, ok? E é porque são só meia dúzia de casas, tá?]

Os leitores deste blog são melhores que os dos vossos #22

A respeito do último post:


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Uma aventura na IKEA (Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: botem os olhos nisto!)



Uma pessoa está em desmame de medicação fortíssima. 
Uma pessoa tem como efeitos secundários da medicação prisão de ventre. 
Uma pessoa tem como efeitos secundários do desmame da medicação a libertação desenfreada de ventre. 
Uma pessoa precisa de ir comprar umas coisas à IKEA. 
No meio do labirinto da IKEA o ventre duma pessoa decide começar a ter um espasmo, uma mistura de samba e wrestling. 
Uma pessoa grita ao marido "Já venho, toma aí conta da miúda", atira o carrinho pelos ares e começa a fazer marcha até ao wc que fica nos confins da IKEA. 
Uma pessoa repara que a filha de uma pessoa decidiu segui-la porque também está "com vontade de fazer xixi" . 
Uma pessoa começa a correr mas a filha de uma pessoa não a acompanha, o que faz uma pessoa ter que abrandar o passo e ter medo de se finar escatologicamente. 
Uma pessoa começa a surtar, pega na filha ao colo, espeta-na ao colo na anca e regressa ao treino de marcha. 
Uma pessoa avista a casa de banho. 
Uma pessoa irrompe a casa de banho aflitivamente. 
Uma pessoa pousa a criança e começa a desapertar o próprio cinto à velocidade da luz. 
Uma pessoa ouve uma vozinha "Mas mãe, eu preciso primeiro de fazer xixi"
Uma pessoa respira fundo, limpa o suor da testa e começa a ajudar a filha de uma pessoa a despachar-se. 
A filha de uma pessoa começa, muito lentamente, a cortar pelo picotado quadradinhos de papel higiénico e a forrar o tampo da sanita com toda a calma e precisão do Mundo para "se sentar sem tocar na tampa, mamã!". 
Uma pessoa começa a perceber que o seu ventre está a dançar a rumba e que provavelmente está prestes a dar-se uma tragédia. 
Uma pessoa continua a observar a filha de uma pessoa a forrar de papel higiénico meticulosamente a tampa da sanita. 
Uma pessoa lembra-se do Mr. Ben a embrulhar presentes naquela cena do "Love Actually". 
Uma pessoa grita "tu por amor de Deus despacha-te, Ana*!"
Uma pessoa ouve a filha "shhhhhhh"
Uma pessoa começa a controlar a respiração e a filha interrompe o "shhh" para fazer uma pergunta parva. 
Uma pessoa grita em surdina para não se ouvida em toda a casa de banho da IKEA "Faz xixi depressa já imediatamente!"
Uma pessoa vislumbra o fim do "shhhh"e pensa que tem que falar ao pediatra da capacidade tétrica de retenção de urina da bexiga da filha da pessoa.
Uma pessoa limpa a filha de uma pessoa e - finalmente!- consegue aliviar-se. 
Uma pessoa ouve uma vozinha "Preciso de oxigééénio!"
Uma pessoa abre os olhos e "shhhuttt! cala-te!"
Uma pessoa continua a ouvir "Cheira muito mal, mamã! Já disse que preciso de oxigénio!"
Uma pessoa ainda está a articular uma resposta quando dá pela filha da pessoa a abrir violentamente a porta do seu cubículo da casa de banho, deixando uma pessoa de ceroulas pelos joelhos sentada no real trono à vista de todas as utilizadoras da dita casa de banho. 
Uma pessoa agarra na filha de uma pessoa pelo cachaço e puxa-a para dentro, fechando a porta. 
Uma pessoa ouve risadas silenciadas do lado de fora da portinhola. 
Uma pessoa volta a ouvir numa voz flautada "Ó mãe, porque é que tens a sanita toda suja?!"
Uma pessoa atira um "Shuuut, não se diz isso, pá!"
Uma pessoa ouve de resposta " Ó mãe, porque é que tens a sanita toda limpa?"
Uma pessoa revira os olhos e manda a criatura calar-se, por favor. 
Uma pessoa volta ouvir a ladaínha "Mas eu preciso de respirar! Socooorro! Preciso de oxigénio!"
Uma pessoa acaba o serviço e vai para se limpar convenientemente. 
Uma pessoa dá conta que a filha de uma pessoa gastou todo o papel higiénico a forrar a sanita para fazer xixi. 
Uma pessoa pede à filha que vá à cabine sanitária do lado buscar papel higiénico. 
Uma pessoa fica outra vez na montra de toda a casa de banho, sentada e de ceroulas pelos joelhos, à custa da filha escancarar a porta toda para ir buscar papel higiénico à cabine do lado. 
A filha de uma pessoa regressa... com um quadrado de papel higiénico. 
Uma pessoa pondera suicidar-se com o fio do autoclismo quando percebe que o autoclismo está dentro da parede. 
Uma pessoa pede à filha que volte para buscar mais papel higiénico. 
A filha de uma pessoa suspira "ainda bem, assim respiro outra vez!"
Uma pessoa volta a arregalar os olhos. 
A filha de uma pessoa volta com mais dois quadradinhos rasgados meticulosamente pelo picotado de papel higiénico. 
Uma pessoa percebe, nas trezentas vezes, em que já ficou exposta de cuecas a tira colo à vista de todas as pessoas que frequentam a casa de banho, que há uma empregada de limpezas no espaço partilhado.
Uma pessoa instrui a filha de uma pessoa a pedir papel higiénico à empregada de limpezas. 
A filha de uma pessoa sai da cabine da casa de banho muito assertivamente. 
Uma pessoa ouve: "Olá, a minha mãe está toda borrada ali dentro, podia-nos arranjar papel higiénico?"
Uma pessoa pensa que se não morrer ali de vergonha, nunca mais morrerá. 
Uma pessoa vê a filha de uma pessoa entrar, de forma derradeira, com dois rolos de papel higiénico, daqueles industriais, um enfiado em cada pulso, como se fossem pulseiras e com os braços erguidos à laia de Dom Quixote a salvar o Sancho Pança.
Uma pessoa ouve risadinhas. 
Uma pessoa fica quinze minutos fechada dentro do cubículo à espera que saiam todas as eventuais testemunhas de tamanho vexame. 
Uma pessoa sai, finalmente, com a miúda de esguelha, e ouve o marido de uma pessoa na parte de fora da casa de banho a perguntar: "Que raio se passou ali dentro que tem saído toda a gente dali a finar-se a rir?"
Uma pessoa questiona-se porque não se dedicou à vida religiosa e viveu uma vida de clausura sem marido nem filhos. 
Uma pessoa sofre muito. 
Dos nervos. 

[* Nome fictício para efeitos meramente exemplificativos]


Não há vacas sagradas. Nem que sejam vacas dos Açores. Ou da Madeira, vá.



[ Disclaimer: sou uma Ronaldete assumida.

Sou super-fã do Cristiano Ronaldo por razões que sei identificar concretamente: pela sua capacidade de trabalho, entrega, foco, resiliência, perfeccionismo, por querer sempre ser melhor no sentido de melhorar a sua performance, os seus resultados e feitos. Pela sua história e pela segurança de ser quem é, por nunca se esquecer de onde veio (e esta é uma armadilha muito difícil de contornar) e pelos valores de família, com que me identifico. E, finalmente, pelo seu sentido cívico, pela sua generosidade que sei não serem prosaicas e que já testemunhei na primeira pessoa. 

Para quem não andava por cá nessa altura, relembro que, em 2013, eu e algumas bloggers juntámo-nos e organizámos um evento solidário que tinha como objectivo angariamos possíveis dadores de medula óssea e, simultâneamente, fundos para que uma criança com leucemia pudesse tentar um estudo experimental na Alemanha. Organizámos esse evento em tempo record (penso que em menos de uma semana) até porque tempo era coisa que não tínhamos, como aliás e infelizmente, se veio a verificar. Cada uma de nós tinha como missão activar a sua network e angariar produto para podermos vender no mercado do "Todos por Um" (era esse o nome do evento) e eu era, claramente, a pessoa com menos contactos do grupo. Mas tinha um trunfo: a querida Isa, a leitora deste blog que me fazia estar a duas pessoas de ligação do Cristiano Ronaldo. 

Foi através da Isa que o Cristiano Ronaldo nos doou uma camisola autografada que tinha usado numa última partida, oferta que veio reforçada com umas chuteiras, a fim de serem leiloados e cujas receitas reverteriam para a criança com leucemia. 

Infelizmente, o leilão não se chegou a realizar porque a morte é uma puta e coube-me perguntar ao remetente qual a morada para onde deveria devolver a camisola e as chuteiras e a resposta foi imediata e peremptória: reencaminhar as mesmas para o I.P.O. de Lisboa, em homenagem a todas as crianças que lutam contra o cancro. Eu e a Sandra assim o fizemos, em mãos, junto dos responsáveis do I.P.O.

Ficou apresentado o Ronaldo, enquanto pessoa, para mim. E desde então sou a sua fã número um. ]

As pessoas admiram as outras por duas razões: identificação ou aspiração. O caso do Cristiano Ronaldo é paradigmático: nós identificamo-nos com ele, com as suas origens humildes, com o facto de ter nascido num país pequeno e com pouca visibilidade e, por outro lado, aspiramos conseguir, por via do mesmo canal que é o esforço e o trabalho (muito além do talento) atingir os níveis de sucesso dele, numa aspiração e inspiração claras e firmes. Cristiano Ronaldo é um de nós e, simultaneamente, um dos que nós gostaríamos de ser. Por isso nos dói tanto que ele não possa ter uma conduta exemplar e imaculada, por isso nos belisca tanto que estes vícios humanos o atinjam logo a ele, aquele a que nós nos habituámos a endeusar.

Não sei muito mais sobre o Cristiano Ronaldo para além da sua persona pública, numa imagem que me é transmitida pelos meios de comunicação social. Acompanho o seu instagram (e o da família) e a minha opinião continua a ser consistente. 

No entanto, vem agora à luz do dia uma acusação sobre uma hipotética violação ocorrida há dez anos. E embora a minha idolatração e patriotismo tentem sobrepor-se à força e irracionalmente, ao meu sentido de justiça- o mesmo que até hoje me fez admirar incondicionalmente o jogador- e ao feminismo enquanto expressão pela luta pela igualdade entre géneros, aqui ganha a justiça e a luta pela igualdade. 

Não se pode continuar a culpabilizar as vítimas e a desculpabilizar os agressores. Leio de tudo: ela trabalhava num bar e vivia do negócio da sedução, ela assinou um papel para se calar e aceitou dinheiro pelo silêncio, tendo sido comprado o seu silêncio (e, ficando provado, vejo como dois crimes: violação e coação. Nada minimiza o crime cometido e a vítima em momento algum deverá estar no lugar de ofensora. Ou houve crime ou não houve. Havendo, ela foi vítima, volta a ser vítima), ela subiu para o quarto com ele. Ela, ela, ela, ela.

Só que não. 

Aqui o foco deve estar nas acusações que se estão a fazer a ele: ele, alegadamente, aproveitou-se da sua posição de poder e de fama para achar que podia servir-se do corpo dela a seu bel prazer, ele convidou-a para uma festa e afinal a festa era "privada", ele não respeitou a sua recusa face ao convite sexual, ele penetrou-a por trás, sem preservativo e de forma não consentida e, finalmente, ele "comprou" o seu silêncio com dinheiro. Ele - segundo a acusação- ignorou o seu não, ignorou que ela era um ser humano com vontade própria e direito sobre o seu próprio corpo, a sua vontade e a sua dignidade e serviu-se do corpo dela como quem vai a um bar e se serve de um copo de poncha da Madeira. 

Ela? Ela alegadamente terá dito que não e isso deveria ser mais que suficiente.

Reparem que eu digo que o foco deve ser nas acusações que se estão a fazer a ele e não nos actos dele. Porque nada está provado. Porque acho bem que se apure, que se investigue, que se ouçam as partes, que se julgue com sentido de justiça e sem haver mais posições de fragilidade porque isto já começa em desvantagem: ele é homem, o melhor jogador do Mundo, rico e influente. Ela é só uma mulher anónima que alegadamente terá dito que não. 

Que se faça justiça. E com isso quero dizer tudo: se o Cristiano Ronaldo for inocente que se castigue, exemplarmente, esta senhora oportunista. Se a senhora for inocente que se castigue, exemplarmente, este jogador que não pode, à custa da sua popularidade, passar impune. 

Que se faça- mesmo!- justiça.






Adenda: "O pessoal que acha que se ela recebeu dinheiro então não foi violada, por uma questão de coerência também acha que um pedófilo não deve ser julgado se der chocolates à criança? Só para perceber a lógica. É que as coisas não são lineares. Vamos supor que ela foi efetivamente violada (estamos todos a especular, espero que a investigação dite a verdade): está num bar, vai para o quarto de uma estrela, é violada. Quem é que ia acreditar nela? No meio do medo e do sofrimento da violação, é pressionada a aceitar um acordo. Está desfeita psicologicamente, só quer que o pesadelo acabe. Se quem está à volta não a apoia e a incentiva a aceitar o acordo, para ela essa torna-se a única opção e a forma de acabar com o sofrimento mais depressa. É assim tão difícil de perceber? Se houvesse um pouco mais de compaixão e de capacidade de calçar os sapatos do outro, não havia tanta gente a achar logo que ela é uma oportunista e só quer dinheiro. E o mundo seria um pouquinho melhor."- a minha amiga Mafalda Chambino comentou assim neste post e eu acho importante que o seu comentário enriqueça esta reflexão.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Morreu o último dos românticos: Aznavour toujours

              

[Há poucos cantores consensuais. Aznavour era, provavelmente, um deles e foi cantar hoje para as estrelas, como diz a minha filha numa visão romântica que espero que perdure para sempre, como as músicas do francês.
Acredito que toda a gente tem uma música preferida de Charles Aznavour,que cantou o amor, as saudades, os desgostos a sério daqueles de desgostar e de ser desgostado, que escancarou - com aquela voz como barba ralinha que acaricia a nossa pele e arranha-a numa espécie de dor e prazer -bandas sonoras de tantas vidas. 
Esta é a música do único desgosto de amor da minha vida. Passaram muitos, muitos anos. 
Obrigada por ma relembrar, recordando-me que o amor também é feito de distância, desencontros, memórias passadas e esperança. Que o amor é isto tudo o que cantou.
Isto tudo.

 Nous nous reverrons un jour ou l'autre 
 Si Dieu le veut.]
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