quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Não há vacas sagradas. Nem que sejam vacas dos Açores. Ou da Madeira, vá.



[ Disclaimer: sou uma Ronaldete assumida.

Sou super-fã do Cristiano Ronaldo por razões que sei identificar concretamente: pela sua capacidade de trabalho, entrega, foco, resiliência, perfeccionismo, por querer sempre ser melhor no sentido de melhorar a sua performance, os seus resultados e feitos. Pela sua história e pela segurança de ser quem é, por nunca se esquecer de onde veio (e esta é uma armadilha muito difícil de contornar) e pelos valores de família, com que me identifico. E, finalmente, pelo seu sentido cívico, pela sua generosidade que sei não serem prosaicas e que já testemunhei na primeira pessoa. 

Para quem não andava por cá nessa altura, relembro que, em 2013, eu e algumas bloggers juntámo-nos e organizámos um evento solidário que tinha como objectivo angariamos possíveis dadores de medula óssea e, simultâneamente, fundos para que uma criança com leucemia pudesse tentar um estudo experimental na Alemanha. Organizámos esse evento em tempo record (penso que em menos de uma semana) até porque tempo era coisa que não tínhamos, como aliás e infelizmente, se veio a verificar. Cada uma de nós tinha como missão activar a sua network e angariar produto para podermos vender no mercado do "Todos por Um" (era esse o nome do evento) e eu era, claramente, a pessoa com menos contactos do grupo. Mas tinha um trunfo: a querida Isa, a leitora deste blog que me fazia estar a duas pessoas de ligação do Cristiano Ronaldo. 

Foi através da Isa que o Cristiano Ronaldo nos doou uma camisola autografada que tinha usado numa última partida, oferta que veio reforçada com umas chuteiras, a fim de serem leiloados e cujas receitas reverteriam para a criança com leucemia. 

Infelizmente, o leilão não se chegou a realizar porque a morte é uma puta e coube-me perguntar ao remetente qual a morada para onde deveria devolver a camisola e as chuteiras e a resposta foi imediata e peremptória: reencaminhar as mesmas para o I.P.O. de Lisboa, em homenagem a todas as crianças que lutam contra o cancro. Eu e a Sandra assim o fizemos, em mãos, junto dos responsáveis do I.P.O.

Ficou apresentado o Ronaldo, enquanto pessoa, para mim. E desde então sou a sua fã número um. ]

As pessoas admiram as outras por duas razões: identificação ou aspiração. O caso do Cristiano Ronaldo é paradigmático: nós identificamo-nos com ele, com as suas origens humildes, com o facto de ter nascido num país pequeno e com pouca visibilidade e, por outro lado, aspiramos conseguir, por via do mesmo canal que é o esforço e o trabalho (muito além do talento) atingir os níveis de sucesso dele, numa aspiração e inspiração claras e firmes. Cristiano Ronaldo é um de nós e, simultaneamente, um dos que nós gostaríamos de ser. Por isso nos dói tanto que ele não possa ter uma conduta exemplar e imaculada, por isso nos belisca tanto que estes vícios humanos o atinjam logo a ele, aquele a que nós nos habituámos a endeusar.

Não sei muito mais sobre o Cristiano Ronaldo para além da sua persona pública, numa imagem que me é transmitida pelos meios de comunicação social. Acompanho o seu instagram (e o da família) e a minha opinião continua a ser consistente. 

No entanto, vem agora à luz do dia uma acusação sobre uma hipotética violação ocorrida há dez anos. E embora a minha idolatração e patriotismo tentem sobrepor-se à força e irracionalmente, ao meu sentido de justiça- o mesmo que até hoje me fez admirar incondicionalmente o jogador- e ao feminismo enquanto expressão pela luta pela igualdade entre géneros, aqui ganha a justiça e a luta pela igualdade. 

Não se pode continuar a culpabilizar as vítimas e a desculpabilizar os agressores. Leio de tudo: ela trabalhava num bar e vivia do negócio da sedução, ela assinou um papel para se calar e aceitou dinheiro pelo silêncio, tendo sido comprado o seu silêncio (e, ficando provado, vejo como dois crimes: violação e coação. Nada minimiza o crime cometido e a vítima em momento algum deverá estar no lugar de ofensora. Ou houve crime ou não houve. Havendo, ela foi vítima, volta a ser vítima), ela subiu para o quarto com ele. Ela, ela, ela, ela.

Só que não. 

Aqui o foco deve estar nas acusações que se estão a fazer a ele: ele, alegadamente, aproveitou-se da sua posição de poder e de fama para achar que podia servir-se do corpo dela a seu bel prazer, ele convidou-a para uma festa e afinal a festa era "privada", ele não respeitou a sua recusa face ao convite sexual, ele penetrou-a por trás, sem preservativo e de forma não consentida e, finalmente, ele "comprou" o seu silêncio com dinheiro. Ele - segundo a acusação- ignorou o seu não, ignorou que ela era um ser humano com vontade própria e direito sobre o seu próprio corpo, a sua vontade e a sua dignidade e serviu-se do corpo dela como quem vai a um bar e se serve de um copo de poncha da Madeira. 

Ela? Ela alegadamente terá dito que não e isso deveria ser mais que suficiente.

Reparem que eu digo que o foco deve ser nas acusações que se estão a fazer a ele e não nos actos dele. Porque nada está provado. Porque acho bem que se apure, que se investigue, que se ouçam as partes, que se julgue com sentido de justiça e sem haver mais posições de fragilidade porque isto já começa em desvantagem: ele é homem, o melhor jogador do Mundo, rico e influente. Ela é só uma mulher anónima que alegadamente terá dito que não. 

Que se faça justiça. E com isso quero dizer tudo: se o Cristiano Ronaldo for inocente que se castigue, exemplarmente, esta senhora oportunista. Se a senhora for inocente que se castigue, exemplarmente, este jogador que não pode, à custa da sua popularidade, passar impune. 

Que se faça- mesmo!- justiça.






Adenda: "O pessoal que acha que se ela recebeu dinheiro então não foi violada, por uma questão de coerência também acha que um pedófilo não deve ser julgado se der chocolates à criança? Só para perceber a lógica. É que as coisas não são lineares. Vamos supor que ela foi efetivamente violada (estamos todos a especular, espero que a investigação dite a verdade): está num bar, vai para o quarto de uma estrela, é violada. Quem é que ia acreditar nela? No meio do medo e do sofrimento da violação, é pressionada a aceitar um acordo. Está desfeita psicologicamente, só quer que o pesadelo acabe. Se quem está à volta não a apoia e a incentiva a aceitar o acordo, para ela essa torna-se a única opção e a forma de acabar com o sofrimento mais depressa. É assim tão difícil de perceber? Se houvesse um pouco mais de compaixão e de capacidade de calçar os sapatos do outro, não havia tanta gente a achar logo que ela é uma oportunista e só quer dinheiro. E o mundo seria um pouquinho melhor."- a minha amiga Mafalda Chambino comentou assim neste post e eu acho importante que o seu comentário enriqueça esta reflexão.

3 comentários:

Sofia Ferreira disse...

tenho dúvidas... uma mulher que foi violada, fica desfeita psicologicamente, recebe dinheiro para ficar calada, e passados 10 anos vem denunciar o caso mas diz que está disposta a chegar a acordo, deixa muito a desejar sobre a sua idoneidade!...

Marta disse...

Concordo com tudo dito. Mas fico sempre na dúvida: porque aceitou a menina subir ao quarto? Foi para ver a vista? Há uma linha muito ténue que separa a (alegada) violação do oportunismo, por qualquer uma das partes... Que se faça justiça!

Me, My Shit and I disse...

Mas pq é q o facto de uma tipa subir e entrar num quarto a obriga depois a ter sexo? Não pode mudar de ideias?
N podia n lhe apetecer ter sexo anal??
Não compreendo estes comentários, a sério q não.

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