quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Odeio o Halloween e outras subtilezas que tal com o hashatg #teampãopordeus



Odeio o Halloween. Pronto, já disse. E odeio não pelo que ele representa isoladamente mas pelo facto dele, a pouco e pouco, ter vindo tomar o lugar do pão por Deus. 

Deixem-me explicar: no ano passado estava em Paris, na Eurodisney, por esta altura. Maravilhoso o Halloween no estrangeiro como experiência de uma comemoração pagã diferente cheia de rituais engraçados e que leva os miúdos à euforia. Gostei. A sério, que gostei. Como gostaria de viver um Thanksgiven nos States, a dar a mão a amigos à volta da mesa e a mostrar-me grata pelas coisas fixes da minha vida.

E vá, até gostava de viver ambas em Portugal em festas temáticas, de forma isolada, pelo que representam nos países de origem, junto de comunidades desses países radicadas em Portugal e tudo e tudo (hey, Tehur: esta dica é para ti! Quero thanksgivar na tua casa este ano, tá?). 

O que me encuca é começarmos a permitir que estas comemorações importadas comecem a substituir outras que já existem, estão enraizadas e estão contextualizada na história e na cultura do meu país. 

Ora, eu fui ao Pão por Deus até já usar soutien e ter maminhas e já ser um bocado ridículo andar ao Pão por Deus. Onde sempre vivi, uma pequena aldeia saloia de Cascais, o Pão por Deus é tão enraizado quanto o Natal: no dia 1 de Novembro levantamo-nos cedinho, juntamo-nos a um ou dois amigos (não mais porque senão calha menos a cada um), agarramos num saco e num porta moedas e cá vai disto. Começamos pelas portas das vizinhas "Pão por Deus! Pão por Deeeus!" e ensacamos os primeiros doces, seguimos pela estrada até ao largo, no caminho se nos cruzarmos com adultos transeuntes gritamos "Pão por Deuuuus!" aos seus ouvidos até que, desprevenidos, nos saquem de uma moeda que enfiamos no porta-moedas, no largo entramos em todos os estabelecimentos comerciais (já se sabe quais são os cafés ranhosos que não dão e boicotamo-los o ano inteiro só por causa desta forretice diabética neste dia!) e adivinhamos de cor que no Cantinho do Morais nos dão pastilhas, no Safari é sempre chupas, na mercearia João Aires é sempre um sortido e que, mais à frente, na Ferradura são frutos secos. E continuamos, com ritmo e energia porque assim que tocar a sirene dos bombeiros ao meio-dia é altura de recolher a casa e contar os dividendos do dia.
E há de tudo no saco peganhento ao fim da manhã: rebuçados, chupas, castanhas, figos passados, beijinhos, maçãs, rebuçados, gomas, nozes e marshmallows: é a loucura! E depois contamos as moedas para as guardarmos no mealheiro à espera da oportunidade de se transformarem num brinquedo. É mágico e peganhento: uma espécie de treino para o Natal mas com mais socialização à mistura e doces fixes que nenhuma criança que se preze curte sobremaneira bolo-rei. 

Acontece que agora não sou a filha, sou a mãe. E desde que a Ana nasceu que vou com ela ao Pão por Deus, coisa boa. Os mesmos estabelecimentos comerciais a quererem preservar a tradição (dica para quem é de cá da terra: até a loja de animais dá amostras de ração para os vossos animais de estimação de pão por Deus, pá!)  mas as pessoas singulares a encolherem-se. Muitas não abrem a porta, outras transeuntes que passam e que não são da terra mas que vieram para cá viver recentemente que não sabem do que se trata (nem querem saber) e que respondem infâmias como "o Halloween foi ontem à noite!", e só não há meia dúzia de doces no saco da pequena porque eu tenho um roteiro fixado e vou com ela pedir às amigas da minha mãe, às senhoras antigas cá da terra e por aí fora. Mas já ninguém oferece os figos passados que eram o elemento principal para o saco ficar melado, o que me deixa um pouco nostálgica. 

Entretanto o Ana sempre frequentou uma escola católica e safámo-nos nos primeiros anos ao Halloween. Mas desde o ano passado que tivemos que entregar o corpo às balas, com muitos palavrões mentais à mistura. Imaginem que este ano até tivemos que fazer uma abóbora em família (claro que ficou assustadora como ficam, aliás, todas as manualidades em que participo para além destas do Halloween, ora espreitem aqui neste link do instagram deste blog).  São facadas para mim, senhores: facadas!

Mas as coisas não têm que ser mutuamente exclusivas, vocês por Deus, não me desgostem mais. Comprem gomas em forma de abóbora mas não se esqueçam dos figos passados!

Portanto hoje à noite faremos uma festa na garagem para as amigas Halloween-fãs (alguém me passa um x-acto?) mas amanhã de manhã, a miúda levanta-se da cama cedinho, agarra no novo taleigo que todos os anos recebe da avó dos Açores via correio e lá vai ela pela aldeia: "Pão por Deeeeus!", "Pão por Deeeus!". 

Fiquem a saber que rogo pragas a quem não lhe der uma moeda ou um doce. E não é uma praga católica à Pão por Deus, é uma demoníaca imbuída no espírito de Halloween contrariado da véspera. 

Agradecida. 

2 comentários:

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

Eu gosto de ambos! Sou uma cidadã do Mundo pah!
(e quero é festas)
(e docinhos)

eu vou com as aves disse...

Na minha terra isso do Pão por Deus é coisa que nunca se ouviu falar; já "Bolinhos e bolinhós, para mim e para vós...." isso sim! :P

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