sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Querida fada dos dentes




... a miúda fez um ano e nada de dentes. Um ano. Doze meses. Nicles batatóides. De repente, à nossa volta, tooooodas as crianças ostentavam garbosas cremalheiras e a nossa ali estava, de sorriso de velhinha, sem um feijãozinho de dente sequer à espreita. Nós suspirávamos e relevávamos porque a miúda era tão fácil de criar e"a cavalo dado não se olha o dente" e tudo e tudo. 

Catorze meses, na altura em que nós ainda contávamos os meses. Zero dentes. Zerinho. Nem um para salvar a honra da nossa genética. Às escondidas via-o a procurar no google anomalias de dentes em crianças, seres humanos que nasciam sem dentes e outras atrocidades dentárias que tal. 

Dezasseis meses e guess what? Nada. Na-di-nha. As pessoas achavam graça à cara fofa e desdentada da miúda, que já andava e balbuciava algumas palavras, parecendo que tinha um desenvolvimento precoce. Só que não. Não era sobredotada: era subdentada! Isso mesmo: tinha era uns dentes retardados, atrasados, hibernados. Ou melhor, não tinha dentes. Nós ríamos mas eu, na verdade, verdadinha, andava também à sucapa a cirandar pelo Etsy e pela Amazon a tentar descobrir como mandar vir aquelas dentaduras postiças brancas e alvas que usam as meninas do Toddlers and Tiaras que isto há que encarar os problemas de frente e eu estava determinada a encontrar uma solução dentária para a menina, benzáDeus tão perfeitinha, loirinha e de olhos azuis e com este dentó-problema, misericórdia da Nossa Senhora das Cremalheiras. 

Dezoito meses (em linguagem de gente normal: um ano e meio) e ... uma pontinha branca, alva, uma pérola rara na boca da miúda! E no espaço de um mês começaram a romper-lhe dentes na gengiva como cogumelos. Em dois meses tinha um sorriso Colgate maravilhoso e nós suspirámos aliviados pelo milagre bucal. 

Desde então, querida fada dos dentes. temos sido colaborantes contigo. A miúda não come doces (porque não gosta, na verdade, aqui o mérito não é nosso!). Comprámos as pastas de dentes apropriadas para cada idade, as escovas certas e agora a escova eléctrica, ensinámo-la a usar fio dentário e compramos as fisguinhas de cores para a incentivar, até a porra da ampulheta dos dentes com ventosa para se colar no espelho e determinar o tempo que a miúda deve gastar na escovagem dos dentes, até a porra da ampulheta comprámos! 

Vamos à dentista regularmente (beijinhos Dra, Filipa Cordeiro!) e estávamos convictos que, uns dentes pequeninos, bem tratados e fofos que vieram com um ano de atraso tivessem maior tempo de validade, esperando que lá para os dez anos de vida da miúda- a avaliar pelo ritmo dentário- nos deparássemos com a queda do primeiro dente e o nascimento da primeira favola. 

A modos que não, ó senhora dona fada dos dentes! Na semana passada, na cadeira do dentista, apanhou-nos desprevenidos e incautos a Dra. Filipa anunciando que o dente da Ana estava a abanar. Troçámos e rimos, que não, que não, estava a ver mal, os dentes ainda estavam no prazo de validade, não podia ser.  Na-na-ni-na-na-não!

Viemos para casa incrédulos e em negação, excelentíssima senhora dona fada dos dentes, a acreditar que a médica dentista estava a delirar até que ontem, a trincar uma fatia do primeiro bolo de alfarroba que consegui fazer sem saber a papel de música, ali estava ele: o cabrão do dente a vacilar!

E a miúda em euforia porque já deve estar com saudades de ter uma varanda corrida nas gengivas e corrente de ar na boca, afinal já passaram quatro anos anos e meio. Só que não! SÓ passaram quatro anos e meio, tá?

Estúpida fada dos dentes, baza! Está bem que a miúda tem seis anos, está bem que esta é a idade que caem os dentes (devias ter-te lembrado da correlação entre idades e dentes lá pelos sete, oito meses de vida da cria mas está bem, cá te esperamos...), está bem que tooodos os colegas da sala já estão desdentados mas... caraças: ESSES DENTES AINDA SÃO SEMI-NOVOS, ok? SEMI-NOVOS!

Fada dos dentes, por aqui continuamos em negação. Ele diz que o dente abanou porque o bolo de alfarroba estava rijo que nem cornos. Eu digo que ando a ver se descubro onde a minha mãe escondeu os meus dentes metidos naqueles berloquinhos de ouro para ver se to espeto, requentado e desdatado, debaixo da almofada da miúda para veres se nos deixas em paz, tá? Enquanto isso, a miúda anda com os dedos a abanar violentemente aquele dente bebézinho e ingénuo, tadinho. Não se faz! Não há direito!

Vai morrer longe, ó fada dos dentes! Morrer lon-ge. 

Uma mãe em negação

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