terça-feira, 29 de janeiro de 2019
E agora, que tal o desafio dos 50 anos?
A LEGO alinhou no desafio dos 10 anos com algum paternalismo porque, no fim de contas, é das poucas marcas que até podia alinhar no desafio dos 50 anos.
Sim! Hoje celebra-se os 50 anos do dia em que a LEGO apresentou o primeiro tijolo grande, para mãos pequeninas. Sim, o número é uma espécie de premonição pois foi em 1969 que o homem foi à lua e a LEGO lançou a primeira peça, numa alusão às vezes em que iríamos pisar as mesmas e íamos dizer palavrões relacionados com cópula.
Adiante.
A LEGO fez as minhas delicias em pequena (dava o dedo mindinho da mão esquerda para voltar a ter os mini vasos e as mini janelas com persianas com que enfeitava as minhas mansões feitas de legos) e as da Ana, pelo que aqui em casa temos dificuldades em decidir o que foi mais importante para a humanidade, mas deixamos a questão: o Apollo 11 podia ser desmontado e transformado num carro de corridas? Ah, poizé?
Para assinalar a efeméride, deixamos aqui alguns dos pontos altos de meio século de diversão de construção… em grande.
Parabéns LEGO: és fantástica, estás igualzinha e nada velha, não mudaste nada!
E ainda bem!
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Nunca pensei vir a pensar isto, quanto mais vir a escrevê-lo...
... pela primeira vez na vida não queria estar na pele da Irina Shayk.
domingo, 27 de janeiro de 2019
Ana sobre o derby
Benfiquista convicta- filha de um sportinguista e de uma portista- ontem, antes do jogo, a Ana pergunta com a maior sinceridade:
"Não podem perder os dois?"
sábado, 26 de janeiro de 2019
Gente quadripolar que vale a pena conhecer
Em 2014 tinha a cabeça a mil e a fervilhar cheia de ideias, projectos e de gente gira à minha volta e a minha actividade online vivia uma fase desenfreada e lembrei-me de fazer um projecto em que partilhava pessoas que eu considerava interessantes,que tivesses histórias de vida, testemunhos ou apenas ideias interessantes e que eu achava uma pena que o Mundo inteiro não conhecesse.
"Gente" era uma série de pequenas histórias, ao jeito dos Humans of New York, que eu coleccionava numa página de facebook. Era uma ideia que me entusiasmava mesmo até ao dia em que o Pedro, um dos intervenientes do projecto- actor que me foi apresentado pela Eunice- se suicidou.
Com o seu desaparecimento, a ideia perdeu o brilho e eu o fôlego.
No início deste ano, na sequência deste post e do imenso feedback que recebi de quem me lê, decidi que ia regressar a este blog (sem pressões, nem obrigações) e que ia voltar aqui a reunir todo o conteúdo que tenho produzido ao longo dos anos e que anda espalhado por grupos e páginas de facebook, instagram e blogs paralelos. Afinal, este é o meu canto.
Amanhã encerro o grupo "Gente" lá no facebook, depois de hoje ter transcrito para aqui todos os posts que lá jaziam, agora todos arquivados na etiqueta "100 quadripolares que vale a pena conhecer".
Que este ano me traga mais pessoas inspiradoras e inspiracionais, normais e humanas, cheias de virtudes e vícios: gente.
The show must go on.
#shorthairdocare
Sempre usei cabelo comprido. I mean: sempre. Nunca me lembro de ter usado cabelo curto, aliás, houve dois momentos: um no fim da faculdade e outro quando me separei, estava o meu avô doente e achou que estava pavorosa. E quando digo "cabelo curto" refiro-me ao comprimento da melena sempre abaixo da linha dos ombros. Também houve um episódio triste em que, antes de engravidar, fui com a minha melhor amiga ao cabeleireiro fazer franja e, à custa de um remoínho que quis desprezar e que tenho desde que nasci, fiquei com uma espécie de palmeira plantada na mona até a miúda nascer.
Tirando isto sou muito conservadora no que toca ao meu cabelo: já experimentei ser ruiva e não gostei e acho que com cabelo castanho fico mortiça e sem salero, de forma que acabo sempre loira. E, obviamente, com o cabelo comprido. Um tédio, bem sei.
Em 2018 ano tive aquele ano do caraças que já aqui falei e com as prioridades todas alinhadas com a questão clínica caguei um bocado nas coisas mundanas, entre as quais as idas ao cabeleireiro. Ora, o meu cabelo cresce a uma velocidade vertiginosa a modos que, nas fotografias de Roma, agora em Janeiro, constatei que parecia uma sócia da Sandália Moreira de forma a que, na última sexta, arranquei cheia de coragem e fui ter como meu cabeleireiro.
Mal entrei no atelier o estupor Bruno estava a atender uma outra cliente de tesoura na mão. Disse boa tarde, alegremente, ainda de casaco vestido e mala na mão e queixei-me do comprimento do cabelo dizendo à toa qualquer coisa como "desta vez podes cortar o que quiseres, que isto está uma miséria!". Depois aconteceu tudo muito rápido: ele disse-me qualquer coisa como "vira-te lá para ver quanto é preciso cortar!", eu virei-me na posição de pé em que estava desde que chegara há 50 segundos e ele avança um "olha, tens que cortar mais ou menos isto!" e quando me virei para ver o gesto da medida que era necessário cortar, o que vi foi o carrasco da Maria Antonieta, com quase 60 cm de cabelo nas mãos que não percebi, de imediato, que eram os meus.
A seguir ia desfalecendo. Literalmente.
A Ana, mámen e a minha mãe que estavam a estacionar quando me deixaram à porta do atelier há 2 minutos entraram no dito cujo e eu estava de cabelo curto. Curtinho. Um bob ou lá que porra vem a ser esta. A minha mãe nunca me tinha visto de cabelo curto e a Ana ficou com os olhos muito, muito arregalados. Mámen começou a rir-se mas acho que era dos nervos.
O resto já se sabe. Têm sido dias difíceis: ora porque vislumbro o meu reflexo nas montras e não identifico de imediato que sou eu,ou porque ponho um litro de shampoo para lavar o cabelo e fico com dois terços de litro por usar, ou porque não tenho pontas onde pôr o amaciador porque as pontas são o que me resta de cabelo ou porque sinto, pela primeira vez na vida, frio no pescoço e é estranho ou porque não me sinto mesmo eu.
O meu cabelo nunca alinhou em modas: é mesmo uma questão de identidade. E sinto-me diferente-menos eu- com o cabelo curto. Apesar da maioria das pessoas achar que pareço mais miúda, sinto-me mais adulta (faz sentido, uma vez que uso cabelo comprido desde pequena e prolonga de forma contínua essa sensação de infantilidade). E,apesar de não precisar porque isto penteia-se em três escovadelas e está sempre com bom ar, uso muito mais o secador e a escova alisadora porque é tudo muito rápido e fácil. E uso mais brincos para ver se encho um bocadinho este espaço que ficou por preencher sobre os ombros. E maquilho-me mais, não sei porquê, ou porque me sinto mais adulta ou porque a cara está menos escondida e precisa de um toque de cor.
Os dias passam e ainda estou numa capilar-nostalgia, um hair blues, uma coisa parva. Tenham paciência e partilhem comigo que também se sentem assim para não me sentir tão solitária e drama queen.
A modos que é isto: sansona.
É assim que- por enquanto- estou.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
Todos os caminhos vão dar ao escroto
Estamos numa reunião de amigos e estou a contar as minhas peripécias sobre a minha visita a Roma.
A Ana já me ouviu contar as mesmas peripécias um sem número de vezes a diferentes amigos e revira os olhos e afasta-se para brincar com as LOLs e eu aproveito a folga para me rir e desabafar que mámen quis ver todas as igrejas e estátuas e calhaus e que eu queria era ver restaurantes e mercados de rua e lojas giras e ruas pitorescas e quando uma amiga me perguntou "afinal, o que viram mais em Roma?" dei uma resposta parva e rimo-nos imenso.
Aquilo passou e no domingo a Ana vai à catequese, esse local tão fértil de barracada quadripolar e no regresso começa a contar-me o que fez.
"Pintámos uma história sobre Moisés."
"Ah, que giro! A catequese é bem gira, Ana! Estava lá a catequista de sempre ou ainda está doente?"
"Não, já não está doente desde que tu estavas em Roma, lembraste? Quando falei contigo no skype até de dei o recado dela a dizer para tu dares beijinhos ao Papa!"
"Ah, boa!"
"Ah, ela perguntou se sempre viste o Papa. E eu respondi que sim. E perguntou: "então, Ana o que é que a mãe viu mais em Roma?"
"E o que tu respondeste?"
"Ah, o que tu disseste no outro dia à tua amiga." (pausa enquanto me observa). Muuuitos escrotos. O que são escrotos, mamã?"
...
...
...
O amor que fica
No outro dia, a propósito da comemoração dos 20 anos de namoro com o Rui, perguntaram-me se eu acreditava em almas gémeas.
Não acredito.
Amei três homens na vida: um demasiado platonicamente, um demasiado carnalmente e fiquei com o que amei na medida certa e no equilíbrio entre as duas margens.
Poderia ter tido uma relação duradoura e feliz com qualquer um dos outros dois com quem não fiquei, tivessem as circunstâncias e os tempos sido diferentes, e eu ter sido diferente nesses tempos. Os amores não se esquecem: arrumam-se nas gavetas recônditas do coração, mete-se almofadinhas com cheirinho de alfazema para prevenir maus cheiros e bolor, dobra-se bem dobrado e, em alguns casos, faz-se como com as toalhas de linho e embrulham-se em turcos antes de arrumar, para garantir que ficam acondicionados e preservados. Que não se estragam. Mesmo que saibamos que não os voltaremos a usar.
Antes achava que não: que os amores passados eram roupa usada, velha, descartável. Mas depois o tempo passou e eu passei pelo tempo e vislumbrei claramente quem eram os amores da minha vida e o quanto lhes quereria bem para sempre, mesmo que já não os tivesse a eles nem eles a mim.
O amor é uma sorte bestial para a qual não basta encontrar a pessoa certa: é preciso haver o timing das vidas, as circunstâncias do destino e a predisposição certa, porque o amor dá um trabalho danado! MEC escreveu qualquer coisa como “o amor é uma coisa, a vida é outra porque a vida dura a vida inteira, o amor não” e eu não acredito nisso nem nas almas gémeas mas acredito que o amor pode durar uma vida inteira, mesmo que não resulte em relações ou em romance. O respeito pela pessoa que se amou, o carinho e o bem querer mesmo à distância, os sorrisos que involuntariamente esboçamos quando nos vêm memórias à cabeça e o bem que nos fez aquele amor cá dentro, no motor do coração, são sinais inequívocos que o amor não se esgota quando encontramos o nosso final feliz.
Amei três homens na vida: um eu deixei, o outro deixou-me e fiquei com o terceiro. A vida corre: saldada e feliz.
O amor a geminar não derruba o amor que já murchou e voltou à terra, fertilizando-a para alimentar melhor o amor que floresce. Não há almas gémeas.
Todo o amor fica mesmo que fiquemos num só amor.
[E a partir de agora os textos bonitos que podem ler no Instagram passarão também a morar aqui]
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
OS Ryanairalls
Os reino dos Millenials também conhecido por Modernália ou Milénioàtoa é composto por organismos heterotrófos digitais,ou seja, por organismos que não produzem o próprio alimento mas que são muita fortes em fotografá-los.
Trata-se de um reino fabuloso e complexo por apresentar um sem número de filos e espécies espantosas que vai desde os green millenials, os instagrammers aos runners e aos vloggers até que chegamos, finalmente, à espécie mais paradigmática: os ryainairalls.
Os Rayanairalls têm um pensamento nómada e um gosto enorme por viajar sem, no entanto, possuírem características de conta bancária para viajar com a dignidade e - assumamos- o conforto com que acham que merecem, sendo essa uma das principais características do grupo e que os diferencia de outros seres voadores sem asas, como é o caso dos OVNIs.
Os Ryanairalls são classificados em diversos filos, sendo muitos deles animais acéfalos que em pleno ano da graça de 2019 continuam a bater palminhas quando o piloto aterra e outras características semelhantes como a capacidade de se indignarem muito por terem que pagar por uma miniatura de martini a bordo devido ao facto desta não estar incluída no bilhete de dez euros de ida e volta para Bordéus.
Esta capacidade de esperarem ter direito a refeições do José Avillez a bordo bem como de almofadinha e mantinha e filmes e phones para depois gamarem e enfiarem nas malas de mão pelo módico preço de 7,5 euros por bilhete de ida e volta a Málaga só é superada pela fabulosa capacidade em acreditarem no poder mágico de malas que encolhem ("Não, não pode ser! Enfie lá isso bem aí na coisa de medir as malas que eu juro pela minha vizinha ceguinha, ela não veja mais já aqui, que isso tem as medidas certinhas!" e, ainda mais, em jurarem a pés juntos que o pessoal de check in deveria " vá lá, não pode fechar os olhinhos a esta mala? É que no site dizia 40cm x 20cm x 25cm mas a feira del Relógio de Madrid estava tão boa que trouxe umas camisolas para o meu cão e gato e para o piriquito e não percebo porque me quer cobrar mais e me obriga a mandar esta mala para o porão" não para todos os passageiros com malas oversize, mas para si em particular.
O Ryainairall viaja contrariado. Está chateado com tudo, basicamente: com o facto de ter que se sentir passageiro de segunda por entrar no terminal 2 do aeroporto de Lisboa, de não haver lojas duty free em barda no mesmo terminal, de ter que andar a pé até ao avião na pista, de não poder levar líquidos na mala de mão (mesmo que essa regra seja para todos, mas, nesta altura, o ryainairall já está com a mania da perseguição!), de ter subir escadas até à porta do avião, dos assentos serem apertados, de não haver lugares marcados, de não haver revistas (mesmo que nunca as leia) nem monitores, dos comissários de bordo ainda usarem Clearasil e das hospedeiras não terem rabos de cavalo perfeitos e estarem cheias de ganipas nos cabelos, da casa de banho não ter Feno de Portugal para se lavar as mãos e, finalmente, de com aquelas tão parcas condições, a companhia aérea não emitir um pedido de desculpas, por quem sois, e face ao privilégio de ter tão distinta espécie a bordo, não lhes permitirem viajar de borla.
Os Ryanairalls são criaturas que gostam de ir para a fila da porta de embarque para serem os primeiros a entrar para o avião mesmo que os lugares estejam pré-definidos e escritos nos bilhetes, que não fazem xixi antes de embarcarem e depois gostam de estar de pé na fila para a casa de banho do avião, que gritam da primeira fila para a última "ó amor, passa-me aí a sande mista", que viajam de avião com tanta naturalidade que aproveitam para roer unhas, arranjar sobrancelhas, pentear-se e espremer borbulhas, e que mal o avião aterra e ainda a ouvirem o aviso para permanecerem sentados desatam de imediato os cintos de segurança e fazem uma melodia de clicks, ainda antes, do derradeiro aplauso.
Os Ryainaralls não deviam ter destino, seja ele Roma ou Manchester porque viajar na Ryainar é A verdadeira experiência de viagem: regateia-se pesos de malas como numa medina de Marrocos, cobram-lhes por respirarem aos preços do Dubai, são levados a apostar em raspadinhas como se estivessem numa corrida de cavalos de Ascot, a experiência de ir a casas de banho é como se estivessem numa tabanca da Guiné-Bissau e são vendidos perfumes com o expertise com que se faz nas melhores perfumarias de Paris de França.
Os Ryainaralls são uma espécie maravilhosa e merecem tudo de bom que a experiência aérea lhes consiga proporcionar.
Em particular a corneta da aterragem.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Uma aventura como fada dos dentes (Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada continuem a botar os olhinhos nestes guiões!)
Uma pessoa tem uma experiência prévia bem sucedida.
Uma pessoa cria uma porta de fada dos dentes na parede do quarto da filha e sente-se uma super mãe no que confere à matéria dos dentes.
No primeiro dente caído uma pessoa comprou um peluche de unicórnio, escreveu uma carta assinando-se como a fada e ainda espalhou farinha maizena à laia de pó de fada.
A filha de uma pessoa rejubilou com a queda do primeiro dente e reacção da respectiva fada.
Uma pessoa recebe visita dos cunhados no dia a seguir ao Natal.
Uma pessoa entre sobras de bolo rei, doces expostos em mesas suplentes na sala, malas de roupa dos cunhados e toda uma rotina alterada com as visitas anda numa fona.
Uma pessoa acha-se capaz de lidar com uma fona.
No dia em que os tios chegam e menos de uma hora antes de os ir buscar ao aeroporto, cai o segundo dente da filha.
Uma pessoa percebe que não vai conseguir manter o standart ao nível da fadice dos dentes.
Uma pessoa pensa "agora vou buscá-los ao aeroporto e logo improvisamos".
Uma pessoa fica até às duas da manhã a pôr a conversa em dia com os cunhados.
A pessoa bebe gin dos Açores e fica ligeiramente entorpecida.
A pessoa adormece assim que mete o rabo na cama.
A pessoa é violentamente acordada pelo marido cinco minutos antes do despertador tocar e fazer um cagaçal para acordar toda a família.
O marido de uma pessoa suspira aflito: "Foda-se: a puta da fada dos dentes!"
Uma pessoa pensa "que classe!" enquanto se controla para não pingar nas cuecas tal o cagaço que apanha por acordar com esta prosa poética.
Uma pessoa e seu marido correm para o quarto da cria.
A filha de uma pessoa suspira quando sente a fada a mexer-lhe na almofada para lhe roubar o dente.
O marido de uma pessoa diz "shiiiiiiu e despacha-te, pá!"
A pessoa pergunta ao marido de uma pessoa pela moeda para meter no lugar do dente.
O marido de uma pessoa volta a praguejar baixinho e vai ao quarto remexer na sua própria carteira.
Uma pessoa, estremunhada e cheia de remelas, reza ao Santo Maló, padroeiro dos dentes, para a cria não acordar com toda aquela agitação.
O marido de uma pessoa volta com um ar de indignação total e estende uma nota de 20 euros acompanhada de um grunho: "não reclames, não tenho mais trocado e não podemos pagar a porra do dente com multibanco".
Uma pessoa pensa que vai passar a carta da fada porque aquela hora e depois de ser acordada daquela maneira nem escrever o nome sabe, quanto mais juntar palavras e construir um texto para uma carta.
Uma pessoa já está por tudo e numa acrobacia saca do dente debaixo da almofada, espeta a nota de vinte euros lá debaixo e dirige-se à cozinha para ir buscar a farinha Maizena para completar a tarefa.
Uma pessoa, de dente roubado em riste, ouve a filha de uma pessoa a acordar.
Uma pessoa, no pânico de ser apanhada em flagrante fado-delito, abre o armário de pequeno almoço e esconde o dentinho dentro de uma chávena de café.
A filha de uma pessoa acorda e fica extasiada com a nota de vinte euros que a fada lhe deixou.
O marido de uma pessoa exibe o maior sorriso paternal amarelo da história dos sorrisos paternais.
A filha de uma pessoa acorda os tios para mostrar a notinha azul que ganhou da fada dos dentes.
Uma pessoa faz o pequeno almoço para a filha de uma pessoa, põe a chaleira a aquecer para fazer o café batido para as visitas e liga a máquina de café de cápsulas.
O marido de uma pessoa vai à padaria para trazer pão fresco para a família.
A família feliz senta-se, finalmente, a tomar café e a comer pãozinho na paz do senhor.
Uma pessoa faz a sua rotina todo o dia.
Uma pessoa, como é sexta-feira e tem visitas, vai para um bar de cervejas artesanais curtir a cena.
Uma pessoa usa, inclusive, a casa de banho desse bar para fazer o número 2.
Uma pessoa ainda vai para a Fábrica Braço de Prata.
Uma pessoa chega de madrugada e ainda vai com o marido de uma pessoa e os cunhados para a cozinha fazer uma ceia.
O marido de uma pessoa pede-lhe que mostre o pequeno dentinho aos cunhados de uma pessoa.
Uma pessoa dirige-se ao armário para onde atirou o pequeno dente da Ana* para dentro de uma chávena.
Uma pessoa percebe que a pequena chávena foi a que usou para beber um merecido expresso de manhã, ao pequeno almoço.
Uma pessoa auto-flagela-se mais de uma semana até conseguir escrever este post.
No primeiro dente caído uma pessoa comprou um peluche de unicórnio, escreveu uma carta assinando-se como a fada e ainda espalhou farinha maizena à laia de pó de fada.
A filha de uma pessoa rejubilou com a queda do primeiro dente e reacção da respectiva fada.
Uma pessoa recebe visita dos cunhados no dia a seguir ao Natal.
Uma pessoa entre sobras de bolo rei, doces expostos em mesas suplentes na sala, malas de roupa dos cunhados e toda uma rotina alterada com as visitas anda numa fona.
Uma pessoa acha-se capaz de lidar com uma fona.
No dia em que os tios chegam e menos de uma hora antes de os ir buscar ao aeroporto, cai o segundo dente da filha.
Uma pessoa percebe que não vai conseguir manter o standart ao nível da fadice dos dentes.
Uma pessoa pensa "agora vou buscá-los ao aeroporto e logo improvisamos".
Uma pessoa fica até às duas da manhã a pôr a conversa em dia com os cunhados.
A pessoa bebe gin dos Açores e fica ligeiramente entorpecida.
A pessoa adormece assim que mete o rabo na cama.
A pessoa é violentamente acordada pelo marido cinco minutos antes do despertador tocar e fazer um cagaçal para acordar toda a família.
O marido de uma pessoa suspira aflito: "Foda-se: a puta da fada dos dentes!"
Uma pessoa pensa "que classe!" enquanto se controla para não pingar nas cuecas tal o cagaço que apanha por acordar com esta prosa poética.
Uma pessoa e seu marido correm para o quarto da cria.
A filha de uma pessoa suspira quando sente a fada a mexer-lhe na almofada para lhe roubar o dente.
O marido de uma pessoa diz "shiiiiiiu e despacha-te, pá!"
A pessoa pergunta ao marido de uma pessoa pela moeda para meter no lugar do dente.
O marido de uma pessoa volta a praguejar baixinho e vai ao quarto remexer na sua própria carteira.
Uma pessoa, estremunhada e cheia de remelas, reza ao Santo Maló, padroeiro dos dentes, para a cria não acordar com toda aquela agitação.
O marido de uma pessoa volta com um ar de indignação total e estende uma nota de 20 euros acompanhada de um grunho: "não reclames, não tenho mais trocado e não podemos pagar a porra do dente com multibanco".
Uma pessoa pensa que vai passar a carta da fada porque aquela hora e depois de ser acordada daquela maneira nem escrever o nome sabe, quanto mais juntar palavras e construir um texto para uma carta.
Uma pessoa já está por tudo e numa acrobacia saca do dente debaixo da almofada, espeta a nota de vinte euros lá debaixo e dirige-se à cozinha para ir buscar a farinha Maizena para completar a tarefa.
Uma pessoa, de dente roubado em riste, ouve a filha de uma pessoa a acordar.
Uma pessoa, no pânico de ser apanhada em flagrante fado-delito, abre o armário de pequeno almoço e esconde o dentinho dentro de uma chávena de café.
A filha de uma pessoa acorda e fica extasiada com a nota de vinte euros que a fada lhe deixou.
O marido de uma pessoa exibe o maior sorriso paternal amarelo da história dos sorrisos paternais.
A filha de uma pessoa acorda os tios para mostrar a notinha azul que ganhou da fada dos dentes.
Uma pessoa faz o pequeno almoço para a filha de uma pessoa, põe a chaleira a aquecer para fazer o café batido para as visitas e liga a máquina de café de cápsulas.
O marido de uma pessoa vai à padaria para trazer pão fresco para a família.
A família feliz senta-se, finalmente, a tomar café e a comer pãozinho na paz do senhor.
Uma pessoa faz a sua rotina todo o dia.
Uma pessoa, como é sexta-feira e tem visitas, vai para um bar de cervejas artesanais curtir a cena.
Uma pessoa usa, inclusive, a casa de banho desse bar para fazer o número 2.
Uma pessoa ainda vai para a Fábrica Braço de Prata.
Uma pessoa chega de madrugada e ainda vai com o marido de uma pessoa e os cunhados para a cozinha fazer uma ceia.
O marido de uma pessoa pede-lhe que mostre o pequeno dentinho aos cunhados de uma pessoa.
Uma pessoa dirige-se ao armário para onde atirou o pequeno dente da Ana* para dentro de uma chávena.
Uma pessoa percebe que a pequena chávena foi a que usou para beber um merecido expresso de manhã, ao pequeno almoço.
Uma pessoa auto-flagela-se mais de uma semana até conseguir escrever este post.
Uma pessoa questiona-se porque não se dedicou à vida religiosa e viveu uma vida de clausura sem marido nem filhos.
Uma pessoa sofre muito.
Dos nervos.
[* Nome fictício para efeitos meramente exemplificativos]
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