segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O nacional copulo-entretenimento

Os Portugueses fazem, ao nível do panorama do entretenimento internacional, muito poucas coisas bem. A melhor que fazem, sem dúvida, é o nacional copulo-entretenimento, a.k.a. foder formatos televisivos de sucesso internacional.

Ora, é preciso alguma mestria nesta arte do nacional copulo-entretenimento: não basta investir capital em adquirir os formatos,  O grande segredo vem depois dessa fase e está envolvido numa grande mestria e consiste em - atentai!- fazer escolhas erradas. Tipo todas as escolhas erradas.

Escolhamos alguns exemplos aleatórios para demonstrar esta mestria:

Masterchef

O Masterchef é um dos programa de mais sucesso no Mundo e o Masterchef Australia, em particular, o preferido em toda a esfera internacional.
O conceito é simples: três cozinheiros reconhecidos e de sucesso avaliam pratos de cozinha confeccionados por cozinheiros amadores. Essa avaliação é feita com empatia, sem nunca se esquecerem que estão diante de amadores, com humildade e sugestões de oportunidade de melhoria.  Há subjacente uma relação de mentoria mas de igual para igual, de mestre que ensina a pupilo. Os concorrentes sabem que estão numa competição mas nunca se esquecem da decência e da ética em casa nem da empatia com os colegas em igual circunstância. De caminho há umas master-Classes onde se partilham receitas, técnicas e é tudo fluido e bom.
Eu sigo vários ex concorrentes do Masterchef Austrália no Instagram e é bonito ver como depois do programa acabar eles mantêm os laços entre si e se apoiam nos novos projectos, incluindo os jurados, mostrando que a relação não foi apenas circunstancial e funcional mas que, de facto, se tornaram cúmplices e próximos pela partilha daquela experiência.

O Masterchef Portugal é o exemplo do que pior se fez em termos de adaptações de formatos em Portugal. Os três jurados eram Manuel Luis Goucha, ex-cozinheiro do tempo em que a única concorrência televisiva que fazia era concorrência ao bigode do Luis Pereira de Sousa; chef Rui Paula num tom arrogante e burgeso e chef Miguel Rocha Vieira num tom presunçoso e altivo.
Foi doloroso ver o que fizeram ao Masterchef: agarrar num formato tão jeitoso e colocarem expressões gouchistas como "Tendes 30 minutos para confeccionar esse prato" e ninguém aguenta o tom eloquente e erudito do ex-cozinheiro, reacções mal criadas aos pratos e Rui Paula ou ainda cuspidelas de comida nos guardanapos do Miguelinho, todos com uma postura de "meistres"-divas-mania-que-sabem-tudo-cretinos. 
Não se aguenta! 
Às tantas quase que tinha pena dos concorrentes, não fosse também eles todos serem escolhidos a dedo e os produtores portugueses insistirem sempre dar mais protagonismo às personalidades e às tricas entre eles que propriamente ao esforço na confecção ou mesmo à qualidade final dos seus pratos.
Lágrimas. Lágrimas de sangue.


Casados à primeira vista


O Casados à primeira vista também na sua edição australiana é um formato engraçado. Mesmo numa edição em que colocaram uma mãe solteira gorducha a casar com um troglodita insensível e troll, o nível nunca baixou. Houve inclusive um par de gémeas que se casou, uma teve um parceiro super compatível, a outra nem por isso e mesmo perante os desafios colocados pela produção a desgraçada da gémea infeliz continuou sempre colaborante, facilitadora e respeitosa com o marido que lhe calhou na rifa. Sem baixarias, sem desrespeito, sem estrilho. 

O Casados à primeira vista português teve a Sónia que achou que ia encontrar um Ken e que nem deixou o pobre do novo marido abrir aboca e já o odiava por defeito. E tinha o Hugo que, pelo contrário, antes de conhecer a Ana e já a amava profundamente por defeito. E um Conde da Cedofeita e uma Graça que mostrou toda a sua graça até se terem lembrado de lhe atribuir o título Miss Ninfomaníaca MILF. E uma Eliana que fazia de reencarnação da Elsa do alpendre e do "beijinhos para a Segurança Social" do Big Brother 2 porque uma "loira burra" estereotipada como personagem-tipo calha sempre bem. E tinha o Daniel que, enfim, assusta-me mais que a Exorcista na cena em que esfaqueia o farfalota pimpinela. 
Como se isto não bastasse e porque a receita não era ainda suficientemente catastrófica adicionaram um extra que foi "especialistas" na área do amorrrr, tendo dois deles tirado a amorosa especialidade nessa grande Universidade que é a Universidade da Vida. Love coaching que seja, se há life coachings que se abra a coachingangada ao amor. 
Suspiro. Suspiro muuuuuito profundo. 

Lip Synk


O Lip Synk original é americano. Tem famosos a sério que fazem shows de karaoke a sério,sendo que o topo do topo foi alcançado pela Anne Hathaway. Tem dois apresentadores que têm graça, pertinência e presença e uma senhora que está ali a fazer de DJ a enfeitar que, mesmo na versão original., é completamente indispensável. Mas perdoa-se porque há espectáculo a sério. Já falei da Anne Hathaway?

O Lip Synk Portugal é constrangedor. Causa-me verdadeira vergonha alheia. Foram buscar de arrastão o João Manzarra que baby isto não é ter exclusividade e receber todos os meses a transferenciazinha do salário para andar aí a vegan-evangelizar as 'ssoas em viagens em sítios paradisíacose nada de dar o corpo ao manifesto na tevê. Nã, nã, nã, nã. E o Manzarra apresentou o seu protesto em forma de ninho de cegonha no cimo da cabeça e camisas havaianas. E juntou o César Mourão que é óptimo no improviso e no género comédia mas que aqui está tão à vontade como peixes no Trancão. Se a senhora que está a fazer de DJ na versão original já é sofrível, não consigo qualificar a prestação da Débora Monteiro e das suas gargalhadas de pequena hiena.
Isto tudo poderia ser absolutamente irrisório se Anne Hathaway mas não: toca de convidar pessoas para reproduzirem prestações fabulosas (sim, Sara Mato: tu mesmo!) mas que acabam assim tipo atuações de pechisbeque e ainda reforçar com jogadores da bola e actores e travesti-los. Em bom?
Tipo o Tom Holland a representar a Rihanna?

           

Não. Tipo matrafonas de Torres Vedras. Não barbeando o Raminhos e enfiando-o num vestido de tule e tecido rasca da Elsa ou oferecendo um José Raposo bardajão a mexer a boca sem saber sequer a porra da letra da música. Vómitos. 
Se querem matrafonas de Torres Vedras: assumam. Chama-se o coreógrafo daquilo e a malta assiste aos ensaios e é um conceito nacional e não importado. É original e tudo. Agora matrafonear o Lip Sync é só, mais uma vez, dar corda e alimentar a máquina de copulo-entretenimento tuga.

Como diria o meu amigo Pedro:  "Filhas, Lip Sync Portugal? Vão antes ao Finas apoiar as verdadeiras artistas!" 


             

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