sábado, 11 de maio de 2019

Uma aventura no hospital (Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: que nunca vos falte tema!)



Uma pessoa está a trabalhar e recebe um telefonema da escola da filha de uma pessoa.
Uma pessoa tem uma micro trombose de cada vez que vê o número da escola no seu telemóvel.
Uma pessoa começa a tremer e a piscar das pálpebras e a suar do bigode.
Uma pessoa imagina o massacre de Ranholas, rapto escolar, um sismo com o epicentro na sala de aula da criatura, enquanto não ouve: "olá mãe, a Ana está com febre, pode vir buscá-la?"
Uma pessoa voa do trabalho até casa em dez minutos num percurso que demora trinta minutos a ser feito.
Uma pessoa chega e a miúda já está com a avó, com febre altíssima.
Uma pessoa não tem urgências no respetivo centro de saúde.
Uma pessoa acha que os sintomas correspondem à quarta amigdalite do último ano e vai de levar a miúda às urgências pediátricas do hospital, para lhe darem a porra da injeção de penincilina.
Uma pessoa já vai a transpirar para as urgências a adivinhar a porca miséria da sua vida e a sirene que vai sair das goelas da filha de uma pessoa.
Uma pessoa vai à triagem e recebe pulseirinha amarela.
Uma pessoa ouve da enfermeira que "isto hoje até está calminho, ela é chamada não tarda muito..."
Uma pessoa está ali a tentar arranjar um lugar para sentar-se com a miúda e não encontra nenhum a uma léguas de todas as outras crianças doentes e fica de pé e a parecer uma neurótica tipo "não toques em nada que isto está cheio de bactérias e entras com uma amigdalite e sais com uma gastroenterite.
Uma pessoa despe as vinte camadas de roupa da miúda para a refrescar da febre".
A filha de uma pessoa pede para ver o instagram de família para espreitar umas fotografias da prima que mora longe.
Uma pessoa liga os dados e abre a conta do instagram privado e começa a ver a rede social com a filha.
Uma pessoa fica muito apertadinha para fazer xixi.
Uma pessoa atira o telemóvel com a janela aberta no instagram da família e os dados ligados para dentro da mala.
Uma pessoa arrasta a miúda enquanto procura uma casa de banho.
Uma pessoa vê a primeira casa de banho da sala de espera das urgências ocupada e ouve sons de vómitos lá dentro.
A filha de uma pessoa pede colo a uma pessoa em virtude de não "querer tocar em nada, mamã!".
A filha de uma pessoa tem seis anos e pesa ao colo, fazendo especial pressão em cima da bexiga de uma pessoa.
Uma pessoa não consegue esperar o fim da batalha dos vómitos na casa de banho e a chegada de uma empregada de limpezas para limpar todo aquele bedum.
Uma pessoa está quase a finar-se da bexiga.
Alguém vê o ar desesperado de uma pessoa e aponta uma segunda casa de banho, muito discreta, ao pé de um fraldário.
Uma pessoa faz marcha até à casa de banho  com a miúda a tira-colo e mais pulseirinhas e camisolas e casacos da miúda no braço e, claro, a respectiva mala.
Uma pessoa chega e avista uma sanita liliputiana, onde não cabe sequer a nádega de uma pessoa.
Uma pessoa depressa constata que não consegue pousar o nalguedo na sanita do Tyrion Lannister.
Uma pessoa entrega o corpo às balas e pousa a miúda no chão e mais a mala e os casacos e, que se lixe, uma pessoa precisa é de fazer xixi, que se copulem as bactérias, os micróbios, os vírus e todos os microrganismos hospitalares não identificados.
Uma pessoa faz xixi de pé a fazer pontaria para a micro-pia do demo com a mesma motricidade de uma foca a bater palminhas.
Uma pessoa olha e dá de caras com a filha de uma pessoa de telemóvel de uma pessoa em riste a filmar as figurinhas de uma pessoa e ahahahah para mostrar ao pai ahahahah.
Uma pessoa arranca o telemóvel das manápulas de criatura filha de uma pessoa -"Ana*, eu acabo com a tua raça!"- e observa que a mesma estava a fazer um directo no instagram de família de uma pessoa.
Uma pessoa reza para que ninguém esteja online naquele momento.
Uma pessoa vê ali, fofinho, o sinal de um espectador.
Uma pessoa tem uma paragem cardíaca.
Uma pessoa nunca mais quer encarar o seu sogro na vida.
Uma pessoa questiona-se porque não se dedicou à vida religiosa e viveu uma vida de clausura sem marido nem filhos.
Uma pessoa sofre muito.
 Dos nervos.

 [* Nome fictício para efeitos meramente exemplificativos]

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