sexta-feira, 5 de julho de 2019

O SNS é de todos nós

Há meses que tinha esta consulta de otorrino agendada num hospital público para a Ana. Não sendo nada urgente, é importante que seja vista por um médico de especialidade. 
Hoje era o dia. Esperámos duas horas até que uma enfermeira teve a tarefa aborrecida de me explicar a mim (e a outros pais que estavam na sala de espera) que não conseguiam localizar a médica, pelo que, presumiam que estava de greve. 
Eu devo literalmente a minha vida a vários médicos. 
Ao Dr. Gentil Martins que me operou em condições muito adversas sendo eu prematura de muito baixo peso, aos quinze dias de vida, depois de me recusarem a operar porque “não valia a pena porque assim como assim ia morrer”. Sobrevivi. 
Ao Dr. Torrado da Silva e à Dra. Karin Dias que orientaram os meus pais, dois miúdos de vinte anos, e os ensinaram a cuidar de uma recém nascida com uma patologia grave. 
À Dra. Arlete Martins do CMRA que dos 2 meses aos 18 anos acompanhou cada decisão cirúrgica em conjunto com o Dr. Salis do Amaral, cada período de reabilitação pós cirúrgica, cada estádio do desenvolvimento e desafios novos que se colocavam. Que já na puberdade me liberou das botas ortopédicas e das talas e assistiu, à minha marcha autónoma, de lágrimas nos olhos. 
A Dra. Guilhermina Ladeira acompanhou a minha gravidez de alto risco, recebeu-me em cada urgência, ouviu todos os desabafos da minha depressao pré-parto, aliviou-me com serenidade cada angústia e interrompeu as suas férias para vir ajudar a Ana a vir ao Mundo e cozer-me a bainha de amor que restou na minha barriga. Nunca a esqueceremos. 
Recentemente tive um problema de saúde e foi a Dra. Daniela Marto, o Dr. Alexandre Camões e a Dra. Sílvia Barbosa a que me salvaram. Literalmente. Sempre com genuíno interesse, preocupações para além das clínicas e amor pelo próximo. Que somos todos. Que fui eu. 
Se não fosse o SNS eu não estaria viva. Mas se não fossem os médicos eu não só não estaria viva como não seria a pessoa com marcha autónoma, potencial cognitivo intacto,  capacidade de auto gestão das limitações inerentes à minha patologia, mãe, funcional e resolvida que sou hoje. 
Não foram apenas procedimentos clínicos. O Dr. Gentil Martins não se limitou a encerrar a minha mielomeningocelo: arriscou operar-me, importou-se, investiu, acreditou. A Dra. Karin Dias e o Dr. Torrado não se limitaram a acompanhar os primeiros meses: capacitaram os meus pais, confortaram-nos, fizeram-nos vincular-se e acreditar no meu potencial. A Dra. Arlete não me prescreveu apenas ortoteses: deu-me lições de exigência, rigor e resiliência, não se condescendeu e fez-me alcançar sempre o máximo do meu potencial, acompanhou a minha mãe no pós divórcio com a missão de quem é mais de que uma médica. O Dr. Salis do Amaral não me retirou apenas o cuboide e fez-me o alongamento do tendão de Aquiles: ia todos os dias, mesmo os de folga, à minha cabeceira da cama do hospital Sant’Ana para me chamar campeã. E eu acreditava. 
A Dra. Guilhermina não me fez apenas uma cesariana: preparou-me nos meses de gravidez para ser mãe da Ana, sem medos nem receios, com confiança e segurança. Capaz. 
A Dra. Daniela não me receitou apenas medicação na consulta da dor: salvou-me de uma depressão, do desespero. A Dra. Silvia Barbosa e o Dr. Alexandre Camões não me fizeram apenas infiltrações: devolveram-me a marcha, devolveram à minha filha a sua mãe. 
Hoje a Ana não teve consulta de otorrino. E eu expliquei-lhe o porquê e tudo bem: os médicos são nossos amigos. 
E nós aos amigos fazemos sempre uma única coisa: estamos com eles, apoiamo-los. 
Hoje esta greve também é nossa: de todos os que foram salvos pelo SNS e que o querem inteiro. De todos os que devem as suas vidas aos médicos que não são apenas médicos: são pessoas que salvam pessoas. E que o devem fazer num contexto da maior dignidade. Pessoas que escolheram uma profissão de amor. 

Obrigada.

3 comentários:

Anathelion disse...

👏👏👏👏
Muito bom!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

É também por isto que gosto tanto da pessoa que és!

Ana Pereira disse...

Quando for grande, gostava de ser um bocadinho como a Liliana :) que inspiração de pessoa! Que grande sorte tem a Ana!

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