quarta-feira, 4 de março de 2020

A parábola que se transformou numa metáfora e a morte de uma das principais figuras de estilo

Há exactamente sete anos andava fascinada com esta história. Contei-a aqui mas posso voltar a resumi-la:

"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... e foi assim." 

  

Ulay morreu esta semana.

Dei por mim, triste e melancólica, a pensar em tudo o que poderia ter sido se se abraçassem e tivessem caminhado juntos na mesma direcção da Muralha da China. Teriam só conhecido uma margem- a mesma- os dois ao invés de cada um conhecer cada pedacinho do lado oposto. Teriam perdido Mundo? Teriam ganho Mundo?

Terá acontecido o mesmo com eles? Digo isto no sentido de acontecer de forma interna. Em que se tornaram no caminho individual? No que se poderiam ter tornado no plural?

O amor pode, não resistindo, persistir? E quando a vida e o amor são coisas diferentes? E todas as possibilidades que não passaram disso? E toda a história que se concretizou sobre uma não concretização?

Muitas vezes, o amor é uma coisa e a vida é outra e isso é, simultaneamente triste e belo de tão triste que é.  Uma contradição absolutamente estúpida. 

Ulay morreu esta semana e com ele morreu tudo o que poderia ter acontecido. 

4 comentários:

Filipe disse...

...é no silencio que realmente sentimos/percebemos quem somos e o que nos significam todos os outros. Aqui a artista foi engolida pela vida dela própria... e por todo o oceano de emoções, recordações e experiências que acabou de revisitar.
Depois... depois surgem os "ses" e as hipóteses que, por não ser vividas, só ganham forma no silencio do vazio.

Unknown disse...

É difícil o amor resistir quando duas pessoas optam por percorrer caminhos diferentes que os vão afastar cada vez mais, durante muito tempo. O amor não você do ar, requer cuidado, alimento.

Iceberg disse...

Já te disse, hoje, que gosto muito de ti?

Marta Cabrita disse...

e eu continuo a chorar com estes minutos de video e a hsitória que o alimenta, as lágrimas saltam-me como nos desenhos animados japoneses....

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