segunda-feira, 20 de abril de 2020

Psicologia social, populismo, 25 de Abril e democracia em tempos de crise sanitária



I.

Sou tendencialmente de esquerda. Digo tendencialmente porque não sou suficientemente interessada por política nem visto a camisola de mangas compridas de nenhum partido para assumir como minhas todas as suas crenças, ideologias e causas. Não tenho pálas políticas nem consigo tolerar baboseiras várias com que, ocasionalmente, me deparo nos programas políticos dos partidos de esquerda (quer os mais extremistas quanto os mais moderados).  E digo que sou tendencialmente de esquerda porque, apesar de discordar com muitas coisas que povoam as agendas políticas dos partidos de esquerda, a discorância face ao número de temas é assustadoramente maior quando me deparo com os temas, as causas, os valores e as soluções apresentadas pelos partidos de direita. 
Serei democrata, se pensarmos no quanto acredito na democracia como forma de organização de uma sociedade. E socialista se ponderarmos no quanto defendo como valor máximo a igualdade de oportunidades. Sou, sobretudo, a favor do humanismo, da igualdade e da liberdade. 

II.

Tenho vindo a acompanhar o crescimento de movimentos de extrema direita no Mundo. E em Portugal, também, com o inqualificável do André Ventura a saber tirar partido desta onda populista como ninguém.
A sociedade portuguesa mudou: quem lutou pelo fim da ditaduras e pela democracia, pela liberdade está, agora, na geração acima da dos meus pais. Eu e os da minha idade- os da geração Y-crescemos com a liberdade como uma verdade inquestionável, herdada sem mérito próprio, um dado adquirido. Somos os das conquistas rápidas, do imediatismo, dos avanços tecnológicos, da facilidade na aquisição de bens, dos créditos e do início da mudança do paradigma da comunicação e da interação social marcada pelo avanço da internet. Somos a primeira geração verdadeiramente nascida num novo mundo tecnológico, com relações de grupo mais rápidas, mais fáceis, mais imediatas, menos profundas. Somos os dos blogs, do hi5, do facebook e do instagram, dos que têm tantos estímulos que privilegiam a informação curta, rápida, directa, com menos texto e mais imagens. Somos, fundamentalmente, os do twitter: 280 palavras que resumam o Mundo e deixem-se de mimimis, que temos mais que fazer.
 O nosso tempo, ritmo e vigor é mais rápido, mais veloz, menos paciente do que alguma vez foi: fazemos juízos de valor por notícias cujo título nos cabeçalhs apenas lemos e nem chegamos a abrir o corpo de texto, formamos opiniões porque vemos imagens bonitas publicadas por influencers e posicionamo-nos face a temas porque lemos discussões nas caixas de comentários das redes sociais, a que deitamos brevemente um olhinho, enquanto vamos ao wc, no horário do trabalho. Não queremos desperdiçar tempo com o que não é necessário desperdiçar: andamos para a frente os anúncios na televisão, pagamos as contas via internet, fazemos transferências por mbway, enviamos mensagens por email que não precisam de selo e de viagem para serem lidas, não esperamos para pagar portagens porque usamos via verde. 
Pese embora me choque, não me surpreende que os Andrés Venturas desta vida comecem a ganhar protagonismo nesta altura, dizendo parangonas rápidas que vão de encontro às frustrações do dia-a dia de cada um de nós, analisando os temas polémicos e posicionando-se sempre no contra corrente para chegar aos que não se revêem nos modelos instituídos, reproduzindo comversas de cafés onde o correio da manhã está sempre em cima do balcão e a CMTV sintonizada, como uma espécie de bíblia populista. Sabe comunicar para a nossa geração no que diz respeito à forma: é rápido, é directo, é controverso, não ocupa muito tempo nem energia. É perigoso exactamente por isto. 
Por isto urge lutar, dia após dia, contra o disseminar destes discursos que apelam à segregação, ao ódio, ao nacionalismo bacoco. Urge mostrar a todos quem é este cretino e o que o move e lembrar os valores da democracia e da liberdade. Como? Com a forma como ele faz exactamente o oposto: rapidamente, de modo directo, sem longos debates, indo precisamente ao encontro desta geração que gosta de tomar decisões de forma rápida e que não quer perder tempo. Adptando, portanto, a mensagem ao público. Simples como isto. 

III.

Os tempos são duros. Para todos. Fui, inicalmente,contra o decretar do estado de emergência. Que vantagens nos traria o estado de emergência ou o estado de sítio num país brando, que até tinha vindo a controlar exemplarmente a epidemia? Iriam retirar-nos direitos antes mesmo de nos pedirem a colaboração voluntária? Mas depois havia gente na marginal lá no Norte e mais bandos de gente inconsequente nos bares do Cais Sodré e as pessoas não estavam bem a perceber o filme e a gravidade do filme: o bom senso não é um conceito objectivo e universal. Assumo hoje que estava errada e ainda bem que o Governo, a bom tempo, agiu e o declarou: a comunicação e a expressão "estado de emergência" foi um abre-olhos para as pessoas, um neón sobre a gravidade do que estava a chegar e funcionou. Funcionou.
E temos assistido ao povo, mediante instruções dos líderes que elegeu, a perceber, a acatar, a perceber, a cumprir e a colaborar, regra geral de forma exemplar nesta fase. Porque percebeu a gravidade da situação.  Porque percebeu. 
Tiro o chapéu a Graça Freitas, a Marta Temido, a António Costa e a todos os que nos governam nesta fase e que, com as falhas esperadas por ser uma situação absolutamente ímpar, nos mostraram todos os dias um esforço incrível para minimizar o impacto desta pandemia. E que, até agora,  nos têm trasmitido uma mensagem generalizada de congruência, consistência, calma, controlo e confiança. 

IV.

Como sociedade temos sido quase exemplares neste cenário e não é porque os jornais alemães, franceses, belgas e americanos escrevam sobre nós: é porque os números e os factos o traduzem. Tem sido o nosso espiro de sacrifício colectivo que tem contribuído para esta realidade. 
Enquanto grupo ("unidade social que consiste em duas ou mais pessoas e que possuem determinados atributos como sejam filiação, interacção entre integrantes, objectivos compartilhados e normas comuns") sabemos que a coesão social é um factor fundamental do nosso próprio funcionamento: sabermos que estamos todos debaixo da mesma tempestade, que está a ser difícil para todos, que as emoções de todos estão ser postas à prova. É esta coesão social faz emergir um sentimento de empatia e a necessidade de todos contribuirmos para a resolução deste problema que nos afecta a todos enquanto colectivo. Não é "com o mal dos outros, posso eu muito bem", é que, desta feita, o mal é de todos e todos podemos com ele muito mal. Por isso nos juntamos e agimos. 
A psicologia social explica: os grupos mais eficazes a atingirem os seus objectivos são os que partilham uma coesão de tarefa maior que os que falham. A maioria dos grupos cria uma série de normas que regula as actividades dos seus elementos, sendo que as normas são indissociáveis de uma ordem de valores que orienta os comportamentos dos indivíduos e dos grupos, no fundo, são regras que definem as condutas individuais e colectivas. Organizadas em sistema, constituem um modo de regulamentação social e têm várias funções:  incentivam a coordenação entre os elementos do grupo para a realização dos objectivos comuns e reflectem o sistema de valores desse mesmo grupo. 
A influência social estuda dois tipos de fenómenos: o conformismo (porque tendemos a ceder a uma maioria mesmo que tenhamos certeza de que a nossa escolha individual está correcta?) e a obediência (porque cede uma maioria às instruções de um indivíduo ou de uma minoria?)
A resposta ao primeiro fenómeno explica-se, resumidamente, que ceder ao conformismo é um tipo de pensamento no qual os membros do grupo partilham uma motivação tão forte para chegar ao consenso que se escusam a avaliar e a ponderar soluções alternativas. Ao segundo fenómento acrescentamos que a posição do líder que é decisiva face a pensamentos divergentes. E é aqui que entra a história da comemoração do 25 de Abril, liderança e Ferro Rodrigues. 


V.

 Num cenário de dependência informacional como o que vivemos face a este tema tendemos a vivenciar um conflito cognitivo em que procuramos reunir as informações pertinentes que nos permitirão resolver a tarefa com a qual estamos a ser confrontados: procuramos notícias, ouvimos os directos da DGS, consultamos sites oficiais e grupos de facebook. Confiamos- porque precisamos de confiar para reduzir a nossa ansiedade- no que nos dizem, no que nos aconselham, na informação que nos vão dando.
Vivenciamos também uma certa dependência normativa. Uma dependência que constitui um conflito motivacional porque, embora seja altamente dolorosa a situação de confinamento e isolamento social. entendemos- e bem!- que devemos estar sujeitosa à adesão às normas do grupo: estamos todos na mesma situação, pelo que, de nada nos vale estarmos em conflito interno, logo, conformamo-nos. O processo de influência normativa está assente em duas bases importantes; as pessoas conformam-se devido ao medo das consequências negativas interpessoais que a sua não conformidade pode provocar  (sermos punidos, ostracizados ou julgados como displicentes e negligentes na gestão desta crise)  e, porque sentimos necessidade de aprovação social, logo, somos compelidos a ir ao encontro das expectativas do grupo.
Então, o que nos tem aconchegado a ansiedade e o pânico é, em grande parte, a sensação de que estamos a fazer o que tem que ser feito  que estamos a fazer a nossa parte face ao que todos os outros também estão a fazer, que estamos a cumprir, a fazer as coisas certas e que, por isso, estamos a ir ao encontro do que é esperado de nós como indivíduos e sociedade.
E há vários factores que influenciam o nosso grau de comprometimento face a isto: a consistência sincrónica ( os membros devem estar genericamente de acordo porque a unanimidade gera uma percepção de coerência), a próximidade com as figuras de autoridade (quanto mais presentes estão, mais cumprimos), a legitimidade das figuras de autoridade (quanto mais for legitimada e reconhecida a autoridade e quanto maior forem os seus estatuto, grau de especialidade ou de conhecimento, mais cumprimos), a identificação com as figuras de autoridade (os sujeitos procuram ser semelhantes às fontes e quanto maior a identificação, maior a empatia e maios o cumprimentos), a consistência da mensagem, que deve ser clara, consistente e sem causar inseguranças ou dúvidas.

VI.

25 de Abril sempre. E não admito que me chamem fascista ou chegófila porque não concordo com este disparate de se abrir excepção de um ajuntamento para se comemorar a data, de forma rígida e sem flexibilizações ou adaptações. A comemoração pode ter outros contornos ou meios e isso- lamento!- não é ser contra o 25 de Abril. 
Sei os argumentos todos de quem é a favor desta comemoração nos moldes de sempre, argumentos que respeito e entendo. Mas não concordo. Não são os deputados do costume: são esses e mais uma mão cheia de convidados. E são as exceopções que tiram consistência à mensagem e que podem impelir a uma mudança do comportamento das massas. 
 Não é tempo de gerar polémicas desnecessárias que dão legitimidade a discursos populistas e ao avanço de aproveitamentos políticos daqueles de quem nós sabemos quem são. O comportamento humano, numa altura de crise, não se coaduna com regras que não sejam claras, objectivas e sem qualquer excepção ideológica.  Não se trata de política ou de ideologia: trata-se de consistência da mensagem e de identificação com as figuras de autoridade, da constência de um comportamento colectivo. 
A excepção abre o caminho a qualquer significado particular e simbolismo a que cada grupo atribuiu. A excepção abrirá os precedentes e não tarda estaremos a assistir a pessoas reclamar para si as suas pequenas excepções individuais: daqui a nada temos que o Campo Pequeno até é bastante amplo e pode ser que, desde que respeitando a distância social, uns pouquinhos amantes da tauromaquia queiram ir ver uma tourada, até porque estão a respeitar as normas mínimas de segurança. É um exemplo parvo?  É. Mas o bom senso é subjectivo e uma conduta exemplar e uma mensagem consistente, sem excepções, era exactamente o que eu esperava que fosse feito. Não é uma questão política nem ideológica: é do domínio da congruência e do bom senso de quem nos governa e de quem esperamos que saiba disto mais que nós.
Não é tempo de se dar uma mensagem de que se podem abrir excepções conforme o quadro de valores de cada um, mesmo que de valores colectivos se tratem, como o valor inquestionável da liberdade. O valor colectivo do luto e dos seus rituais está a ser vivido de forma adaptada à pandemia, o valor colectivo do amor e os rituais de bounding nas maternidades entre mães e recém nascidos, de igualdade na parentalidade em que pais assistem ao nascimento dos filhos e os rituais de matrimónios estão a ser suprimidos por conta da pandemia, de um valor maior: o da vida. Toda a gente acatou as normas do colectivo, não criem excepções para as normas. O povo é brando, porém não é parvo.

VII.

Comemoremos.
Não se trata de não comemorar: trata-se de adaptar a comemoração a outros moldes. 
As celebrações podem existir noutro formato porque é tempo de ser criativo, de flexibilizar, de nos reinventarmos. Foi isso que foi pedido a todos os portugueses que trabalham em teletrabalho, que dão aulas em casa aos filhos, que mudaram hábitos do dia a dia, que só visitam os familiares doentes por chamadas de vídeo, que estão em lay off e com perdas significativas dos rendimentos sem irem para a rua manifestarem-se, sem fazerem greves, sem todos os direitos que sempre conheceram poderem estar ao seu alcance. Não consigo conceber a rigidez com que se trata isto quando nos pedem, dia após dia, capacidade de adaptação e flexibilidade e nós temos respondido em conformidade.
Nesta altura isto não. não se trata de política nem de ideologia e a pala política disto é o que dará força aos Chegas desta vida. Porque o senhor pode ser o que é mas até um relógio parado acerta duas vezes por dia: e a força que isto lhe dará!
Até o Scolari, que não era nenhum intelectual político, sabia como mobilizar as pessoas em torno de uma causa. Esta é a geração que precisa de ser relembrada sobre o valor inquestionável da liberdade, porque não tem memória colectiva de onde ela veio, de como foi conquistada, do que é não a ter e do que todos ganhámos. Mas com congruência e, a atalho de foice, aproveitando para adicionar modernidade, adaptando a mensagem aos novos destiantários, consumidores fast, amantes de imagens belas ao invés de muitas palavras.
 Vi que propuseram fazer uma coisa moderna e actual: às três da tarde todas as pessoas iam às janelas cantar o "Grândola, vila morena" ao invés dos excelsos políticos irem debitar discursos aos microfones, numa de castas com mais privilégios. Todos às janelas: as crianças a aprenderem as letras das músicas com os pais, os adolescentes a filmarem e colocarem nas redes sociais, os adultos e os velhos a prescindirem a descida à avenida mas sem perderem a voz. Todos às janelas, a forma de rua que todos partilhamos neste momento, como povo e da forma colectiva que deve ser. 
Não sei o que vai acontecer. Mas espero que, caso avance nos moldes tradicionais, isto não seja o início da legitimização para se prevaricar, não seja o precedente que nos fará deitar por terra todo o comportamento de cumprimento de grupo que temos vindo a adoptar, que não tenha repercurssões no comportamento das pessoas que resulte indirectamente no aumento do número de mortos. 
 Não comemorar da forma como tradicionalmente o fazemos não tira força nenhuma à liberdade nem é nenhuma ameaça à democracia: é uma forma de manter a mensagem consistente, o exemplo firme, de reforçar o espirito de sacrifício colectivo e de lembrar que estamos todos na mesma tempestade e que não queremos deixar ninguém para trás. De mostrarmos que tudo pode ser reinventado e nós também.
A liberdade existe e resiste. E eu acho mesmo que deve ser comemorada. É a liberdade que nos trouxe direitos e deveres como indivíduos e como povo: desculpem os ofendidos se, neste momento, priorizo o dever de nos protegermos e de travar as possibilidades de contágio que se abrirão com todas as excepões que se seguirão em prol ao direito de comemorarmos sem quaisquer concessões.. 
Porque- sim!- a liberdade é a maior conquista que temos enquanto povo. Mas precisamos de estar vivos, no fim de contas, para a percebermos, vivermos e até comemorarmos.

Vivamos. 


3 comentários:

Helena Barreta disse...

Entro aqui e fico sempre em silêncio, mas hoje tenho mesmo que comentar para lhe dizer que concordo tanto e em tudo o que diz. Está uma reflexão excelente.

isabel pinttitas disse...

Ao literal o que é literal, ao simbólico o que é simbólico. À esfera privada o que é privado, à pública o que é público. A Assembleia da República não são os deputados, é a vontade de um povo. O 25 de Abril não é um dia, é uma reafirmação, é o relembrar de que há valores absolutos que deveriam ser inexpugnáveis, mas são frágeis e facilmente se levantam vontades de os varrer. Por isso, reafirme-se o compromisso com a liberdade e com a luta por uma sociedade mais justa. Sobretudo porque, à flor da pele, a realidade causa desilusão e dor e faz vir ao de cima o lado mais emotivo e pulsional de cada um de nós. Nesses momentos, os valores, quando interiorizados, podem fazer a diferença. Assim, que cada presente na assembleia se lembre que ali está para além de si próprio :
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer (...)
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo
Manda a vontade, que me ata ao leme!»

Unknown disse...

Pá, conseguiu escrever aquilo que sinto. Posso partilhar no fb?
Claudia

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