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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

"Era agarrar-lhe por um colhão, cortá-lo como se fatia a picanha e depois ir ao outro e depois ir por ali acima, tudo aos bocadinhos!"



A frase é da Dona Alda, a senhora do café aqui da Zona J, onde trabalho. É uma senhora discreta e calma, sempre sorridente, que hoje ficou perplexa quando assistiu na CMTV, sempre ligada no café, à reportagem que dava conta que o pai da criança que matou a sogra num episódio de violência doméstica, acabara também de matar a menina de dois anos. 

Talvez as palavras escolhidas choquem pela dureza, pelo vernáculo, pela crueza mas pudesse eu conseguir expressar a revolta que sinto no peito desta forma tão sincera. 

Estamos a 5 de Fevereiro. Em 36 dias que leva o ano foram mortas nove mulheres (oito adultas e uma criança) às mãos de homens que continuam a achar que têm o poder, a razão, a legitimidade de lhes tirar a vida, como se as vidas delas lhes pertencessem. 

Sou mãe de uma menina.

Todos os dias nos deparamos com uma cultura machista, mesmo que velada, com uma cultura em que as pessoas ainda se riem quando alguém parabeniza um homem que vai ser pai de uma menina com um "eh lá, agora tens que comprar uma caçadeira!" ou em que ainda se acha que a rapariga que subiu para o quarto do Ronaldo e que depois se recusou a fazer sexo "estava mesmo a pedi-las!" ou em que passamos pelos quiosques de revistas e levamos com capas de "ponha-se bonita para o seu homem!". 

O machismo é real.

Mesmo que subtil e está tão enraizado que embora já vejamos muitas mães comprarem cozinhas para os filhos pequenos brincarem ao nível do jogo simbólico, ainda não vemos mães de meninas comprarem-lhes uma bola aos dois anos e deixarem-nas treinar chutos e passos.
Damos passos no sentido de capacitarmos as nossas raparigas para gostarem dos seus corpos mas continuamos a falar da sua aparência e a fazer disso um assunto ("já te disseram que és muito bonita, Ana?"). Continuamos a obrigar crianças a darem beijinhos aos adultos porque se não derem estão a ser mal educadas como se os corpos delas afinal lhes pertencessem mas não tanto. Continuamos a inscrever as meninas no ballet, com tutus e carrapitos e a vibrarmos com os miúdos mesmo pequenos nos treinos de futebol, mesmo que pingue, mesmo que chova, enrijece. 

Continuamos a dizer às meninas "não ligues, ele deve é gostar de ti" quando um colega da sala passa a vida a embirrar com ela como se o amor se demonstrasse com provocação, como se fosse aceitável "quando mais me bates mais em gosto de ti". Continuamos a ensinar às miúdas a evitarem zonas escuras, que "mulher séria não tem ouvidos" e que quando têm o período "já és uma senhora, agora comporta-te como tal". Continuamos a achar que ter descomplexos com o corpo, que mudar de namorado, que vestir roupas destapadas faz as meninas parecerem umas "putas".

Putas. 

Continuamos a telefonar às mães quando as crianças estão doentes na escola porque os pais têm empregos importantes, sei lá, e quando estão doentes "os meninos querem é as mães". Continuamos a perguntar nas entrevistas de emprego se as candidatas são mães, se têm filhos, se querem ter mais e se têm rede social de apoio. Continuamos a despedir mulheres grávidas. Continuamos a perguntar às mães como equilibram vida pessoal e profissional sem fazermos a mesma pergunta aos pais e continuamos a achar que há mulheres com "muita sorte" porque os maridos as "ajudam" nas tarefas domésticas, como se fossem elas as personagens principais da lide e eles colaborantes figurantes. Continuamos a piscar o olho às mulheres e a dizer-lhe que "estoure o cartão de crédito do marido" como se ela não tivesse potencial para ter o seu próprio cartão de crédito para estourar. Continuamos a desvalorizar assuntos importantes das mulheres e as suas emoções e a dizer "deves estar é com o período!" ou "pfff, gajas!"

Continuamos a trabalhar para capacitar cada vez mais as nossas filhas mas continuamos a achar que é delas a obrigação de serem diferentes, de se emanciparem, de se defenderem, de não se exporem, de se protegerem, de se insurgirem ou de não ligarem, de não compactuarem, de existirem.

De existirem. 

Continuamos a pôr o ônus da questão de tudo nas mulheres. 

Continuamos a dizer "eh valente!" quando um homem anuncia que está à espera de um filho homem. A dizer a meninos pequenos que quando caem que "vá levanta-te: um homem não chora!" e a chamá-lo de "mariquinhas e menino da mamã" quando precisam de colo. Continuamos a torcer o nariz quando os meninos na escola não se juntam aos que gostam de jogar futebol e a vaticinar a sua orientação sexual quando eles preferem brincadeiras mais calmas ou juntarem-se a meninas, chamando as meninas que fazem o inverso de "marias-rapaz" e a eles de "tão pequenino e já com um  piquinho a azedo" (true story: ouvi eu no outro dia no parque!). Continuamos a mascará-los de piratas, zorros, tartarugas ninja e cowboys e figuras valentes e estóicas e nunca de joaninhas, bailarinos ou de príncipes da Branca de Neve. 

Continuamos a rir-nos quando um adolescente diz que apalpou a miúda gira da escola no recreio e achar que a testosterona é tramada e que "a carne é fraca", "um homem não é de ferro" e que "homem que é homem não vira a cara à luta". Continuamos a não deixar que homens se cumprimentem com o beijo na face  porque "estás-me a confundir ou quê? Não gosto dessas paneleirices". Continuamos a querer que os nossos filhos virem Ronaldos e sejam jogadores de futebol e rezarmos para que algum olheiro repare neles e a torcer o nariz quando vemos rapazes no ballet que "isso não é coisa de macho". Continuamos a achar que os rapazes não ligam nada a coisas de beleza, a perpetuar aquela coisa máscula do "porco, feio e mau", que mudar de namorada faz deles viris e "garanhões".

Garanhões. 

Continuamos a achar que um homem que divide as tarefas com a mulher é meio "panhonha" e que por isso "lá em casa é ela que usa as calças". Continuamos a rirmo-nos de homens que não sabem quem é o treinador do Sporting nem acompanham o campeonato, devem ser "intelectuais, pfff!". Continuamos a ver as mulheres sorrirem enternecidas quando vêm nas urgências uma criança acompanhada pelo pai e a olhar de lado para a mulher que em licença de maternidade não acorda a noite toda para cuidar do recém-nascido e não deixa o marido dormir porque "amanhã ele vai trabalhar", desprezando o trabalho que dá a uma mãe ficar em casa a cuidar do bebé a tempo inteiro durante a sua própria licença de maternidade e a recuperar de nove meses e de gravidez e de um parto. Continuamos a achar aceitável que uma mulher decida ser "mãe a tempo inteiro" e a abrir os olhos de espanto quando sabemos de um caso muito esporádico de um homem que decide ser "pai a tempo inteiro". Continuamos a usar a expressão "chefe de família" e nunca a atribuímos a uma mulher. Continuamos a dizer que um homem "quer comer" uma mulher, pondo-o no papel de comedor e ela de comida. 

Continuamos a não saber educar. 

Nem homens nem mulheres. Continuamos a achar que "quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro" e que entre "marido e mulher ninguém meta a colher". 

Continuamos a normalizar casos de crimes passionais, como se a paixão e o crime pudessem sequer conviver numa mesma frase e isso fazer sentido. Continuamos a ler as notícias dos jornais e a ver os números e os números a crescerem e nós indiferentes- são números na nossa cabeça, não são caras nem pessoais reais e tudo bem (tudo bem?)- a fazer scroll down e que venha a notícia seguinte, o Benfica ganhou e já se sabe que quando o Benfica ganha há menos violência doméstica que os homens andam mais felizes e rimos.

E rimos. 

Enquanto escrevo este post o alegado assassino da sogra e da filha matou-se. Este já foi o bebé, o rapaz, o filho adolescente de alguém. Matou-se. Depois de matar a mãe e a filha da ex-mulher e de, assim, a matar viva a ela também.

Falhámos todos enquanto sociedade. Todos. 

Até quando?


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O nacional copulo-entretenimento

Os Portugueses fazem, ao nível do panorama do entretenimento internacional, muito poucas coisas bem. A melhor que fazem, sem dúvida, é o nacional copulo-entretenimento, a.k.a. foder formatos televisivos de sucesso internacional.

Ora, é preciso alguma mestria nesta arte do nacional copulo-entretenimento: não basta investir capital em adquirir os formatos,  O grande segredo vem depois dessa fase e está envolvido numa grande mestria e consiste em - atentai!- fazer escolhas erradas. Tipo todas as escolhas erradas.

Escolhamos alguns exemplos aleatórios para demonstrar esta mestria:

Masterchef

O Masterchef é um dos programa de mais sucesso no Mundo e o Masterchef Australia, em particular, o preferido em toda a esfera internacional.
O conceito é simples: três cozinheiros reconhecidos e de sucesso avaliam pratos de cozinha confeccionados por cozinheiros amadores. Essa avaliação é feita com empatia, sem nunca se esquecerem que estão diante de amadores, com humildade e sugestões de oportunidade de melhoria.  Há subjacente uma relação de mentoria mas de igual para igual, de mestre que ensina a pupilo. Os concorrentes sabem que estão numa competição mas nunca se esquecem da decência e da ética em casa nem da empatia com os colegas em igual circunstância. De caminho há umas master-Classes onde se partilham receitas, técnicas e é tudo fluido e bom.
Eu sigo vários ex concorrentes do Masterchef Austrália no Instagram e é bonito ver como depois do programa acabar eles mantêm os laços entre si e se apoiam nos novos projectos, incluindo os jurados, mostrando que a relação não foi apenas circunstancial e funcional mas que, de facto, se tornaram cúmplices e próximos pela partilha daquela experiência.

O Masterchef Portugal é o exemplo do que pior se fez em termos de adaptações de formatos em Portugal. Os três jurados eram Manuel Luis Goucha, ex-cozinheiro do tempo em que a única concorrência televisiva que fazia era concorrência ao bigode do Luis Pereira de Sousa; chef Rui Paula num tom arrogante e burgeso e chef Miguel Rocha Vieira num tom presunçoso e altivo.
Foi doloroso ver o que fizeram ao Masterchef: agarrar num formato tão jeitoso e colocarem expressões gouchistas como "Tendes 30 minutos para confeccionar esse prato" e ninguém aguenta o tom eloquente e erudito do ex-cozinheiro, reacções mal criadas aos pratos e Rui Paula ou ainda cuspidelas de comida nos guardanapos do Miguelinho, todos com uma postura de "meistres"-divas-mania-que-sabem-tudo-cretinos. 
Não se aguenta! 
Às tantas quase que tinha pena dos concorrentes, não fosse também eles todos serem escolhidos a dedo e os produtores portugueses insistirem sempre dar mais protagonismo às personalidades e às tricas entre eles que propriamente ao esforço na confecção ou mesmo à qualidade final dos seus pratos.
Lágrimas. Lágrimas de sangue.


Casados à primeira vista


O Casados à primeira vista também na sua edição australiana é um formato engraçado. Mesmo numa edição em que colocaram uma mãe solteira gorducha a casar com um troglodita insensível e troll, o nível nunca baixou. Houve inclusive um par de gémeas que se casou, uma teve um parceiro super compatível, a outra nem por isso e mesmo perante os desafios colocados pela produção a desgraçada da gémea infeliz continuou sempre colaborante, facilitadora e respeitosa com o marido que lhe calhou na rifa. Sem baixarias, sem desrespeito, sem estrilho. 

O Casados à primeira vista português teve a Sónia que achou que ia encontrar um Ken e que nem deixou o pobre do novo marido abrir aboca e já o odiava por defeito. E tinha o Hugo que, pelo contrário, antes de conhecer a Ana e já a amava profundamente por defeito. E um Conde da Cedofeita e uma Graça que mostrou toda a sua graça até se terem lembrado de lhe atribuir o título Miss Ninfomaníaca MILF. E uma Eliana que fazia de reencarnação da Elsa do alpendre e do "beijinhos para a Segurança Social" do Big Brother 2 porque uma "loira burra" estereotipada como personagem-tipo calha sempre bem. E tinha o Daniel que, enfim, assusta-me mais que a Exorcista na cena em que esfaqueia o farfalota pimpinela. 
Como se isto não bastasse e porque a receita não era ainda suficientemente catastrófica adicionaram um extra que foi "especialistas" na área do amorrrr, tendo dois deles tirado a amorosa especialidade nessa grande Universidade que é a Universidade da Vida. Love coaching que seja, se há life coachings que se abra a coachingangada ao amor. 
Suspiro. Suspiro muuuuuito profundo. 

Lip Synk


O Lip Synk original é americano. Tem famosos a sério que fazem shows de karaoke a sério,sendo que o topo do topo foi alcançado pela Anne Hathaway. Tem dois apresentadores que têm graça, pertinência e presença e uma senhora que está ali a fazer de DJ a enfeitar que, mesmo na versão original., é completamente indispensável. Mas perdoa-se porque há espectáculo a sério. Já falei da Anne Hathaway?

O Lip Synk Portugal é constrangedor. Causa-me verdadeira vergonha alheia. Foram buscar de arrastão o João Manzarra que baby isto não é ter exclusividade e receber todos os meses a transferenciazinha do salário para andar aí a vegan-evangelizar as 'ssoas em viagens em sítios paradisíacose nada de dar o corpo ao manifesto na tevê. Nã, nã, nã, nã. E o Manzarra apresentou o seu protesto em forma de ninho de cegonha no cimo da cabeça e camisas havaianas. E juntou o César Mourão que é óptimo no improviso e no género comédia mas que aqui está tão à vontade como peixes no Trancão. Se a senhora que está a fazer de DJ na versão original já é sofrível, não consigo qualificar a prestação da Débora Monteiro e das suas gargalhadas de pequena hiena.
Isto tudo poderia ser absolutamente irrisório se Anne Hathaway mas não: toca de convidar pessoas para reproduzirem prestações fabulosas (sim, Sara Mato: tu mesmo!) mas que acabam assim tipo atuações de pechisbeque e ainda reforçar com jogadores da bola e actores e travesti-los. Em bom?
Tipo o Tom Holland a representar a Rihanna?

           

Não. Tipo matrafonas de Torres Vedras. Não barbeando o Raminhos e enfiando-o num vestido de tule e tecido rasca da Elsa ou oferecendo um José Raposo bardajão a mexer a boca sem saber sequer a porra da letra da música. Vómitos. 
Se querem matrafonas de Torres Vedras: assumam. Chama-se o coreógrafo daquilo e a malta assiste aos ensaios e é um conceito nacional e não importado. É original e tudo. Agora matrafonear o Lip Sync é só, mais uma vez, dar corda e alimentar a máquina de copulo-entretenimento tuga.

Como diria o meu amigo Pedro:  "Filhas, Lip Sync Portugal? Vão antes ao Finas apoiar as verdadeiras artistas!" 


             

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Mas ninguém fala disto?

A série "SARA" a passar na RTP2 aos domingos é das melhores coisas que se tem feito por aí, pá!

Depois não digam que ninguém vos avisou...

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Não há vacas sagradas. Nem que sejam vacas dos Açores. Ou da Madeira, vá.



[ Disclaimer: sou uma Ronaldete assumida.

Sou super-fã do Cristiano Ronaldo por razões que sei identificar concretamente: pela sua capacidade de trabalho, entrega, foco, resiliência, perfeccionismo, por querer sempre ser melhor no sentido de melhorar a sua performance, os seus resultados e feitos. Pela sua história e pela segurança de ser quem é, por nunca se esquecer de onde veio (e esta é uma armadilha muito difícil de contornar) e pelos valores de família, com que me identifico. E, finalmente, pelo seu sentido cívico, pela sua generosidade que sei não serem prosaicas e que já testemunhei na primeira pessoa. 

Para quem não andava por cá nessa altura, relembro que, em 2013, eu e algumas bloggers juntámo-nos e organizámos um evento solidário que tinha como objectivo angariamos possíveis dadores de medula óssea e, simultâneamente, fundos para que uma criança com leucemia pudesse tentar um estudo experimental na Alemanha. Organizámos esse evento em tempo record (penso que em menos de uma semana) até porque tempo era coisa que não tínhamos, como aliás e infelizmente, se veio a verificar. Cada uma de nós tinha como missão activar a sua network e angariar produto para podermos vender no mercado do "Todos por Um" (era esse o nome do evento) e eu era, claramente, a pessoa com menos contactos do grupo. Mas tinha um trunfo: a querida Isa, a leitora deste blog que me fazia estar a duas pessoas de ligação do Cristiano Ronaldo. 

Foi através da Isa que o Cristiano Ronaldo nos doou uma camisola autografada que tinha usado numa última partida, oferta que veio reforçada com umas chuteiras, a fim de serem leiloados e cujas receitas reverteriam para a criança com leucemia. 

Infelizmente, o leilão não se chegou a realizar porque a morte é uma puta e coube-me perguntar ao remetente qual a morada para onde deveria devolver a camisola e as chuteiras e a resposta foi imediata e peremptória: reencaminhar as mesmas para o I.P.O. de Lisboa, em homenagem a todas as crianças que lutam contra o cancro. Eu e a Sandra assim o fizemos, em mãos, junto dos responsáveis do I.P.O.

Ficou apresentado o Ronaldo, enquanto pessoa, para mim. E desde então sou a sua fã número um. ]

As pessoas admiram as outras por duas razões: identificação ou aspiração. O caso do Cristiano Ronaldo é paradigmático: nós identificamo-nos com ele, com as suas origens humildes, com o facto de ter nascido num país pequeno e com pouca visibilidade e, por outro lado, aspiramos conseguir, por via do mesmo canal que é o esforço e o trabalho (muito além do talento) atingir os níveis de sucesso dele, numa aspiração e inspiração claras e firmes. Cristiano Ronaldo é um de nós e, simultaneamente, um dos que nós gostaríamos de ser. Por isso nos dói tanto que ele não possa ter uma conduta exemplar e imaculada, por isso nos belisca tanto que estes vícios humanos o atinjam logo a ele, aquele a que nós nos habituámos a endeusar.

Não sei muito mais sobre o Cristiano Ronaldo para além da sua persona pública, numa imagem que me é transmitida pelos meios de comunicação social. Acompanho o seu instagram (e o da família) e a minha opinião continua a ser consistente. 

No entanto, vem agora à luz do dia uma acusação sobre uma hipotética violação ocorrida há dez anos. E embora a minha idolatração e patriotismo tentem sobrepor-se à força e irracionalmente, ao meu sentido de justiça- o mesmo que até hoje me fez admirar incondicionalmente o jogador- e ao feminismo enquanto expressão pela luta pela igualdade entre géneros, aqui ganha a justiça e a luta pela igualdade. 

Não se pode continuar a culpabilizar as vítimas e a desculpabilizar os agressores. Leio de tudo: ela trabalhava num bar e vivia do negócio da sedução, ela assinou um papel para se calar e aceitou dinheiro pelo silêncio, tendo sido comprado o seu silêncio (e, ficando provado, vejo como dois crimes: violação e coação. Nada minimiza o crime cometido e a vítima em momento algum deverá estar no lugar de ofensora. Ou houve crime ou não houve. Havendo, ela foi vítima, volta a ser vítima), ela subiu para o quarto com ele. Ela, ela, ela, ela.

Só que não. 

Aqui o foco deve estar nas acusações que se estão a fazer a ele: ele, alegadamente, aproveitou-se da sua posição de poder e de fama para achar que podia servir-se do corpo dela a seu bel prazer, ele convidou-a para uma festa e afinal a festa era "privada", ele não respeitou a sua recusa face ao convite sexual, ele penetrou-a por trás, sem preservativo e de forma não consentida e, finalmente, ele "comprou" o seu silêncio com dinheiro. Ele - segundo a acusação- ignorou o seu não, ignorou que ela era um ser humano com vontade própria e direito sobre o seu próprio corpo, a sua vontade e a sua dignidade e serviu-se do corpo dela como quem vai a um bar e se serve de um copo de poncha da Madeira. 

Ela? Ela alegadamente terá dito que não e isso deveria ser mais que suficiente.

Reparem que eu digo que o foco deve ser nas acusações que se estão a fazer a ele e não nos actos dele. Porque nada está provado. Porque acho bem que se apure, que se investigue, que se ouçam as partes, que se julgue com sentido de justiça e sem haver mais posições de fragilidade porque isto já começa em desvantagem: ele é homem, o melhor jogador do Mundo, rico e influente. Ela é só uma mulher anónima que alegadamente terá dito que não. 

Que se faça justiça. E com isso quero dizer tudo: se o Cristiano Ronaldo for inocente que se castigue, exemplarmente, esta senhora oportunista. Se a senhora for inocente que se castigue, exemplarmente, este jogador que não pode, à custa da sua popularidade, passar impune. 

Que se faça- mesmo!- justiça.






Adenda: "O pessoal que acha que se ela recebeu dinheiro então não foi violada, por uma questão de coerência também acha que um pedófilo não deve ser julgado se der chocolates à criança? Só para perceber a lógica. É que as coisas não são lineares. Vamos supor que ela foi efetivamente violada (estamos todos a especular, espero que a investigação dite a verdade): está num bar, vai para o quarto de uma estrela, é violada. Quem é que ia acreditar nela? No meio do medo e do sofrimento da violação, é pressionada a aceitar um acordo. Está desfeita psicologicamente, só quer que o pesadelo acabe. Se quem está à volta não a apoia e a incentiva a aceitar o acordo, para ela essa torna-se a única opção e a forma de acabar com o sofrimento mais depressa. É assim tão difícil de perceber? Se houvesse um pouco mais de compaixão e de capacidade de calçar os sapatos do outro, não havia tanta gente a achar logo que ela é uma oportunista e só quer dinheiro. E o mundo seria um pouquinho melhor."- a minha amiga Mafalda Chambino comentou assim neste post e eu acho importante que o seu comentário enriqueça esta reflexão.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Chocados com as crianças mexicanas separadas dos pais na fronteira dos USA? Leiam este post!



Tenho a sorte de estar rodeada de pessoas inteligentes e informadas e, por isso, ter acesso privilegiado a informação fidedigna e credível sobre os mais variados temas. Assim, com a devida autorização, partilho tudo o que há para saber sobre este caso transcrevendo. textualmente, as palavras da minha amiga Inês Sampaio Melo Antunes, distinta advogada no Tribunal de Justiça Europeu e que percebe da poda, num texto único, conciso e absolutamente esclarecedor:

"Tribunal de Justiça Europeu explica: "KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO"
Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta.
O que concluí é absolutamente kafkiano. Ora atentem:
- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.
- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.
- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos final deste texto).
- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados.
Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.
Obrigada por me lerem até aqui!"

Ler aqui aqui 

sexta-feira, 9 de março de 2018

É desta que se vão todas as oportunidades deste blog fazer parcerias em troco de uma remessa de gelado de noz

Querido LIDL:

Não penses que é embirração. No teu caso não é. Antes pelo contrário: é com lágrimas de iogurte skyr que te dirijo este post. Sou cliente, quase diária, na vossa loja de Alcoitão. 

Sou mais que cliente, sou fã. Coleccionei peluches de fruta e miniaturas de produtos de supermercado de plástico, para perceberes o nível de fã que sou. Bati fundo a fazer trocas de mini-detergentes e de réplicas de pastéis de nata, para a miúda, em grupos de mães do facebook. 

Mámen não resiste aos teus queijos, ao chocolate com frutos secos, aos iogurtes e ao brilharete que faz quando compra os profiteroles congelados e os apresenta como criação própria nas sobremesas dos jantares com os nossos amigos. 

A Ana é basicamente fã de tudo o que meta massa: a tua lasanha e a massa fresca e não diz que não ao pão quentinho. 

Já eu... bem, eu sou mais gelados de noz. Ok, confesso se me dessem uma tenda e uma semana para viver no vosso corredor do meio e testar todos os gadgets, especialmente os culinários, não dizia que não. Desde que com gelado de noz como principal mantimento. 

Conheço mais ou menos e aplaudo a vossa política de responsabilidade social e a associação onde trabalho já beneficiou do vosso apoio ao abrigo do movimento "Mais para Todos". Cheguei a dar formação a duas equipas vossas. Uma querida leitora deste blog, que foi voluntária num projecto de solidariedade social gerido por mim, trabalha aí e só diz maravilhas (beijinhos, Bárbara!). 

Talvez seja por isto que não compreendo a estratégia do vosso departamento de marketing (se calhar com um cheirinho dos recursos humanos) relativas ao dia de ontem. Talvez seja por esse reconhecimento que tive que ir comentar na vossa página de facebook, mostrando o meu descontentamento e indignação. 




Epá, vocês não, LIDL! 

Não vocês que anunciaram há tempos que iriam aumentar o salário de todos os vossos colaboradores sem que para isso tenham sido obrigados pelo Estado. Não vocês que, pronto, gelado de noz. 

Basicamente, o que eu queria dizer é que as vossas colaboradoras não querem ser mostradas ao Mundo como as Lenkas do Preço Certo aí do sítio ou as raparigas da fórmula1 e da volta a Portugal em bicicleta aí do burgo: as vossas colaboradoras não são naperons nem elementos decorativos. As vossas colaboradoras não valorizam flores (ou talvez valorizem todos os dias, como gentiliza, não como prémios de consolação no Dia da Mulher). Entendem? 

A resposta veio um dia depois e veio mal. Diz a pessoa que gere as tuas redes sociais, qualquer coisa como: 

"Bom dia Liliana ;) somos a favor da igualdade e trabalhamos todos os dias para a garantir. A mensagem que trasmitimos às nossas colaboradoras foi a da imagem. Na nossa publicação queriamos destacar não só as nossas colaboradoras mas também desejar um feliz dia da mulher às nossas clientes, que efetivamente tornam as nossas lojas mais bonitas pela sua beleza e força. " 

Portanto, está certo, LIDL: talvez eu tivesse que ter escrito em alemão para me fazer entender. 

As mulheres que aí trabalham não têm que ser reduzidas a uma função de imagem, a um papel visual, decorativo. Utilizariam este mesmo argumento se se referissem aos vossos colaboradores masculinos? 

Que tal destacarem a polivalência, a flexibilidade, o rigor, a coragem, a valentia, a resiliência, a capacidade de trabalho, a capacidade de equilíbrio entre vida familiar e profissional e,vá lá, o desempenho efectivo das vossas colaboradoras no exercício das suas funções? 

Que tal apresentarem indicadores e dados concretos que evidenciem aquilo que começam por esclarecer no início da vossa resposta: as políticas internas que adoptam a favor da igualdade de género para a qual trabalham todos os dias? Que tal comunicarem o que fazem, todo o ano, a favor da equidade e da igualdade de género na gestão dos vossos recursos humanos e no desenvolvimento do vosso capital humano? Que tal uma campanha para comunicar isto num dia que serve para sensibilizar a comunidade civil para a equidade entre géneros ao invés de oferecerem rosas às "vossas senhoras"? 

É isto, LIDL, é isto que sinto que deverias ter comunicado e não a beleza que as vossas colaboradoras trazem para as lojas, como jarras em cima do meu aparador da sala ou um espelho com uma moldura bonita no meu quarto. É que isto é o mundo do trabalho, não é um concurso de misses e paz no Mundo e gelado de noz às marcas de boa vontade. 

No próximo ano guarda as rosas, LIDLE E comunica tudo o que dizes que fazes (e eu, genuinamente, acredito) no sentido da justiça social entre géneros. Pensa lá bem. Pensa lá melhor. Eu acredito que consegues fazer certo. 

Sempre tua, 

Pólo Norte 


P.S- Segue, novamente, o desenho. O meu alemão é, realmente, uma nódoa.



quinta-feira, 8 de março de 2018

Para fechar o Dia da Mulher... o pragmatismo alentejano


Ainda sobre equidade e vindo da Suécia

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"Swedish dads".
Créditos fotográficos: Johan Bävman.

Do Luxemburgo a minha melhor amiga diz de sua justiça


Ainda sobre o dia das mulheres: a reflexão vinda de Espanha

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Levantava-me e não havia Ana. Não havendo Ana, não daria pela falta da educadora e da auxiliar, peões essenciais no meu dia-a-dia.
A padaria fecharia por não ter nem um empregado homem. No café a Fátima não me serviria a bica em chávena escaldada. Ninguém me venderia o jornal da manhã porque a Luzia já não estaria na papelaria. Na farmácia a Isabel não saberia exactamente o meu avio mensal.
Na gasolineira do Jumbo não poderia passar as cancelas para fazer o pagamento, nem ninguém me receberia o valor das portagens na A5.
Haveria menos trânsito. E à minha volta um cenário muito mais homogéneo de homens a tirarem cocotas do nariz enquanto conduzem.
Trabalharia sozinha com o Filipe. Não haveria enfermeira, nem assistente social, nem terapeuta ocupacional nem a Susana, a pessoa que nos organiza o trabalho. Mais de metade das pessoas para quem trabalho desapareceria e isso seria a maior seca da minha vida.
Não haveria telefonemas da minha mãe, nem a minha mãe- caraças!- e como o meu pai zarpou, seria orfã. Não haveria a minha tia nem a minha prima que são só as pessoas mais importantes da minha família alargada.
No café do bairro a Dona Alda não me faria as melhores sandes de presunto cortado a canivete a 1,80€ nem ninguém para me fazer brushings à pressa no mítico salão "A princesa do Condado".
Não existiria a minha amiga Catarina (nem a Lara) nem a Xana (logo, nem a Catarininha e a Mariana), nem a Rosa nem a Cláudia, redes de suporte emocional do meu coração. A minha amiga-advogada MEP não me safaria de mil cambalachos e a ausência da minha amiga-TOC Vanda já me faria ter sido presa pelas Finanças há que séculos.
A minha amiga Ana Margarida não existiria nem a Laura e embora goste muito do Paulo, a minha vida seria muito mais secante. As histórias da Ana Luisa não existiriam para me entusiasmarem, a Ana de São João não me aguentaria em tardes de sangria à desgarrada e o que faria eu sem a Paula, a Marta Guerra e a Nonô?
Não seria a mesma pessoa sem conhecer a Eileen, minha alma gémea, soul sister que me abre, todos os dias, novas perspectivas para o Mundo.
Não teria lido todos os livros da Alice Vieira na infância, nem os da Isabel Allende na adolescência, nunca me teria emocionado perante quadros da Paula Rego e não teria como hino de vida o "Gracias a la Vida" da Violeta Parra.
Não ouviria Jacinta no youtube, não poderia ser fã da Merryl Streep e da Rita Blanco e o "This is Us" sem a Rebecca e a Kate não teria a menor graça. Não leria blogs, absolutamente, nenhuns.
Sem as minhas mulheres o meu, definitivamente, que sim. Sendo eu uma delas, nem haveria mundo para mim.
Gracias, El Pais.
[Ok, não haveria a minha sogra mas não havendo a minha sogra a minha vida seria muito mais sensaborona. E, não digam a ninguém, mas eu até gosto dela...]

Da Noruega: quando as crianças vêem mais longe que os adultos

"Quero ser claro: isto não é um favor às mulheres. A igualdade de género é uma questão de direitos humanos"*


Num dia em que se assinala o Dia da Mulher, ligo de manhã o rádio do carro a caminho de uma reunião e oiço que a Rádio Comercial convidou homens cantores para interpretar canções habitualmente interpretadas por mulheres. 

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher tentaram oferecer-me flores à saída do comboio, no Colombo, no stand de automóveis a que fui à hora de almoço (e onde o vendedor sugeriu que comprasse um carro mais "feminino" porque, enfim, pelos vistos os carros também têm género e tumbas, não te vou comprarcarro só por causa das tosses) e ainda são só duas da tarde.

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher um amigo manda-me uma mensagem de "parabéns" (wtf? parabéns por ter dois cromossomas x?), a Companhia dos Perfumes manda-me uma sms a oferecer-me desconto na compra de uma água de colónia e no meu facebook vejo movimentações de mulheres a combinarem jantares temáticos em que "menino não entra":

Sou só eu que acho que seria muito melhor para a sensibilização das questões do empoderamento feminino que a Rádio Comercial pedisse a mulheres que mostrassem que sabem interpretar igualmente músicas tradicionalmente cantadas por intérpretes masculinos?

Sou só eu que estou uma beca farta que desvirtuem o dia homenageando as mulheres, apelidando-as de "especiais", "maravilhosas", dignas de receberem flores e descontos e saldos (ah, as mulheres e os saldos: viva o cliché!), pedindo a homens que empatizem, a marcas que sejam simpáticas, a um tratamento diferencial com discriminação positiva uma vez por ano?

Eu não quero ouvir homens cantarem músicas de mulheres (na verdade, nem quero ouvir mulheres cantarem músicas de homens) porque a música não deve ter género, a música é universal, é para todas as vozes, não tem pipi nem pilinha e, Rádio Comercial, a sério, homenagens faz a FunAlcoitão, façam-nos é rir com New Yorks New Yorks da Bobadela, tá?

Eu não quero mensagens de parabéns no dia de hoje, quero discursos e relações de respeito e igualdade todos os dias.

Eu não quero descontos na Sephora, nem de depilação para ficar sexy para "o meu homem", nem "jantares só de meninas" no dia de hoje.

Quero que todos os dias o meu salário seja igual ao de um homem que desempenhe a mesma função, a mesma categoria e que possa ter um poder de compra igual ao dele sempre, todos os dias do meu ano para comprar sem descontos que têm como critério a posse de um pipi. Quero que a sociedade não me pressione a depilar-me para quem quer que seja, nem para mim mesma quanto mais "para o meu homem". Quero que não seja expectável que eu adapte o meu corpo, a minha roupa, os meus modos, a minha postura e o meu dia-a-dia aos padrões que se atribuem como tradicionalmente femininos. Quero jantar com as minhas amigas só mulheres quando me der na real gana, ou jantar como os amigos só homens sem ser olhada de ladex, ou jantar com casais ou com quem me apetecer sem que isso seja assunto.

Quero que não me perguntem porque não gosto de me maquilhar, que não me olhem de lado quando não uso saltos altos quando vou a festas, que não achem que podem dar palpites sobre o meu peso, que não achem que o meu corpo é assunto.

Quero que "feminista" não seja uma ofensa, que "feminista" não seja a nova "bruxa" para se caçar.

Quero que não digam à minha filha que "esgrima" não é um desporto para meninas (ela adora: ide-vos foder!), que não me critiquem por ser uma mãe demasiado flexível que não obriga a miúda a dar beijinhos aos crescidos porque educar é obrigar a que ela corresponda ao que a sociedade espera dela, do corpo dela e do espaço pessoal dela, quero que não lhe estejam sempre a dizer como ela é bonita em vez de lhe elogiarem a personalidade firme, a valentia e a capacidade de concentração, que não digam ao pai dela que "daqui a uns anos tens que andar de caçadeira" como se ela fosse objecto deste sistema patriarcal e que não se riam quando ela diz,convicta, que quando for grande quer ser cientista ou empregada de limpezas.

Quero que os brinquedos, os livros, as roupas, as brincadeiras, os desportos, as profissões, não sejam categorizados como "de menino e de menina".

Quero que, daqui a uns anos, ninguém se atreva a oferecer-lhe geribérias ranhosas por ela ter nascido menina. Quero que não lhe prestem- na verdade, nem a a ela nem a mim- dizia eu, quero que não nos prestem homenagens: queremos igualdade de oportunidades, igualdade de tratamento, igualdade.
Eu não quero que me comprem flores hoje. Quero que me deem respeito.

Todos os dias da minha vida.

[* Título da crónica de António Guterres: aqui].

Adivinha: "Qual a relação entre os impostos que pagamos e o Dia da Mulher?"

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Resposta: Não deveriam servir para financiar eventos destes.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Supercoach ou vamos lá agora fazer a transposição

               


Imaginem que a vossa entidade patronal- figura de autoridade- acha que vocês precisavam de orientação/coaching para melhorarem o vosso desempenho profissional.

Que até são bons tecnicamente mas que são- na visão soberana da vossa chefia directa- uma nódoa na gestão das vossas emoções, nas vossas competências sociais.

Imaginem que quando entraram na empresa, até assinaram uma cedência de direito de imagem.

Imaginem que entra um "Super-coach", completamente desconhecido, pela vossa empresa que tem como briefing único sobre vocês a opinião e os relatos da vossa cheia directa. 

Imaginem que ele fica ali, de cão de guarda, de braços cruzados, a observar-vos, a abanar com a cabeça, a arquear as sobrancelhas.

Imaginem que ele começa a falar com a vossa chefia e a dar palpites sobre o vosso comportamento. Que dá instruções sobre si à sua chefia à sua frente. Que continua a dar instruções sobre si à sua chefia depois da sua hora de saída, à porta fechada no gabinete dele. 

Imaginem que ele primeiro até leva um arsenal de câmaras e técnicos de som e aparato para filmar isto tudo, sempre com o objectivo pedagógico e o enquadramento da preocupação pela melhoria do seu comportamento.  Mas como vocês são adulto e tal e conhecem as normas de desejabilidade social e têm um super ego um bocadinho mais trabalhado comportam-se de acordo com o que é espectável. Mas imaginem que para terem acesso aos vossos comportamentos mais "crus" se instalam cãmaras ocultas ali, no vossos trabalho, onde é suposto estarem todos os dias sem fazer cerimónias e vos filmam nos vossos momentos de tensão, stress e melt down, muitas vezes provocados pela mesma chefia directa que precisa de mostrar ao supercoach a vossa essência para que eleo consiga ajudar a geri-lo a si. 

Imagine que, neste processo, até vos apontam algumas estratégias, jogos pedagógicos e dinâmicas de grupo para trabalharem as vossas competências sociais mas que nunca o super coach teve um momento para vos ouvir sozinhos a vocês , em privado, para conhecer, através da vossa voz, a vossa história , necessidades, receios e ansiedades. 

Imaginem que estas imagens todas são seleccionadas criteriosamente por produtores para serem emitidos na intranet do grupo todo ao qual pertencem as vossas pequenas empresas, tendo como foco a eficácia do supercoach, a preocupação e a capacidade de pedir ajuda da vossa chefia directa e o sucesso do método que vos tornou, aos olhos de todos, menos insuportáveis. 

Imaginem que publicam estas imagens na intranet à noite e ainda enviam para todos os vossos colegas, clientes, fornecedores, contactos profissionais diversos e stakeholders vários. Ah, mas vocês até assinaram autorização de cedência de imagem. Portanto até é legal. Agora e moral: é?

Amanhã, apetece-vos ir trabalhar? Mais importante: como se sentem?

domingo, 21 de janeiro de 2018

#nannyboicote ou a sociedade civil somos todos nós



Apesar de uma semana de trabalho ímpar o assunto não me saiu da cabeça por um minuto: ora porque pessoas me abordavam na rua a falar sobre o post que escrevi sobre o assunto e que teve um alcance único na história deste blog, ou porque outras técnicos com quem trabalho quiseram trazer à luz a discussão à volta de mesas de trabalho, de refeição e de café, ou porque inúmeros leitores me enviaram os seus comentários, mensagens, e-mails, troca de argumentos nos comentários das minhas redes sociais, enfim.

Foi criada uma petição por pessoas que percebem da poda, foi emitido parecer pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), foi feita denúncia à ERC pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC), a Unicef pronunciou-se , o Ministério Público está a analisar todas as possibilidades legais de intervenção, a Entidade Reguladora para a Comunicação Socia-  ERC confirma (mas não tomou, até agora, nenhuma posição) a entrada de participações/preocupações subscritas por diferentes cidadãos visando o programa “Supernanny” emitido na SIC,  a CPCJ da área de actuação da família participante no primeiro episódio, em articulação com o Ministério Público, ordenou à SIC que retirasse do ar as imagens do primeiro episódio nacional, alguns especialistas reconhecidos da praça deram o seu parecer público e, ainda assim, parece que nada travará a emissora de emitir na noite de hoje o segundo episódio do programa. 

Quanto a mim, fiz - também- tudo o que estava ao meu alcance: assinei petições, fiz denúncias à ERC, ao Ministério Público, exposição à CNPDPCJ, usei a visibilidade que este blog tem para expôr argumentos. Aparentemente, tudo o que está ao meu alcance. 

Ontem, falava com o meu marido sobre esta frustração de veres que uma coisa está tão errada, activares todos os meios legais, racionais e objectivos para travar a perpetuação do erro e daí não sair nenhuma pérola. "Se houver um acidente de auto-estrada grave, não podes fazer muito para impedir que haja o acidente, que o sangue esteja exposto aos olhos de quem passa, podes não conseguir que se cortem as duas vias da auto-estrada porque isso maça a vida das pessoas e tal e a maioria até se está a borrifar para quem está ali de entranhas expostas, mas podes escolher não ver, podes escolher fazer marcha-atrás e ir por uma estrada nacional, desimpedindo o trânsito, fazendo a tua parte, protegendo a tua filha de olhar pela janela do banco traseiro, avisar os teus amigos que seguem nos carros atrás para fazerem, também, eles inversão de marcha: podes fazer a tua micro-parte!"

Assim farei. E assim apelo a que todos os que acreditam veementemente o façam. Avanço com duas propostas

1- Enviar um email ou comentário de protesto à patrocinadora: a marca Corine de Farme. Não consigo encontrar no site a missão da marca mas acredito que terá, certamente, que ver com proteger crianças, cuidar delas e das suas necessidades, priorizá-las e fazê-las felizes. Mas consigo encontrar a equipa que pode ter alguma palavra na estratégia de marketing da marca, que pode ser decisora, que pode recuar no apoio financeiro à transmissão dos próximos episódios e, por isso, pôr cobro a isto. 
O contacto de email da Corine de Farme é corinedefarme.geral@sarbec.pt  e o facebook da marca  é este. Just do it!

2- Hoje, à hora do programa, todos os que se quiserem juntar a um boicote colectivo publicarem nas suas redes sociais uma fotografia da sua televisão sintonizada noutro canal, de si mesmos a fazerem programas alternativos (ler um livro, fazer um bolo, contar uma história aos filhos antes de dormir, ver um filme noutro canal), ou seja,  vale tudo menos assistir ao programa, vale tudo para mostrar que nós não, nós não quereemos ver acidentes de auto-estrada na televisão generalista usando o hashtag #nannyboicote. 

Percebo que haja uma certa atracção para a desgraça, uma coisa meio irracional e sádica, por outro lado uma necessidade de pertença para amanhã podermos participar nas conversas de café, dar o nosso bitaite. Mas- infelizmente e à custa da Margarida- já sabemos ao que vamos e já sabemos que não queremos ir. 

É que sem audiências, a sociedade civil é capaz de ser mais soberana que todas as outras entidades. 

E- caramba!- a sociedade civil somos todos nós.



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

"Super Nanny": qual o nosso papel?

Infelizmente, no meu ponto de vista, não valerá de nada reportar-se a situação à Ordem dos Psicólogos por duas razões:

1- O título do programa é  A super-nanny" e isso configura o papel da técnica no mesmo;

2 - O disclaimer final, que aqui reproduzo, e a escolha da palavra "educadora," não é ingénuo e protege a técnica.





Sugiro que quem queira demonstrar a sua indignação face a esta assunto o faça pelas seguintes vias:

  • Pedido de intervenção junto da CNPDPCJ  (ninguém quer nem deseja que a Margarida seja retirada do seu contexto familiar, atenção aos preconceitos que se fazem relativamente à missão das CPCJs deste país. Mas urge que uma equipa técnica e profissional, credível e validade, de uma CPCJ possa acompanhar estes pais de forma séria de forma a ajudá-los na gestão das suas competências parentais e que se pronunciem de forma exemplar de forma a balizar a protecção e os direitos que as crianças devem receber dos seus pais na gestão das suas educações). 
Exemplo de pedido de intervenção: 

"Bom dia,



Ontem a SIC estreou um programa em horário nobre, chamado «The Nanny». O mesmo é um «reality show» em que os protagonistas são uma criança indisciplinada e uma nanny/psicóloga que está lá para a corrigir e apaziguar o ambiente familiar.
Assisti a um breve trecho do programa e em apenas 5 minutos tive a oportunidade de observar várias violações aos direitos da criança, nomeadamente: 1 - O direito à imagem;
Num tempo em que os pais recebem constantes avisos sobre a necessidade de proteger os seus filhos - limitando, por exemplo, a sua exposição nas redes sociais -, este programa aparece completamente em contra-ciclo e, principalmente, expõe uma criança que não deu o seu consentimento para tal e que ao longo do programa, por várias vezes, manifestou o seu desagrado com as várias situações que foram expostas. Uma criança que hoje vai ter de ir à escola e que será certamente confrontada pelos colegas com todas as situações em que o pior de si foi transmitido pela televisão, para todo o país.
2 - O direito à reserva da intimidade da vida privada (por exemplo, foi-lhe imposto que tomasse banho diante de uma estranha e com uma câmara de televisão presente). 3 - O direito à proteção pela pessoa em quem confia

Peço-vos o favor de verem o programa e de agirem de imediato - é necessário impedir que mais crianças sejam maltratadas desta forma. Muito obrigada pela vossa atenção.



É importante reiterar que as crianças não pertencem a ninguém.: as crianças são sujeitos de direitos e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados a zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir.

E o Estado somos todos nós. 

A Super Nanny ou "Kid Whisperer"




Comecemos pelo título: " a super nanny" que afinal não é nanny, que em português significa "ama" ou- se formos aos antigamentes- "perceptora", que supostamente baralha aqui um bocadinho o papel de uma psicóloga que é o que é a protagonista do programa. Urge perceber que são coisas diferentes, só naquela de começarmos a chamar os bois pelos nomes.

Quando comecei a assistir aos spots publicitários do programa os meus olhos começaram a tremelicar mas aprendi que, nestas coisas, não se pode julgar um livro pela capa e aguardei pelo programa para emitir juízos de valor com conhecimento de causa. De facto estava enganada: foi pior que o que imaginei.

E assim começou o programa com o anúncio de que "A "Super Nanny" já está a caminho" no seu mini amarelo, tal bombeiro tinoni-tinoni que vai acudir a um acidente mas na missão de "tornar as famílias portuguesas mais felizes", de indumentária de perceptora-secretária-de-óculos-de-massa-sexy. Ufa, fiquei muito mais descansada! Só que não.

Vamos colocar aqui uns sons para tornar a coisa mais tcharam e filmar algumas expressões visuais de desaprovação da "nanny" para tornar a coisa mais emotiva: checked.

Não conheço esta mãe e não a quero julgar. Conheço o que transmitiram dela na televisão e o que os produtores do programa seleccionaram para que eu e todos os telespectadores pudéssemos fazer um guião na nossa cabeça sobre as suas competências parentais. Não o quero aqui fazer, nomeadamente, no que concerne à capacidade de reagir e gerir as emoções da filha que demonstrou no programa (embora ali denote muitos dos clichés dos pais portugueses, a maioria tão- mal- enraizados que nem se consegue ter um sentido crítico sobre eles, desde argumentos que se refugiam em figuras externas de autoridade para impôr regras que devem ser impostas pelos próprios pais como o famoso "se não comeres vou chamar o polícia" ou "se não te portares bem vou dizer ao pai Natal" ou mesmo "vem o papão/homem do saco/ASAE/Ministro das Finanças",ou, no caso desta mãe, o famoso "vou telefonar para o teu pai", também muito em voga em famílias monoparentais, em que é confortável que o bad cop seja o progenitor ausente durante a situação e, por isso, impossibilitado de gerir a situação; às típicas atribuições causais externas do "a minha mãe estraga-a!").

A esta altura, depois de ouvir o nome da "Margarida" umas 252432 vezes, depois de ver a imagem da Margarida umas 23262829 vezes comecei a ficar zangada com esta mãe. Não pela forma como geria bem ou mal ou não geria ou não ajudava a gerir o comportamento e as emoções da filha mas pelo facto de a desproteger e expôr desta forma.

A birra é uma estratégia da criança expressar o que quer ou não quer, as suas emoções, zangas e frustrações e, especialmente, as suas necessidades (de atenção, de compreensão da situação específica, de se fazer ouvir). A birra faz parte do desenvolvimento sócio-emocional da criança, constituindo manifestações/ reacções da criança ao Mundo quando ainda não se encontra na posse de outras ferramentas, estratégias ou estadios emocionais que lhe permitam exteriorizar a sua frustração face aos acontecimentos que lhe sucedem. 

A criança é apenas criança, alguém que está a estruturar a sua personalidade, a organizar os seus pensamentos, valores e as suas atitudes, e que por isso tenta perceber, interpretar e dominar o ambiente onde se insere. E incluir-se nele. Posicionar-se no Mundo. E faz parte deste processo de apropriação o colocar em causa as regras estabelecidas, o negociar, o lutar pela prevalência das suas vontades e desejos (até porque as crianças são inatamente egocêntricas), num constante desafio face aos adultos que lhe são próximos. 

O problema é que generalizamos, muitas vezes, birras e catalogamo-las de má educação, quando nem sempre isso é verdade. Quando ouvimos este comentário, era importante questionar sobre o que é ser mal educado. É desafiar regras impostas? É lutar pela satisfação das suas necessidades imediatas? É manifestar-se emocionalmente face a situações que não vão de encontro aos seus desejos? 

 Mas a verdade é que os pais são constantemente desafiados. E os grandes desafiadores não são os seus filhos mas os outros adultos, num mundo onde a informação está à distância de uma actualização de uma página de rede social, onde tudo acontece no imediato e onde os “crescidos” deixaram de saber esperar, também.

Margarida fez muitas "birras" durante o programa. Margarida não queria ir para a cama depois da mãe utilizar como estratégia cansá-la a assistir a desenhos animados antes de a mandar dormir. Cansou-a, de facto, mas não a fartou: excitou-a, expô-la a uma série de estímulos visuais e sonoros que a excitaram, quando a altura era de a acalmar e relaxar, preparando-a para o sono que se seguiria. Depois de uma espiral de choro e birra face a recusa em ir para a cama, a inflexibilidade de a mandar para o banco do castigo e a recusa da criança naquele: "Vai para o banquinho", quando estava cansada dos estímulos dos desenhos animados e da hora avançada e exausta de tanto chorar e gritar. E foi. Num estado emocional de profundo descontrolo às dez da noite e na preparação para adormecer. Pior, a má da fita foi quem? A Margarida. 

Podemos falar no "banquinho"?  A criança só consegue pensar de forma crítica e reflexiva acerca dos seus actos, compreendendo, de facto, as questões valorativas e morais das regras. O castigo tem que ter uma relação de causa-efeito com o erro das crianças. Imaginemos a seguinte situação: a Margarida atira comida para o chão de propósito e recusa-se a apanhar, fazendo uma birra enorme quando insistimos e sabendo, claramente, que está a fazer um disparate. Mandar para o "banquinho", ir pensar no disparate que acabou de fazer não serve para nada, para além de dar tempo à mãe para respirar fundo e descansar a cabeça (ou seja, não é um castigo para a criança, é apenas um escape para o adulto). A estratégia tem sempre que relacionar numa lógica causa-feito o erro com a consequência, ou seja, "sujaste o chão, agora limpas, não há outra alternativa que não essa" (mesmo que limpe mal e que a mãe tenha que limpar melhor a seguir, sem que ele perceba, mas tem que limpar).  Mais ainda, o castigo não pode ser atribuído sem que seja dada à criança a oportunidade de o corrigir ou minimizar, responsabilizando-se pelos seus actos e agindo sobre eles. Isto quer dizer que se a Margarida dá uma palmada à mãe, de forma zangada e deliberada (o que não sucedeu, o que eu assisti foram apenas reacções de impulso à frustração) após ser contrariada ou numa situação de confronto, deve ser orientada pela mesma acerca do reconhecimento e gestão da emoção bem como da razão do erro, tendo a oportunidade de gerir as consequências que a sua acção causou ("Podes vir conversar comigo, para eu te explicar o que sinto quando me bates e pedir-me desculpa porque me magoaste?!). Ou seja, não é convidando a criança a isolar-se num canto a pensar no seu erro que ela o vai assimilar, assumir e tentar corrigir ou minimizar. É mostrando-lhe as consequências directas do seu acto e a forma de as tentar resolver de forma directa e participativa. Nenhuma criança pequena vai, efectivamente, reflectir acerca das consequências dos seus erros virada para uma parede sozinha. Nenhuma. Nem há qualquer função pedagógica nesta prática e se não mostrar ao seu filho o que pode fazer para corrigir ou minimizar o erro ele nunca terá hipóteses de alterar o seu comportamento porque não conhece alternativa e não percebe as consequências directas do disparate que acabou de fazer. E ninguém aprende sem compreender a realidade. E a realidade não se aprende virado para um canto de uma parede a pensar na morte da bezerra. Portanto, metam o "banquinho" num sítio que eu cá sei. 

Margarida não queria tomar banho na presença de uma estranha que acabara de conhecer e que lhe entrara pela casa adentro, violando o seu espaço e tempo de privacidade e intimidade, pedindo-lhe "beijinhos" de forma demasiado "nanny" e "pouco psicóloga" (ai esta coisa dos adultos precisarem do afecto das crianças e sugerirem-lhes contacto físico para se sentirem queridos e respeitados...). Margarida gritou: "Tu não mandas em mim!". Ah, abençoada, Margarida: a esta altura até a mim me apetecia berrar. 

 "Eu quero ir para o teu quarto" (fuga à situação de exposição com a câmara de filmar à frente), "Eu quero colo" (necessidade de conforto), "Eu não quero ir para o banco, quero ir para a cama" (fuga à humilhação)", ""Quero colo, Mãe!" (necessidade preemente de afecto e pedido de protecção) e "Eu quero dormir no teu quarto"- ouvia-se amiúde. Margarida queria acabar com aquele suplício.

Margarida gritava por socorro nesta peça, não gritava porque fazer birras era fixe. Margarida queria pôr fim aquele ciclo de violação da intimidade (ainda por cima permitida e validade pela mãe, uma das pessoas em que mais deveria confiar e a mais deveria proteger), de pressão para se comportar de forma autómata ("Toma lá o sapinho e obedece, se faz favor!"- Pavlov explica), de corresponder às expectativas dos adultos e de intromissão nas relações bidireccionais entre os diferentes membros da família (e na minha cabeça, novamente, a imagem da  "nanny" a pedir beijinho assim que conhece a criança, "a nanny" a assistir ao banho, num total desrespeito pelos limites da privacidade e do corpo da criança, a "nanny" a mandar a mãe dar um beijinho à avô, ah esperem- se calhar está certo é mesmo "nanny", não estou certa que esta senhora perceba assim tanto de Psicologia...). 

""Ela não dá valor nenhum à mãe" - dizia a mãe e eu já nem me lembro do nome da mãe, para que se veja como todo o foco e o ónus destas questões ficaram sobre os ombros de uma criança de sete anos.

A mãe de Margarida está cansada. E precisa de ajuda, talvez muito para além das questões parentais. A valorizar-se a ela mesma e a sentir-se valorizada e não colocar essa responsabilidade na filha. 
Talvez, em primeiro lugar, se deva ajudar a mãe da Margarida, não a Margarida. Deve ajudar-se a mãe da Margarida em contexto psicoterapêutico, respeitando o seu direito à confidencialidade e privacidade, treinado com ela competências de gestão das próprias emoções, ensinando-lhe ferramentas e estratégias, acompanhando o seu percurso. No que diz respeito às competências parentais, deve envolver-se o pai neste processo, quem sabe em terapia familiar (se for caso disso) porque a Margarida é filha de um casal e a ambos compete delinear  gerir o projecto de vida da filha comum, e que é completamente alheio às questões da conjugalidade. Com regras, com ética, com respeito pela individualidade desta mãe.

Da forma que ela deveria ter feito com a sua própria filha.  

As crianças não pertencem a ninguém.: as crianças são sujeitos de direitos e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados a zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir. Exemplo: se por convicção religiosa ou outra os pais recusam tratamento médico necessário (seja uma transfusão, seja outro simples tratamento), o Estado, via tribunal de menores, pode determinar seja prestado o tratamento. Caso exista um risco iminente para a vida da criança, os médicos podem tomar a decisão de tratar, antes ainda de expressa determinação do tribunal. 

Em suma, os pais não têm o direito de expôr publicamente os filhos. Têm é o dever de os proteger.

"Ah, a Margarida começou- finalmente!- a dormir no próprio quarto depois de muitas zangas"- declarou, vitoriosa, a mãe no fim da peça. Claro, cansaram-na, tornaram-na exausta, fizeram-na desistir. Não foi uma vitória, foi um fracasso.
Margarida desistiu, entregou-se, sem perceber porquê. 
Talvez volte ao mesmo quando as câmaras se desligarem e perceber que a mãe precisou de uma testa de ferro para a educar, que a mãe tem dificuldade em estabelecer, ela própria, as suas regras, suas, próprias, com o recurso a algumas figuras de confiança e de referência mas, efectivamente, as suas regras.  Quando a regra não é a nossa,temos que a incorporar em nós. Ninguém sabe ou pode educar os seus filhos com maior preparação que os próprios pais. Porque se as regras para educar não são suas, mas dos especialistas, dos gurus da psicologia ou da educação ou da saúde infantil- das nanny, que seja!-  e não as incorporam; se são as regras do pediatra, da psicóloga, da internet ou da amiga, não estão interiorizadas e são externas, os pais perdem o seu papel enquanto figuras de autoridade.

De todos os erros da mãe da Margarida- que eu não queria esmiuçar mas que acabei por fazer: mea culpa- , este foi claramente o pior: expôr brutalmente as emoções da filha, como se delas fosse proprietária. Transmitir,  em formato de reality show- como vemos fazer as senhoras da Casa dos Segredos aos gritos ou nunca nos esqueceremos da Gisela do Masterplan num melt down à beira Tejo- as emoções de uma criança que hoje, segunda feira, irá à escola.
Onde será "famosa" não pelas melhores razões, onde será exposta a comentários, e muito provavelmente, apontada, talvez gozada ou ridicularizada, O bullying entre pares nesta idade é esmagador e a Margarida precisa de amor, não de machadadas na sua auto-estima e no seu auto-conceito, promovidas e validadas pela sua figura de referência maternal. Aquela em quem mais deveria confiar no Mundo.

E- infelizmente- vaticino que para minimizar o impacto disto não seja preciso uma "nanny" nem uma "educadora" mas uma psicóloga a sério. Das que não coagem ao beijinho, das que se constrangem face a assistir a banhos de crianças que não as suas, das que não forçam mãe e avó a cumprimentarem-se com o afecto que a câmara de filmar reclama. Das que não usam banquinhos.

À SIC recomendo que adoptem para Portugal o formato "dog whisperer" já que este "kid whisperer" não funcionará. É que aqui não bastam biscoitos de recompensa em formato de sapos com íman nem passear as crianças enquanto se faz jogging pelo bairro para as cansarem. Aqui é preciso respeitar o direito a ser-se pessoa na infância. 

Um abraço solidário, querida Margarida. Pudesse eu dar-te colo. 

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